Nos últimos dias, as redes sociais têm sido palco de uma insurgência contra o reality show da TVI, Big Brother, mais particularmente no que toca à figura que foi apresentada como a grande estrela desta edição, Bruno de Carvalho. Aquando da sua entrada, Bruno de Carvalho foi sem dúvida aquele que mais atraiu espectadores para o formato. A TVI, naturalmente, lucrou com a sua estadia no programa, razão pela qual segundo o que se diz, este é o concorrente mais bem pago desta edição.
O que talvez não seria previsível quando o convite foi feito a Bruno de Carvalho para entrar no programa era que este eventualmente iria envolver-se numa relação amorosa com outra concorrente e agir de formas que podemos catalogar como, no mínimo, duvidosas no âmbito dessa mesma relação.
As atitudes de Bruno de Carvalho fizeram-se notar ao longo de várias semanas. Começaram por um exercício de pressão para que a sua companheira assumisse que aquilo que tinha consigo era, efetivamente, uma relação. Pouco depois, e após ser assegurado de que estariam comprometidos, Bruno de Carvalho iniciou um processo de constante tentativa de separação entre o casal e os restantes concorrentes, muitas vezes de forma descarada, tentando convencer a sua companheira de que ele era a única pessoa que se preocupava com ela e, consequentemente, o único com quem ela deveria falar.
O que testemunhámos na TVI é o exemplo prático daquilo a que se referem os profissionais quando nos alertam para os perigos de violência no namoro. Os abusos não começam necessariamente na violência física, mas sim num processo, que pode ser mais ou menos demorado, de manipulação psicológica e isolamento social.
Assistimos em direto àquilo que é a realidade de muitas pessoas que são vítimas de relações tóxicas e abusivas. Sabemos já que a violência doméstica é o crime mais cometido em Portugal, com os dados mais recentes a apontar para uma média de três queixas por hora às autoridades. Foram 23 as vítimas mortais deste tipo de crime, no ano passado.
Se há várias semanas esta relação era pautada por atitudes que ficavam abertas à interpretação de cada um, a verdade é que agora é difícil fechar os olhos ao que estamos a ver. Sabendo que alguém está a lucrar com as audiências deste programa, torna-se frustrante observar a passividade da TVI face ao assunto. Tendo apostado na apresentação do Big Brother como um programa com uma componente pedagógica nas últimas edições, a abordagem que tiveram relativamente ao assunto, fala por si. Enquanto as redes sociais continuavam a pedir a responsabilização do canal, e a expulsão imediata do concorrente, a TVI continuava a publicitar esta relação de forma a obter audiências, usando frases como “O clima entre o casal é de clara tensão. Veja o que se passou!”.
Quando se tornou impossível ignorar os protestos daqueles que se insurgiram contra o que estavam a ver, e também pelas obrigações legais do programa em avisar o concorrente acerca da queixa feita contra si, a TVI escolheu a narrativa que mais jogasse a seu favor, e que mais legitimasse o silêncio a que se tinha remetido. Durante três horas, tivemos confirmação, da parte de Cristina Ferreira, de que para a TVI é legítimo explorar a violência de género em prol de audiências. De que não se deve “julgar” o opressor, mas se pode demonizar as redes sociais e o seu papel como forma de expressão de milhares de pessoas, cuja opinião difere daquela que têm os que navegam esta situação obedecendo aos interesses do canal.
Como demonstrado por um estudo da UMAR, apresentado em Fevereiro de 2021, 67% dos jovens consideram legítima alguma forma de violência no namoro. Face a estes números, torna-se óbvio o perigo acrescido que é a normalização deste tipo de comportamentos, e a aceitação da sua transmissão, motivada pelo lucro que dela pode surgir.
É urgente que a TVI se demarque deste tipo de comportamentos, não normalizando o abuso, e muito menos servindo-se dele para atingir os seus objetivos enquanto empresa e meio de comunicação social. Mais que tudo, é imperativo mostrar a todas e todos que este tipo de comportamentos não é aceitável em nenhum contexto, e que não é preciso violência física para que medidas sejam tomadas.