Stathis Kouvélakis: “Considerar a situação atual como uma repetição das décadas de 1920 e 1930 é profundamente enganador”

Para o marxista Stathis Kouvelakis, os setores liberais ou de centro-esquerda qualificam a atual extrema-direita como fascista para evitarem uma contestação real das políticas autoritárias, antissociais e militaristas que essas mesmas pessoas adotam quando aplicadas pelo extremo-centro. Para acharmos assustador o que está a acontecer e o combatermos, afirma Kouvelakis, não precisamos de o qualificar de fascismo.

14 de junho 2026 - 12:22
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Stathis Kouvélakis
By Raphaël Schneider - Arquivo pessoal - Wikimedia Commons

Stathis Kouvélakis (Atenas, 1965) é um teórico marxista comprometido com a luta da esquerda. Foi professor de Teoria Política no King's College, em Londres. É autor e editor de vários livros como La France en révolte. Luttes sociales e cycles politiques (Paris, Textuel, 2007), Critical Companion to Contemporary Marxism (Haymarket, Nova Iorque, 2009) e Philosophie et Révolution de Kant à Marx (La fabrique, 2017). É membro do Conselho Editorial da revista Contretemps, co-diretor da coleção “Lignes rouges” das Éditions Amsterdam e membro do conselho científico do Institut La Boétie, próximo da France Insoumise. Esta entrevista foi publicada originalmente no número 200 da VientoSur e traduzida para o esquerda.net por Diogo Machado.

Brais Fernández (Viento Sur): Podemos supor que há um consenso à esquerda de que estamos a viver uma mudança de ciclo. Embora tenham sido os movimentos anti-austeridade desde 2008 a começar a desafiar os regimes políticos neoliberais no centro capitalista, desde a pandemia vimos o pêndulo oscilar em direção à extrema-direita, que tomou a iniciativa. Isto também acontece, e é muito importante, num contexto de crescente agressividade imperialista. Na sua opinião, quais são as causas subjacentes a esta ascensão da extrema-direita e como se relacionam com a crise da democracia liberal?

Stathis Kouvélakis: Devemos combinar dois níveis de análise, um mais conjuntural e outro mais estrutural, ou pelo menos situado numa perspetiva de longo prazo. Desde o início da crise de 2008, houve uma corrida entre a esquerda radical e a direita radical para ver quem oferecia uma saída credível. Em meados dos anos 2000, já existiam forças de direita radical bem estabelecidas em muitos países europeus (França, Itália, Áustria, Holanda, Escandinávia).

Nos Estados Unidos, o Tea Party emergiu das eleições intercalares de 2010, enquanto a influência da direita cristã dentro do Partido Republicano tem crescido desde a era Reagan. No entanto, como sugere, o ano de 2011 marca um ponto de viragem, com uma onda de protestos em massa a eclodir em ambos os lados do Mediterrâneo e o movimento Occupy nos EUA. No entanto, a ascensão da esquerda anti-neoliberal limitou-se aos elos fracos do centro capitalista, ou seja, aos países da periferia europeia mais atingidos pela crise e pelos protestos populares (Grécia, Espanha, Portugal, Irlanda). O segundo ponto de viragem veio em 2015, com a capitulação do Syriza, que Perry Anderson acertadamente comparou ao voto de créditos de guerra pela social-democracia alemã em 1914.

Ficou então aberto o caminho para que a direita radical colhesse os frutos do descontentamento popular. A sua tarefa foi facilitada pela constante radicalização das políticas racistas e xenófobas aplicadas por todos os governos do extremo-centro, e institucionalizado a nível europeu pela UE e pelas suas políticas de externalização de fronteiras. A contestação popular à intervenção estatal, alimentada pela gestão autoritária e socialmente injusta da crise da COVID-19, também beneficiou a extrema-direita, uma vez que a esquerda se revelou incapaz de desenvolver uma abordagem diferente sobre esta questão.

