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Algarve: não há água sem Justiça

Nem no meio da mais completa catástrofe o governo trata do que interessa: converter todas as monoculturas intensivas em produções sustentáveis, converter uma parte das explorações em culturas de sequeiro, obrigar hotéis e campos de golfe a investir no aproveitamento de águas residuais.

A seca no Algarve está nas bocas do país, muitos anos depois do que devia. A emergência climática tornou os temas ambientais uma parte integrante do debate político e forçou quase todas as forças políticas a adotar algum tipo de discurso ambientalista. No entanto, muitos desses discursos contêm uma forte dose de hipocrisia, na medida em que se tornam um pretexto quase transparente para novos negócios, nova formas de predação do trabalho ou de recursos comuns.

É por isso que a parte mais consequente do movimento ambientalista se tornou um movimento pela justiça climática. Por compreender que a crise climática tem responsáveis específicos e que as suas consequências terão vítimas igualmente específicas. A crise climática vem dos de cima e abate-se sobre os que estão em baixo, na destruição dos seus territórios, dos seus recursos, da saúde, do seu trabalho. Um combate consequente contra as alterações climáticas e as suas consequências é um combate contra um m economia desigual e os seus donos.

No Algarve, há muitos anos que associações, movimentos e instituições académicas alertam para a iminência de uma catástrofe da água e para o carácter insustentável do modelo económico daquela região. O Algarve, pura e simplesmente, não aguenta ter extensões intermináveis de monocultura intensiva de regadio. Não aguenta que se ande a regar campos de golfe ou jardins público e privados com água potável. Há uma cultura de impunidade na forma como alguns negócios exploram abusivamente um recurso que é de todos. Mas há também muita desigualdade no acesso a esse recurso. Enquanto grandes empresários e multinacionais plantam abacatais a perder vista e usam toda a água que conseguem enquanto ela não acaba, muitos outros produtores agrícolas mantêm as suas explorações e territórios vivos sem sequer terem acesso à rede de regantes. A crise da água no Algarve é uma história de abuso e irresponsabilidade mas não, não são todos culpados. É sobretudo uma história de desigualdade.

Para o governo, obrigações, aumento de preços, racionamento, multas e ameaças estão reservadas para quem usa a água para beber, cozinhar e tomar banho

Agora que chegou o momento em que o território apresenta a fatura, o governo corta cegamente e a eito em todos os consumos sem qualquer distinção entre as responsabilidades e as alternativas. A água para beber e a água para encher piscinas, a água para produções sustentáveis e a água para a monocultura intensiva. Entretanto, nada muda. A água para consumo doméstico será racionada, os aumento de preços já foram anunciados e até vão ser anunciadas multas para os prevaricadores. Mas nada disso impede a autorização de mais 722 hectares de abacatal ou a impunidade das explorações que nem autorizadas foram. As famílias vão apertar o cinto para que tudo fique na mesma.

É nessa realidade que esbarra a justiça ilusória do corte cego. Nem no meio da mais completa catástrofe o governo trata do que interessa: converter todas as monoculturas intensivas em produções sustentáveis, converter uma parte das explorações em culturas de sequeiro, obrigar hotéis e campos de golfe a investir no aproveitamento de águas residuais num curto espaço de tempo. Para o governo, obrigações, aumento de preços, racionamento, multas e ameaças estão reservadas para quem usa a água para beber, cozinhar e tomar banho.

É claro que não tem de ser assim. Quem há muito tempo aprendeu a trabalhar com os recursos de que o seu território efetivamente dispõe, quem não está de malas aviadas para ir explorar outros recursos quando estes forem exauridos, quem há muito alerta para o beco sem saída do modelo atual, não vai ficar calado a ver isto acontecer. Se no fim houver sacrifícios a fazer para salvar a região, as pessoas estarão certamente disponíveis. Desde que não seja para ficar tudo na mesma.

Artigo publicado em Setenta e quatro a 25 de janeiro de 2024

Sobre o/a autor(a)

Eurodeputado e economista.
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