You are here

E agora, José?

Um país que não gera emprego é um país pobre. Sejamos sérios: os números do desemprego e da pobreza são uma tragédia.

Sobre planos de estabilidade e crescimento e políticas de austeridade importa sublinhar que transportam em si dois elementos: insensibilidade social e inabilidade económica. Na verdade, chamando os bois pelos nomes, o que está em causa é que, deixando a questão do desemprego de ser uma prioridade, encaminhamo-nos, uma vez mais, para um aprofundar das dimensões económica e social da crise em que estamos metidos.

Um país que não gera emprego é um país pobre. Sejamos sérios: os números do desemprego e da pobreza são uma tragédia. O governo de Sócrates, ao longo dos anos, em vez de ter estado empenhado em gizar uma estratégia de criação de emprego, optou por andar entretido com a descida do deficit. Apesar de, durante o último ano, ter alterado um pouco o discurso, falando da necessidade da intervenção estatal na vida económica para salvar o país do descalabro, voltou, agora, ao seu mesmo registo de sempre, o fundamental é reduzir o deficit. Mesmo sabendo que o resultado será penalizador não só para os orçamentos das famílias, no particular, mas também para o crescimento económico, no geral. O caminho escolhido pelo PS mostrou-se desacertado no passado, produziu desventura e miséria, e o rumo que impõe agora, desta vez com o aval claro do PSD, só vai piorar o cenário social que já é cruel.

Há ainda um outro aspecto, que só concorre para a latente descredibilização de Sócrates perante o país, que tem que ver com a total incapacidade de assumir os seus erros, desculpabilizando a incongruência das suas decisões e pondo sempre a culpa no cartório em cima de um qualquer bode expiatório. A culpa é das agências de ratings que são mal intencionadas, a culpa é do ataque especulativo que anda para aí a ameaçar o euro, a culpa é de Bruxelas que não tomou atempadamente as medidas necessárias para evitar que a crise grega que se propagasse pela periferia europeia.

As explicações que Sócrates encontra para os problemas que assolam o país são, acima de tudo, pouco sérias. E são pouco sérias porque são uma abordagem acessória de uma questão fulcral: de facto, a União Europeia falhou redondamente nos últimos meses no que diz respeito à sua governação financeira e económica. Mais do que isso, tendo sido incapaz de dar uma resposta oportuna, coerente e concertada à questão grega, demonstrou não só a debilidade do seu projecto de integração económica e política regional, mas também a inutilidade das linhas orientadoras vindas das suas instituições que, mesmo depois de um tratado de Lisboa, não foram capazes de se fazer ouvir, foram literalmente devoradas pela intervenção hegemónica de Merkel.

A crítica que Sócrates deveria estar a fazer à União Europeia é a da sua ausência de uma política comum vocacionada para o crescimento económico através de um investimento público de qualidade, virado para a criação de emprego e para a elevação dos salários reais, visando o estímulo ao aumento da procura interna do conjunto da zona euro e apontando para uma redução dos desequilíbrios intra-europeus em termos comerciais, orçamentais e de competitividade. Mas essa crítica Sócrates não faz. Nem Passos Coelho tem feito. Na verdade, o plano de austeridade e as medidas recessivas em que ambos concordaram, o que domina é a vulgata monetarista do Banco Central Europeu, que se traduz na história que os portugueses conhecem já de ginja, cortes na despesa do estado e aumento de impostos. Dito de outro modo, menos democracia económica e menos justiça social, será essa a marca do fracasso da coligação informal dos partidos do bloco central.

Sobre o/a autor(a)

(...)