Uma perspetiva de longo prazo sugere que a crise de 2008 amplificou a já aguda crise de hegemonia resultante da estabilização do consenso neoliberal entre as elites políticas ocidentais a partir da década de 1980, o que tem sido chamado de domínio do extremo-centro. Os partidos políticos e as organizações de massas da sociedade civil foram esvaziados, a abstenção atinge níveis sem precedentes e a autoridade moral e intelectual dos establishment desmoronou-se. 

Esses elementos constituem o que Gramsci descreveu como a rutura das relações entre grupos sociais e classes e as suas formas de expressão política nas condições da democracia liberal. Acrescentou que “quando ocorrem crises deste tipo, a situação imediata torna-se delicada e perigosa, porque o campo fica aberto a soluções violentas, às atividades de forças desconhecidas, representadas por carismáticos homens do destino”. Com seu discurso racista e falsamente antissistema, a extrema-direita foi particularmente astuta ao conseguir o apoio de amplos setores das classes trabalhadoras e populares abandonados pela esquerda.

Porque a esquerda, com poucas exceções, recuou para o que se tornou uma espécie de zona de conforto. O núcleo de sua base social restante é agora composto pelas classes médias educadas e pelas gerações mais jovens de pessoas graduadas em declínio social. A presença das classes trabalhadoras e populares é fraca no seu eleitorado e ainda mais na sua militância e nos seus quadros. A esquerda continuará a ser uma força em declínio enquanto persistir na reprodução desta configuração. A força da extrema-direita deriva da impotência da esquerda e da sua própria capacidade de se apresentar como uma força que, ao mesmo tempo que questiona o status quo, impõe uma forma de ordem, uma visão da sociedade que supostamente poria fim à crise da ordem neoliberal configurada pelo extremo-centro.

Uma opinião comum, não só entre a esquerda marxista, mas também no discurso mainstream, é a analogia entre a crise atual e a dos anos 1920 e 1930 (Itália, Weimar, Áustria e França). Que semelhanças e diferenças vê? Estará a burguesia a pensar num regime político que rompa com a democracia liberal para manter o seu domínio?

A minha posição, provavelmente impopular entre a esquerda radical, é que considerar a situação atual como uma repetição das décadas de 1920 e 1930 é profundamente enganador. Qualificar-se de fascista a atual extrema-direita é essencialmente um truque retórico que dificilmente convence alguém para além do ambiente dos círculos militantes de esquerda, que tentam aparecer como dignos sucessores dos heróis antifascistas do passado. Mais recentemente, foi adotado pelos meios de comunicação social e pelos setores liberais ou de centro-esquerda, transformando o anti-Trumpismo e as suas variantes nacionais (anti-lepenismo em França, etc.) num substituto para qualquer contestação real de políticas autoritárias, antissociais e militaristas aprovadas pelas mesmas pessoas quando aplicadas pelo extremo-centro. Não precisamos de qualificar de fascismo o que está a acontecer para o achar assustador e para nos convencermos de que devemos combatê-lo com todos os meios necessários.

O cerne racional da analogia é que, como nos ensina a história, em situações de grande crise, a ordem capitalista produz ou é perfeitamente compatível com todos os tipos de regimes políticos, como o bonapartismo, as ditaduras militares, o fascismo e outras formas de estados de exceção, todos os quais diferem qualitativamente da democracia liberal. O fascismo entre guerras foi um movimento de massas que surgiu em sociedades brutalizadas por uma guerra mundial total e que enfrentavam a possibilidade de uma revolução social. Os seus componentes essenciais eram o nacionalismo étnico, o anticomunismo, a ação violenta nas ruas, a vontade de derrubar os regimes parlamentares e substituí-los por uma forma de Estado totalmente diferente, a oposição frontal ao liberalismo e a visão de uma sociedade militarizada orientada para a guerra e para a expansão imperial. 

O racismo, e mais especificamente o antissemitismo, desempenhou um papel central no caso do nazismo, mas quase nenhum na ascensão do fascismo italiano, e foi apenas um aspeto secundário, por vezes até relativamente menor, da família mais ampla de regimes fascistas, ou seja, autoritário e contrarrevolucionário, desse período (Hungria, Roménia, Espanha, Portugal, Grécia).

