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Causas das alterações climáticas: Alterações climáticas são resultado de causas humanas

Até um pouco depois de meados do século XX, a natureza foi considerada como uma fonte inesgotável de vida e de recursos, totalmente controlável e manipulável pela Humanidade. Foi tomada como um simples factor de produção submetida aos desígnios da produção económica, assumindo uma dimensão utilitarista. As alterações climáticas a que vimos assistindo têm causas humanas, que põem em questão o modo de produção.

As alterações no clima são acontecimentos naturais que têm vindo a decorrer desde sempre. Contudo, durante o último século as alterações registadas têm sido mais pronunciadas do que em qualquer período registado até ao momento. Estas alterações são resultado de intensas intervenções humanas sobre o meio natural com repercussões no clima e que se reflectem a uma escala regional e global.

A presença natural de gases de efeito de estufa (GEE) na atmosfera (menos de 1%), ao controlar os fluxos de energia na atmosfera através da retenção da radiação infravermelha irradiada a partir da superfície terrestre (o chamado efeito de estufa, que impede que parte desta se perca para o espaço), permite que a temperatura se mantenha nos níveis actuais. A inexistência destes gases faria com que a temperatura na terra fosse de -15ºC, ou seja, 30ºC abaixo do valor médio actual.

As actividades humanas têm modificado o balanço destes gases na atmosfera, através do aumento das emissões de GEE e de interferências na sua remoção natural (e.g. desflorestação). O aumento da sua concentração na atmosfera tem como consequência mais imediata o aumento da retenção das radiações e, consequentemente, o aumento de temperatura da terra.

A Revolução Industrial marca o início do aumento acelerado da emissão de GEE, sobretudo do CO2, para a atmosfera. A queima dos combustíveis fósseis (primeiro do carvão, depois do petróleo e agora a crescer do gás natural) é o principal responsável por este aumento. O consumo crescente de energia primária e de energia final por parte da economia mundial (estando ambos os crescimentos associados), bem como a produção artificial de novos GEE, levaram à situação insustentável em que nos encontramos hoje. Por outro lado, a intensa desflorestação mundial tem levado a que o importante sumidouro de carbono que é a floresta não tenha contribuído mais para aliviar o Planeta das intensas emissões de CO2 que se têm verificado.

GEE

Aumento da concentração desde 1750

Contribuição para o aquecimento global (%)

Principais fontes de emissão

CO2

31%

60%

Uso de combustíveis fósseis, deflorestação e alteração dos usos do solo

CH4

151%

20%

Produção e consumo de energia (incluindo biomassa), actividades agrícolas, aterros sanitários e águas residuais

N2O

17%

6%

Uso de fertilizantes, produção de ácidos e queima de biomassa e combustíveis fósseis

Halogenados

(HFC, PFC e SF6)

-

14%

Indústria, refrigeração, aerossóis, propulsores, espumas expandidas e solventes

Os primeiros gases identificados como responsáveis pelo aumento do efeito de estufa foram o dióxido de carbono (CO2), o metano (CH4), e óxido nitroso (N2O), que são gases os quais ocorrem naturalmente na atmosfera. As actividades de produção e uso de combustíveis fósseis são responsáveis por 3/4 das emissões antropogénicas de CO2, 1/5 do CH4 e uma quantidade significativa de N2O.

Mais recentemente adicionaram-se outros GEE, os compostos halogenados (os HFC ou hidrofluorcarbonetos, os PFC ou perfluorcarbonetos perfluorados e o SF6 ou hexafluoreto de enxofre), gases de origem industrial, que vêm contribuindo para o agravamento desta situação. Refira-se a ironia de os HFCs e PFCs terem sido adoptados no Protocolo de Montreal (1990) como substâncias alternativas aos clorofluorcarbonetos (CFCs), por se ter comprovado a sua acção destrutiva sobre a camada de ozono. O SF6, o gás com maior potencial de aquecimento global que integra o Protocolo de Quioto, é muito usado nos sistemas de transmissão e distribuição de electricidade.

Ao longo dos últimos séculos, as concentrações de GEE na atmosfera aumentaram significativamente: as concentrações de CO2 passaram de 280 para 360 ppmv (partes por milhão em volume), as de CH4 de 700 para 1720 ppbv (partes por bilião em volume), as de N2O de 275 para 310 ppbv.

O ozono (O3), presente tanto na estratosfera como na troposfera, é também considerado como um importante GEE. No entanto, o seu contributo para o efeito de estufa é difícil de estimar dadas as variações da sua distribuição espacial e temporal. A concentração de ozono troposférico é estimada ter subido 36% desde 1750 devido ao aumento das emissões de gases precursores de ozono associadas às actividades humanas.

Além disso, existem outros gases, como os óxidos de azoto (NOx), o dióxido de enxofre (SO2), os hidrocarbonetos (HC) e o monóxido de carbono (CO), que, não sendo GEE, influenciam os ciclos químicos na atmosfera com consequências positivas ou negativas no efeito de estufa.

Quem são os responsáveis?

Quando se coloca o problema das alterações climáticas, com toda a sua magnitude, o que aparece em causa é o velho problema, colocado agora em novos termos, da relação harmoniosa do ser humano com a natureza e das pessoas entre si no seio da sociedade, que são pressupostos do desenvolvimento sustentável. De novo se questionam a organização da sociedade, a propriedade dos meios (recursos e instrumentos concretos) e o modo de produção, no seu quadro ambiental concreto.

Com o surgimento das preocupações recentes da vulnerabilidade e finitude da natureza, e com a constatação de que a degradação ambiental resulta de se ter sistematicamente tomado o ambiente como uma preocupação económica secundária e de se terem sistematicamente tomado os recursos naturais meramente supletivos no processo produtivo, põe-se em cheque esta visão utilitarista e evidencia-se a contradição subjacente ao projecto de sociedade da abundância.

Confrontamo-nos hoje com um problema de limite de capacidade de regeneração do próprio planeta Terra, análogo ao de limite de recursos naturais não renováveis já encontrado noutras circunstância, mas com consequências bem mais graves.

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 Efeitos globais das alterações climáticas

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