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Acima das possibilidades

Quando Marisa Monte diz “a gente não quer só comida/a gente quer comida, diversão e arte”, só pode estar a delirar ou a sonhar e sonhar é algo bem acima das nossas possibilidades.

Quando Marisa Monte diz “a gente não quer só comida/a gente quer comida, diversão e arte”, só pode estar a delirar ou a sonhar e sonhar é algo bem acima das nossas possibilidades, porque as necessidades humanas estão hierarquizadas e toda a gente sabe que a diversão é fútil e a arte é farsa ou a diversão é farsa e a arte é fútil.

Se ela insiste e clama que “a gente não quer só comer/a gente quer comer e fazer amor”, então está à beira do precipício; alma ignara que não se apercebe que fazer amor é para almas requintadas, os pobres procriam e criam e são mal-criados, as pobres abrem as pernas para parir e largar filhos no mundo, que pobres se tornarão, numa odisseia infinita, como aquele pelicano do poema de Robert Desnos, que deita um ovo de onde sai um outro pelicano que deita outro ovo e assim sucessivamente, até ao dia em que se faça uma grande omeleta.

E pobres são sujos, encostam-se ao Estado e sujam-no de pedidos de subsídios, enchem os hospitais e centros de saúde de tosse duvidosa e tropeçam às vezes nos centros comerciais, mandriões irreversíveis, porque, como já escreveu Lobo Antunes numa crónica memorável, ser pobre é mais do que um destino, é uma espécie de vocação, onde apenas lhe resta escolher entre ser bom pobre, o que aceita a esmola para a salvação da alma dos caridosos ou mau pobre, o que bebe vinho, tem os dentes partidos, fuma, e às vezes guilhotina reis e outros menos soberanos.

E a cantora insiste na letra desse subversivo Arnaldo Antunes: “a gente não quer só dinheiro/a gente quer inteiro e não pela metade”, quando toda a boa sociedade sabe que o pobre e o dinheiro são como o sol e a lua, pobre não sabe o que fazer com a carteira, gasta tudo no minuto seguinte, vejam os velhotes e as guloseimas, os miúdos e os concertos rock, como ousam, os nossos pobres, os nossos lusitanos pobres, os nossos carentes e brandos pobres, querem agora “bebida, diversão, ballet”, os nossos, tão nossos pobres, ordeiros, nas filas, expectantes, domésticos, domesticados, quiseram um dia bife e música e felicidade e internet, ora voltem lá para as vossas casas pardas, albergues e mansardas, pobres nasceram, pobres morrerão.

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, professor universitário, Presidente da Associação Portuguesa de Sociologia. Dirigente do Bloco de Esquerda.
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