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O amor ao carro e o “carro do amor”

Parece que há por aí umas televisões tipo Sto António, a virar casamenteiras. Ou, pelo menos, ajuntadeiras.

Há dias, não à procura disso (nunca precisei de rezar ao Sto António, bem pelo contrário, sem falsa modéstia) mas por procurar estar sempre a par (para melhor me defender delas) com as ”novas tecnologias” e sobretudo com a tal ”inteligência artificial (IA), reconheço que me chamou a atenção, numa televisão qualquer, ver e ouvir um carro a falar. Um carro inteligente, com certeza. Artificial mas inteligente, não podia haver dúvida.

Olá! Pensei cá para comigo. Tenho que estar alerta com isto, não vá cair na asneira de comprar um destes. Para tagarelas inteligentes ao meu lado quando conduzo, já tenho que chegue.

Afinal, era um dos tais programas casadoiros. Ou, pelo menos, “ajuntadoiros”.

O nome é (ou era, não sei se, inteligentemente, o carro já abalou para outras paragens) “carro do amor”.

Parece que agora já há outros programas do género (uma praga) com outros nomes e adereços, como charruas de agricultor e quejandos. Mas sobre estes não posso falar com autoridade, porque não sou observador e, muito menos, participante.

Mas, voltando ao tal “carro do amor”, chamou-me ainda mais a atenção (apesar de sempre desconfiado sobre até onde ia a IA do bólide), porque ando assustadíssimo com a catástrofe anunciada pelo ministro do Ambiente sobre os carros a gasóleo, visto que a minha “bomba” B2 é disso que bebe (B2 vem daqui, de “bebe”).

Assim, ao ver “carro do amor”, pensei cá para comigo: Olá! Estou safo. Amor é o que não falta por aí. E se faltar, não há problema, faz-se em casa ou em qualquer lado, a qualquer hora, de manhã, à tarde ou à noite (aparece que à noite é mais produtivo). Uma horita deve dar para fazer amor para andar uns cem quilómetros.

Por isso, filado em poupar na gasosa, digo, na gasolosa, fiquei um pouco a (tele)ver aquilo.

Afinal, mais uma aldrabice. O risco que um esperto(inho) pode correr. À procura de um carro e fica agarrado por um programa casadoiro, em que pode dar para também lá ir parar. E, depois, sair de lá casado, ou seja, a puxar uma grande carroça.

Mas, lá que me puxou pelos neurónios, lá isso puxou. Aquilo é execrável:

- É execrável que se “humanizem” carros (até “falam” e tudo...) ao mesmo tempo que se coisificam pessoas;

- É execrável (e retrógrado) que se (tele)promova uma concepção das mulheres (e, em boa verdade, também dos homens) através de um carro que não difere muito do “amor à primeira vista” de quando, há séculos atrás, eram combinados casamentos a partir de um condado ou de um reino;

- É execrável que ao “carro do amor” esteja subjacente a mesma (tele)referência, mercantil e consumista, da do “amor” ao carro;

- É execrável que, tal como do amor ao carro, também do (no) “carro do amor” o objecto, mercantil (de/o mercado), a mercadoria, sejam as pessoas. Tal como no “amor” aos carros, estes são vendidos mostrando (e de que maneira!) mulheres, no “carro do amor” as mulheres e os homens são “vendidos” (com coachs de marketing e de “promoção de vendas” e tudo) mostrando um carro;

- É execrável que cada vez menos se (tele) considerem as pessoas como pessoas na sua condição humana e social, na medida em que cada vez mais se (tele)consideram as pessoas na condição de coisas, não apenas como meros (tele)consumidores mas, mais (menos), como meras (tele)mercadorias;

- É execrável que, ainda mais do que no amor aos carros, o “carro do amor”, pelo mercantil rasto que projecta para a sociedade, seja mais um contributo (neste caso, mediático) para que, cada vez mais, a sociedade (ontologicamente) das pessoas, degenere já não apenas na economia de mercado mas, cada vez mais, na (tele)sociedade de mercado;

- É execrável que se diga que “só lá vai quem quer” e que “só vê quem quer”, porque “o espectáculo não é um conjunto de imagens mas uma relação social entre pessoas mediatizada pelas imagens” , em que “os espectadores não encontram o que desejam, eles desejam o que encontram”i, enfim, em que a referência de interesse público da “comunicação social” degenera em conveniência mercantil de mero “interesse” do público.

Aliás, é sobretudo execrável que, com cada vez mais programas deste tipo, estas televisões se autodenominem “órgãos de comunicação social”.

“Comunicação”? Propaganda. “Social”?. Comercial. Órgãos de propaganda comercial.


Notas:

i Guy Debord (Paris, 28/12/1931 -30/11/1994), em A Sociedade do Espectáculo (1967)

Sobre o/a autor(a)

Inspector do trabalho aposentado. Escreve com a grafia anterior ao “Acordo Ortográfico”
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