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Cuidado com os Spinanços

Não havendo tempo para se indignar com todas as medidas que vão sendo tomadas, apenas as que assumem relevo na agenda são alvo de atenção. As restantes vão passando com uma ligeireza impiedosa. Eis o terreno perfeito para atividades de spin.

Continuam a multiplicar-se as notícias sobre cortes, reduções, racionalizações e outras similares. Continua o clima de quase transe coletivo em que, não havendo tempo para se indignar com todas as medidas que vão sendo tomadas, apenas as que assumem relevo na agenda são alvo de atenção. As restantes vão passando com uma ligeireza impiedosa. Eis o terreno perfeito para atividades de spin.

Vejamos um modelo típico de spinanço. É plantada a possibilidade de se avançar com uma medida extrema. Medida esta que nem foi devidamente equacionada. Apenas serve como “disparate útil” para agarrar as atenções num determinando momento, permitindo que sejam passadas longe dos holofotes uma série de outras medidas tão ou mais graves. Após o debate público, o Governo ganha então a possibilidade de ser magnânimo e recuar na tal medida extrema onde tudo começou, ao mesmo tempo que conseguiu o seu objetivo de passar uma série de outras medidas que encontrariam com certeza forte resistência.

Mas nada como um exemplo concreto para melhor ilustrar este tipo de situação. Veja-se a recente possibilidade da meio hora de trabalho diário adicional para os trabalhadores do sector privado. Depois de uma grande discussão em torno de uma proposta que era um manifesto disparate, o Governo recuou. E já podia de facto fazê-lo, porque enquanto o país discutia a meia hora, um pacote com bolsas de horas, com os dias de férias forçados, com redução nos pagamentos das horas extraordinárias foi passando sem grande oposição. No fim, o Governo teve então oportunidade de fazer o tal recuo magnânimo que ainda lhe valeu um aperto de mão histórico com a UGT. Engraçado, não é?

O recente episódio da mobilidade forçada dos funcionários públicos para qualquer concelho do país parece ter contornos semelhantes. No meio de um pacote alargado de reformas para os trabalhadores da Administração Pública, ganha proeminência uma medida radical que consegue agarrar as diversas manchetes da comunicação social. Não tarde nada e é possível que haja um recuo nesta medida, ao mesmo tempo que uma série de outras passaram já sem grande alarido. O Governo sairá novamente magnânimo e, com sorte, ganhará um novo aperto de mão da UGT.

Estes são tempos extremamente propícios a este tipo de manobras. Não sendo fácil identificá-las e denunciá-las, convém no mínimo estar bastante atento. A desatenção sai um bocadinho cara.

Sobre o/a autor(a)

Politólogo, autor do blogue Ativismo de Sofá
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