Devemos também lembrar que mesmo os regimes constitucionais liberais passaram por momentos extremamente coercitivos, como as leis de emergência contra os anarquistas na França (republicana) na década de 1890, o macarthismo (e seus equivalentes em outras partes do Ocidente) na década de 1950, ou a repressão da extrema-esquerda na Itália e na Alemanha na década de 1970. O tipo de antifascismo que a corrente dominante promove hoje baseia-se na idealização liberal da própria democracia liberal. A esquerda deveria rejeitar isto e sublinhar que os direitos e liberdades sempre foram conquistados com um preço elevado, através de lutas populares, e não por alguma virtude intrínseca dos regimes liberais.

Hoje, a extrema-direita, ou talvez fosse melhor dizer a direita radical, é um fenómeno eleitoral, com expressões marginais (embora crescentes) na ação de rua. O seu racismo virulento é apresentado como uma visão defensiva, destinada a proteger a nação e as sociedades europeias de várias “ameaças” (imigrantes, muçulmanos, invasores não-brancos, etc). A sua promessa social para as classes populares é uma espécie de redistribuição interna com base em critérios raciais, que supostamente favorecerá os verdadeiros nacionais, isto é, os brancos e os não muçulmanos, nas prestações sociais, serviços públicos e no mercado de trabalho. Hoje, os belicistas encontram-se muito mais neste centro neoliberal, incluindo a social-democracia e vários partidos verdes, do que na direita radical. Nenhuma força política de alguma importância no Ocidente tem uma visão política que rompa com as instituições parlamentares. 

Os discursos anti-imigrantes e islamofóbicos, e o tipo de políticas que os acompanham, são partilhados por quase toda a corrente política dominante, de Orbán a Macron. Mesmo a defesa dos direitos das minorias foi recuperada em certa medida pelo discurso homonacionalista e femonacionalista das forças mais ágeis da direita radical. Alguns dos seus líderes mais proeminentes são mulheres que cumprem todos os requisitos da modernidade (como Marine Le Pen ou Giorgia Meloni), enquanto outros afirmam abertamente sua homossexualidade (Alice Weidel, Heinz-Christian Strache, Filip Dewinter; Pim Fortuyn é um pioneiro neste campo).

A islamofobia alimenta a política dominante muito além da extrema-direita. Provou ser uma formidável cola ideológica que permite todo o tipo de combinações entre a defesa de judeus e/ou Israel, as pessoas LGBTQIA+ e os direitos das mulheres, o nacionalismo branco, etc. Pablo Stefanoni forneceu uma análise muito estimulante de alguns aspetos da direita radical contemporânea e demonstrou claramente que não podemos analisá-la através das lentes do passado, embora a maioria dessas forças continue a ter opiniões reacionárias sobre muitas das chamadas questões sociais.

Considero que a ascensão da extrema-direita é tanto um fator autónomo que acelera a viragem autoritária das sociedades ocidentais e dos regimes políticos quanto o resultado dessa viragem, que começou na década de 1970 com a crise terminal do compromisso social keynesiano do pós-guerra. Como se sabe, Stuart Hall descreveu o thatcherismo como “populismo autoritário”, adotando em parte, mas também modificando, a noção desenvolvida pelo falecido Nicos Poulantzas de “estatismo autoritário”. O ponto essencial é que não devemos ver as duas dimensões da dominação, consentimento e repressão burguesa, quer como mutuamente exclusivas, quer como um jogo de soma zero. Podemos ter uma maior repressão e formas alargadas de consentimento em relação a essa repressão.

Esta repressão vem, sem dúvida, de cima, ou seja, do Estado, e é necessária para levar a cabo o desmantelamento do compromisso social do pós-guerra denominado Estado Social. Mas ele consegue instigar e capturar o pânico moral que se espalha a partir de baixo, num contexto de degradação da vida quotidiana e de uma a estrutura de sentimentos dominada por uma experiência de declínio e falta de expectativas futuras positivas. Dada a impotência da esquerda, o resultado é um consentimento mais amplo para discursos e políticas autoritárias, das quais o racismo e as exigências de lei e ordem são componentes essenciais.

