Aferição: avaliação ou examinite aguda?

porDeolinda Martin

05 de março 2025 - 16:51
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É um erro pedagógico e organizacional, para mim, impor às escolas anualmente, vários momentos de paragem: ora provas de aferição, ora provas de exame! Penso ainda, que estas provas deveriam ser aplicadas por amostragem.

Não resisto a abordar um tema, polémico, mas que vai ocupando subtilmente a sociedade em que vivemos, diariamente: a avaliação! A maioria das pessoas da minha idade, sexagenária, cresceram no ambiente em que quer em família quer na escola imperou a máxima: “Não faças isso que parece mal!” Todos passámos por um momento em que isto nos era falado, algumas vezes era mesmo gritado: “Parece impossível, lá estás tu a fazer isso, já te disse várias vezes que parece mal!” Pois era um sistema normativo de comportamentos que não permitia coisas como por exemplo rir muito alto, falar em determinado tom de voz, passear na rua com algumas companhias, vestir determinadas peças de vestuário... Enfim, quanto a mim, cresci com uma sede enorme de liberdade, de fazer o que me apetecia, o que me dava alegria, sem pensar nas consequências, por vezes altas, de tudo isso. Este ambiente de permanente avaliação, suscitava uma onda de indignação permanente em nós, desde logo porque quando questionávamos os que nos impunham tamanhas regras, a resposta era quase sempre, o simplista: “Porque sim!”

Lembrei-me, de toda esta minha experiência quando refletia sobre as provas de aferição, aplicadas a alguns anos do sistema de ensino, que têm como fim aferir as lacunas de aprendizagem no mesmo e permitirem que sejam desencadeadas medidas que as corrijam. Até aqui, o princípio parece-me bom! Contudo, desde a sua implementação têm sido alvo de acesas discussões ao longo dos anos, já tiveram diferentes formatos, mas continuam a ser aplicadas ano após anos, sem que nos seja permitido, publicamente, perceber a identificação dos problemas encontrados. Nas escolas, os dias da sua preparação e realização, vivem-se da mesma forma, que os dias de exame nacional! Há até Secretariado de Exames e professores nomeados para as acompanhar.

Estará isto certo? Será que tudo isto conduz ao objetivo pretendido?

Pois, para mim, não! E lá estou eu a meter a foice onde não devo, não parece nada bem, mas cá vou eu… Pois, deixem-me expressar a minha posição relativamente a isto e depois tirem as vossas opiniões, que claro, respeitarei. Para mim, a aferição de saberes e conteúdos programáticos, não deveria obedecer a um calendário rotineiro, anual, só deveria ocorrer após a implementação das medidas corretoras das assimetrias anteriormente encontradas. É um erro, para mim, pedagógico e organizacional, impor às escolas anualmente, vários momentos de paragem: ora provas de aferição, ora provas de exame! Penso ainda, que estas provas deveriam ser aplicadas por amostragem, escolas selecionadas em vários pontos do país em que os resultados anteriores teriam sido muito preocupantes e bem como em escolas como com bons resultados. A sua seleção seria feita de forma sigilosa! Esta metodologia, serviria para em termos comparativos, ajudar a perceber que estratégias pedagógicas a implementar ou que correção a fazer aos currículos para ajudar estas comunidades educativas a ultrapassarem as suas lacunas ou deficiências.

Mas, não é nada disto que se passa na realidade! Porquê? Porque parece bem, para a opinião pública que as escolas tenham todos estes momentos de exames, para alguns é garantia de qualidade e de que afinal o ensino não é uma grande rebaldaria! Exames a todo o gás, damos-lhes nomes diferentes para parecer bem! Pobres dos alunos e dos professores, que com currículos extensíssimos, fazem tudo para conseguir os objetivos definidos para cada ano…Muitas vezes, dados sem tempo para o seu aprofundamento e consolidação!

É urgente que todos e todas façam uma paragem e pensem em todos os instrumentos pedagógicos e educativos e os adequem devidamente, dando serenidade e tempo para que eles possam ser trabalhados em condições que permitam que cada aluno e aluna saiam do sistema educativo com competências para a sua trajetória pessoal e profissional. Quando isto acontece, parece-me muito bem, tão bem…!

Deolinda Martin
Sobre o/a autor(a)

Deolinda Martin

Professora aposentada. Dirigente sindical.
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