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Alerta Laranja

O congresso do PSD deve fazer soar na oposição um forte alerta laranja. Como é possível que, em última análise, a presente maioria continue tão sorridente?

Do congresso do passado fim-de-semana destacou-se sobretudo a realidade paralela em que vive o partido laranja. O PSD vê um país que ninguém vê, aponta milagres que ninguém vislumbra e lança foguetes sem que ninguém perceba porquê. Um bando de loucos, portanto, que se reuniu no Coliseu. Mas mais do que a insanidade eufórica que por aquelas bandas andou, é sim preocupante a leveza com que puderam assumir publicamente a sua loucura. É sim preocupante o grande à vontade sorridente com que se apresentaram ao país e gritaram vitória. Sem grandes rodeios, sem falsas humildades, e com maior ou menor loucura, todos vimos um PSD triunfante, seguro de si e dos seus feitos no país.

Todo este cenário é alarmante. Quando um Governo assumidamente austeritário se apresenta tão otimista e tão cheio de vitalidade três anos depois de ter iniciado a sua sova ao país, algo vai mal. Com Portugal feito em cacos, com todos os indicadores a demonstrarem que bateu no fundo, sem qualquer reforma estrutural conseguida, assistimos mesmo assim a uma maioria com ar vitorioso e pronta para a batalha que se segue.

E o otimisto é tanto que até se dão ao luxo de cometer erros de casting grosseiros. O regresso de Relvas é um bom exemplo a este respeito. Mesmo sabendo todos os danos que tal opção lhe traria, Passos não teve grandes problemas em assumir perante o país a falta que sentia do seu velho amigo. E se o fez, é porque está certo que tem margem para tal e que o risco compensa.

O congresso do PSD deve fazer soar na oposição um forte alerta laranja. É que apesar das sondagens apontarem para uma derrota da maioria nas Europeias, os números já foram mais tranquilizadores a este respeito. Como é possível que, nas eleições tipicamente mais propensas a votações de protesto, a esquerda consiga a proeza de deixar fugir um excelente resultado?

Podem naturalmente ser encontradas explicações mais estruturais a este respeito. Destaque para a velha e paradoxal tendência dos eleitores votarem tipicamente mais à direita em momentos de crise económica. De qualquer modo, para lá das explicações estruturais ou exógenas, a esquerda, toda a esquerda, pode e deve refletir sobre como é possível não estar a agarrar consistentemente a vaga de descontentamento que varreu o país nos últimos anos. Como é possível que, em última análise, a presente maioria continue tão sorridente?

Sobre o/a autor(a)

Politólogo, autor do blogue Ativismo de Sofá
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