Acidentes de Trabalho: o lado escondido da ganância capitalista

porJosé Castro

02 de outubro 2010 - 23:00
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Os números mais recentes sobre acidentes de trabalho continuam impressionantes. Os mais afectados são os trabalhadores com vínculo contratual precário.

No mês de Setembro esteve patente no átrio da estação de S. Bento no Porto uma exposição organizada pela ANDST - Associação Nacional dos Deficientes Sinistrados no Trabalho.

Através de quadros, gráficos e fotografias, os milhares de pessoas que utilizam aquela estação ferroviária puderam obter uma imagem forte de rostos e corpos feridos, queimados, mutilados, retrato duma realidade que é marca do atraso do país, a elevadíssima sinistralidade laboral, praticamente o dobro da média europeia.

Os números mais recentes sobre acidentes de trabalho, publicados em Agosto de 2010 pelo GEP do Ministério do Trabalho e da Segurança Social continuam impressionantes: em 2008, apesar do crescente desemprego e da diminuição das empresas em actividade, o número de acidentes de trabalho ocorridos – 240.018 - (que não inclui os verificados no trajecto de e para o local de trabalho) foi o mais elevado dos últimos seis anos. Outros elementos a destacar: mais de metade dos acidentados têm menos de 44 anos. Os mais afectados pelos acidentes de trabalho são os trabalhadores com vínculo contratual precário. E é nas micro e pequenas empresas (até 49 trabalhadores) que ocorrem 70% dos acidentes mortais.

Os sinistrados são gente trabalhadora que é ofendida na sua integridade física e psíquica, muitas vezes para sempre, em resultado duma prática empresarial que não dá atenção nem à organização dos processos de trabalho nem à necessidade de técnicas preventivas na realização das tarefas. São homens (75%) e mulheres (25%) vítimas da ganância capitalista.

Os custos económicos da sinistralidade são brutais: juntando aos acidentes de trabalho as doenças profissionais (cujo número de pensionistas é já superior a 30.000), são mais de 1,5 mil milhões de euros/ano. Mas nem assim há uma intervenção adequada das entidades responsáveis.

É na região Norte que ocorrem mais de 40% dos acidentes de trabalho, a que correspondem quase três milhões de dias de trabalho perdidos. Mas é o distrito do Porto que continua a ser o campeão na sinistralidade laboral – 21% do total nacional. E é também o distrito do Porto que vai à frente (mais um triste recorde) no número de mortos em acidentes de trabalho – 17% do total nacional.

A organizadora da exposição, a ANDST, é uma instituição com sede no Porto ,fundada em 1976, e que tem vindo a fazer um notável trabalho de apoio e defesa das vítimas de acidentes de trabalho e doenças profissionais. É necessário um outro olhar da sociedade sobre a sinistralidade laboral Mas o que é absolutamente imprescindível é a mudança de atitude das empresas, para que acabe o desprezo pelas condições de trabalho e passem a ser cumpridas as regras mais elementares de segurança no trabalho. É preciso reduzir drasticamente a ocorrência de acidentes de trabalho e doenças profissionais, para que os locais de trabalho passem a ser espaços seguros, de realização humana e profissional. Este é mais um combate da esquerda em Portugal.

José Castro
Sobre o/a autor(a)

José Castro

Jurista, pós-graduado em Planeamento Urbano e Regional
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