43 minutos

porMiguel Portas

05 de março 2011 - 0:15
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Durou 43 minutos o encontro entre Merkel e Sócrates. Mais 13 do que o anunciado.

Durou 43 minutos o encontro entre Merkel e Sócrates. Mais 13 do que o anunciado. No momento em que escrevo sabe-se do que falaram, não do que se decidiu, e se é que algo, aí, se decidiu. Falaram da dívida soberana portuguesa, do Fundo Europeu de Estabilização Financeira e do não-Pacto que a Alemanha e a França subscreveram em escrita invisível. Mas já não fazemos a menor ideia se aqueles 13 minutos de bónus foram, como o número gosta, os do azar. Peres Metelo, um analista económico habitualmente sensato, falou em “caldo entornado” se Sócrates não conseguisse convencer Merkel das suas boas intenções, do rumo que o país leva ou de algo assim parecido. Terá precisado ele dos 13 minutos ou, pelo contrário, foi a chefe em acto da Europa que os aproveitou para discriminar, detalhe a detalhe, as suas instruções à província do sudoeste? Eis o tipo de especulação que só as novidades das próximas semanas acabarão por deslindar. É que, a avaliar pelo título do Público – “Merkel elogia reformas em Portugal, mas diz que é preciso mais” – o nosso primeiro não teria ido a despacho, mas a consulta à mais famosa das pitonisas de Berlim. A chatice é que a senhora se repete e todos os de Bruxelas a repetem: afinal, há muito sabemos estar no “bom caminho” e que, por isso, virá ainda pior. Isto cansa...

O que é estar no “bom caminho”? Foi o que procurei explicar a uma plateia europeia nesta manhã. “Bom caminho” é estar o salário a perder por três vias distintas: na Função Pública, porque perde em valor absoluto e Teixeira dos Santos quer que o mesmo suceda no sector privado; o salário reduz-se, em segundo lugar, por via do aumento IVA; e finalmente, encolhe na sua parte indirecta na medida em que se abatem apoios sociais e aumentam os preços praticados nos serviços públicos. O remédio dos governos não é mais do que uma maciça transferência de rendimentos do Trabalho para o Capital. Suspeito que quando a senhora Merkel diz ser “preciso mais”, seja a isto que se refere.

O ataque ao salário indirecto tem exigido um segundo movimento: o que transforma dívida privada em dívida pública. O salvamento do sistema financeiro em 2008 e 2009 foi, numa escala colossal, isto mesmo. Contudo, não impediu a economia de mergulhar na recessão. Em consequência, os Estados tiveram que “almofadar” os seus sistemas de apoio social e suprir a quebra do investimento privado com algum investimento público. O aumento do défice e da dívida pública foram o resultado de um crime de agiotagem levado a extremos até então desconhecidos. Mas disto não falaram eles. Este tempo não é de almofadas, mas de reguadas e tareias de cinto sobre quem não teve nem tem culpa. Um dia destes ainda se tramam.

Artigo publicado no jornal Sol a 4 de Março de 2011

Miguel Portas
Sobre o/a autor(a)

Miguel Portas

Eurodeputado, dirigente do Bloco de Esquerda, jornalista.
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