25 de Abril: Comemorar, não comemorar, comemorar não comemorando

porMaria Manuela Cruzeiro

23 de abril 2020 - 23:43
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Nesta espécie de “triângulo vicioso” se tem equilibrado ao longo dos anos a celebração desta data fundadora. O 25 de Abril divide. Não se nota sempre. Apenas em períodos de crise como este. E percebe-se...

Em tempos de normalidade democrática, a sociedade, as instituições, o poder político cultivam a ficção do consenso, ou mesmo do unanimismo, e a direita disfarça o incómodo com a velha máxima “se não podes vencê-los, junta-te a eles!” 25 de Abril, dia da Liberdade! 25 de Abril de todos! Slogans vazios, desbotados, retirados do armário um dia por ano, para nos outros 364 atacar e (se houver poder) liquidar sistematicamente cada uma das suas conquistas e promessas.

Foi o que aconteceu durante os vários ciclos governativos pós-revolução, basicamente situados ao centro (com variados equilíbrios mais à direita ou mais à esquerda) os quais acabam por definir o figurino das comemorações “ditas populares”. Isto é: Nada de palavras de ordem, cânticos, protestos, reivindicações que possam dividir! Pelo contrário: Tudo o que possa unir os portugueses num consenso anódino e pacificador! Ou seja, uma imagem do 25 de Abril em versão mínima, quase caricatural. Daí a indisfarçável mágoa daqueles que teimosamente cumprem o ritual, apesar de se sentirem mais participantes em exéquias do que em qualquer celebração festiva. 25 de Abril em baixa densidade, expurgado da sua verdadeira natureza revolucionária e, portanto, de todo e qualquer sinal de rutura ou conflito.

O conflito, a existir, fica sempre contido no lugar que lhe destina a funcionalidade de uma democracia representativa: o Parlamento. E, apesar da forma muito diversa com que cada partido lida com o 25 de Abril - a sua memória e o seu projeto - o certo é que essas diferenças retóricas não beliscam a formalidade institucional engravatada e solene com que o 25 de Abril é recebido na casa da democracia. Um enorme fosso se foi cavando, pois, entre estas duas formas de comemorar Abril, mesmo em tempos de normalidade: a dos discursos sem povo e a do povo sem discurso. Mesmo que comemorado em baixa densidade, ou na sua versão mínima, o 25 de Abril divide. Divisão entre povo e seus representantes, divisão também no próprio parlamento. E não falo, obviamente, do natural, saudável e imprescindível confronto democrático no espaço nobre e livre da AR. Falo sim, em pouco nobres manobras de diversão, das mais engenhosas às mais grotescas, com que a direita não perde uma oportunidade de ensombrar a dignidade de uma comemoração em que ela própria participa de pleno direito. Ao mesmo tempo que sobe à tribuna no uso da liberdade de expressão que o 25 de Abril lhe trouxe, não hesita em lançar mão de todos os expedientes que minimizem o ato comemorativo e desviem a atenção do essencial para o acidental. Incidentes de protocolo, intrigas, faits divers, são o que fica de uma cobertura televisiva feita por jornalistas perdidos na espuma dos dias, e inebriados pelo insólito, pelo anedótico ou pelo bizarro. Há muitos anos seguidos, por exemplo, que a comunicação social elege como momentos altos de reportagem o princípio e o fim da sessão: O início para saber quem usa e quem não usa o cravo, e onde...na lapela? Na mão?... No bolso?... O fim, para ouvir tão só o que cada partido pensa da intervenção do outro. No meio, os discursos não passam de um longo e chato interlúdio!

Contudo, o 25 de Abril divide mais profundamente em tempos de crise. Recuemos um pouco: 2014, pleno período do consulado Passos Coelho e de intervenção da Troika. Todos recordam certamente os 40 anos da revolução (data redonda); a conflitualidade não se ficou pelo Parlamento e alargou-se a toda a sociedade. Intra muros o incidente protocolar habitual, mas mais grave, com a insólita decisão de não deixar falar na sessão solene os representantes dos próprios capitães! O que, obviamente, originou a sua indignação e a consequente promoção por parte da Associação 25 de Abril de uma manifestação paralela. A esta divisão juntou-se todo um vasto programa de celebração que mobilizou variados sectores da sociedade, em manifesto confronto com o governo, o qual agendou justamente para o mês de Abril uma sobrecarregada agenda de encontros com representantes da troika. Gesto que tinha implícito um cínico aviso, ou um mais cínico plano de desforra ou vingança histórica. Era, não esqueçamos, o tempo do país “acima das suas possibilidades”, da pobreza como desígnio nacional, do apagar definitivo da matriz abrilista na Constituição e nas leis deste país.

E já que falamos de datas redondas, recuemos um pouco mais: o que dizer da gigantesca operação de revisionismo histórico levada a cabo pelo cavaquismo, por ocasião dos 20 anos de Abril? E da diabolização da revolução e consequente branqueamento da ditadura e sua figura tutelar? Figura que, aliás, foi alvo de um filão inesgotável de publicações, entre o apologético e o intimista. De “salvador da Pátria” a “homem comum”, cuja dimensão só o mistério, habilmente cultivado, podia tornar interessante. Também aqui o 25 de Abril dividiu. Inevitavelmente. Como dividiu dez anos depois, na passagem dos 30 anos, quando um governo PSD/PP apresentou um programa de comemorações oficiais sob o signo “Abril é Evolução”! Uma autocelebrarão festiva de um presente neoconservador e neoliberal, uma gigantesca manipulação da memória, situada algures entre a amnésia e a mentira programada.

Por tudo isto, esta nova polémica não me surpreende nem me motiva. Porque é já um clássico. Desta vez, a pretexto de uma grave crise de saúde pública, o salto mortal na mistificação e na falácia, para de novo desprestigiar e minimizar o dia 25 de Abril como data descartável, em que o Parlamento podia (ou devia) fechar, quando tem reunido todas as semanas, naturalmente de acordo com as condicionantes conhecidas. Se dúvidas houvesse, bastaria ouvir uma, uma só, das tantas Antenas Abertas monotemáticas que há já dias tomaram conta das rádios; ou passar, mesmo que ao de leve, pelas redes sociais, para concluir o óbvio: salvaguardando raras e honrosas exceções, esta nova polémica mais não é do que substituto ou alternativa para o reflexo pavloviano da direita de atacar sempre que pode o 25 de Abril, por conta das vezes (de mais certamente...) que tem de o comemorar. De forma sempre ressentida e complexada. Ou seja, comemorando-o para mais facilmente o esquecer.

Maria Manuela Cruzeiro
Sobre o/a autor(a)

Maria Manuela Cruzeiro

Colaboradora do CES da Universidade de Coimbra. De 1987 a 2010 foi investigadora do Centro de Documentação 25 de Abril, onde foi responsável pelo Projeto de História Oral
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