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McLurg tinha razão?

Talvez a crueza e a crueldade dos números de McLurg estejam cinicamente corretas. Ou talvez devêssemos olhar da mesma forma para seres humanos que fogem da morte certa. Em Kiev, como em Mogadíscio, em Aleppo ou em Mossul. Uma vida é uma vida.

Não há como disfarçar o horror pela guerra que grassa na Europa e colhe, dia após dia, vidas de civis inocentes. A onda de solidariedade que tem varrido o país e o velho continente é um exemplo e um túnel de esperança para a Humanidade. Posto estes dois pontos prévios, é igualmente factual que as guerras não são todas iguais e que estamos perante refugiados de primeira e de segunda.

Na faculdade de jornalismo aprendíamos, meio a sério, meio a brincar, as célebres Leis de McLurg. Segundo este teórico da comunicação, um morto em Portugal equivale a uma centena de vítimas na China, duas dezenas de falecidos em Espanha será o mesmo, em termos mediáticos, que 300 ou 400 cadáveres no Médio Oriente ou num qualquer país da África Subsariana.

Retirando a crueldade dos números, podemos concluir que o mediatismo que uma determinada catástrofe assume está diretamente e proporcionalmente relacionado com a proximidade geográfica e emocional que nos dista. É assim também com esta cruel guerra na Ucrânia.

Talvez McLurg possa explicar determinados fenómenos de discriminação que têm ocorrido relativamente a refugiados de outras geografias que não a do Leste da Europa. Talvez, em parte. Mas não explica tudo.

No início do mês, alguns académicos do mundo árabe insurgiram-se contra esta discriminação, sobretudo no paradoxo entre a onda de solidariedade face aos refugiados ucranianos, que contrasta com a “crise migratória” provocada pelo afluxo de refugiados sírios, iraquianos e afegãos, entre outros.

O professor de ciência política da Universidade Americana de Paris, Ziad Majed, revelava ao France 24 a sua indignação perante a “magnífica onda de solidariedade” de todo o mundo para com o conflito ucraniano, e uma “distinção chocante” face a outros conflitos que se arrastam há anos noutros continentes.

O académico apontava também as discrepâncias entre o tratamento dado pelos media, “desumanizando os refugiados do Médio Oriente”, a vítimas do conflito ucraniano e de outros embates bélicos em África ou na Ásia.

A Associação de Jornalistas Árabes e do Médio Oriente veio também revelar a sua indignação, condenando “exemplos de cobertura noticiosa racista que confere maior importância a vítimas de um conflito do que de outros”.

Este tipo de comentários reflete a mentalidade penetrante do jornalismo ocidental, que normaliza tragédias em zonas do globo como o Médio Oriente, África, Sul da Ásia ou América Latina”, apontava a associação.

Uma guerra é uma guerra, é certo. E vítimas são vítimas. Mas o tratamento dado pelo mundo ocidental aos vários conflitos em curso está longe de ser igualitário. O que é facto é que um refugiado sírio, iraquiano ou sudanês está longe de ter a mesma solidariedade que as famílias que sofrem e fogem hoje de território ucraniano.

Longe dos populismos da ordem, estaremos perante um caso de discriminação grave. Não é que os ucranianos não mereçam toda a nossa solidariedade. Merecem esta e muita mais. Mas, que o tratamento entre vítimas dos vários conflitos tem sido evidentemente desigual, isso será difícil de negar.

Talvez a crueza e a crueldade dos números de McLurg estejam cinicamente corretas. Ou talvez devêssemos olhar da mesma forma para seres humanos que fogem da morte certa. Em Kiev, como em Mogadíscio, em Alepo ou em Mossul. Uma vida é uma vida.

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