Isso remete-nos para a questão do Estado capitalista, que, como se sabe, não é um campo neutro e, ao mesmo tempo, articula-se por meio de um complexo processo hegemónico. Se reduzirmos a questão à forma política, embora não seja o horizonte último para aqueles comprometidos com a perspetiva do socialismo, também é óbvio que a democracia liberal continua a condensar um conjunto de liberdades políticas que, embora em declínio, representam conquistas históricas do movimento operário. Qual deveria ser a posição e a estratégia dos marxistas em relação à forma atual do Estado capitalista e à crise da democracia liberal?

É bastante fácil ver que a democracia, não importa como seja definida, está hoje em declínio em todo o mundo. Simplificando, o efeito combinado das políticas neoliberais, da globalização capitalista e da derrota das experiências e movimentos socialistas do século XX tem resultado num declínio no tipo de democracia liberal tal como a conhecíamos nos países do centro capitalista. A noção de Poulantzas de estatismo autoritário foi concebida para  compreender as transformações estruturais do Estado quando o neoliberalismo ainda estava na sua fase inicial: o papel reforçado e mais diretamente político dos níveis superiores da burocracia estatal, o fortalecimento do poder executivo em detrimento das instituições representativas, o enfraquecimento das formas estabelecidas de mediação política como partidos e sindicatos, a crescente importância dos meios de comunicação de massa, que desempenham cada vez mais o papel que anteriormente correspondia aos partidos, a proliferação de novas tecnologias de vigilância e de formas mais difusas de repressão. Por outras palavras, o neoliberalismo não é igual a menos Estado, mas a um processo de desdemocratização do Estado e da sua subordinação mais direta às necessidades da acumulação capitalista.

É claro que faltava a esse panorama o que veio depois do final da década de 1970, ou seja, a ascensão dos partidos de extrema-direita e a forma como essas forças politizaram o racismo. O racismo, é claro, já existia como um fenómeno constitutivo do sistema mundial capitalista. Está enraizado na fragmentação hierárquica da força de trabalho global, como Immanuel Wallerstein analisou brilhantemente. Mas, repito, o que tem acontecido nos últimos anos não é o retorno do fascismo dos anos trinta em câmara lenta, para citar Tony Cliff, mas sim uma reorganização mais ampla e uma radicalização da direita, tanto como reação quanto como adaptação à ascensão do estatismo autoritário.

Uma reação na medida em que pode ser considerada como expressão do descontentamento popular – o facto de que certas frações das classes populares e média-baixas se recusam a ser expulsas da cena política dominada pelo extremo-centro neoliberal e pela sua base social de classe alta. Mas reflete também uma aceitação desta ordem neoliberal, pois estas forças abraçam plenamente a essência destas políticas e apelam a uma versão ainda mais autoritária das mesmas, desde que o custo seja pago pelos considerados delinquentes e intrusos (minorias racializadas, migrantes, pessoas LGBTQIA+, etc.).

É uma estratégia poderosa porque captura e remodela o senso comum de amplos setores sociais, mas em última análise também frágil, pois o medo, o ressentimento e a promoção de identidades reacionárias apenas proporcionam uma base limitada para a construção de consenso e de um bloco social coeso. As promessas sociais que são levantadas carecem de conteúdo real, e piorar ainda mais a vida de alguns não melhorará as do resto. No entanto, enquanto não for combatido com sucesso a partir da esquerda, a direita radical fornecerá ao Estado neoliberal autoritário a base de massas que lhe faltava até agora.

Este processo explica também a convergência entre setores do extremo-centro, da direita tradicional e da extrema-direita a que assistimos em muitos países, sobretudo onde existe uma força significativa da esquerda radical. Este é o caso, em particular, de França, onde a linha que prevalece cada vez mais na política mainstream é “qualquer coisa, incluindo a extrema-direita, exceto Mélenchon”. 

A conclusão óbvia de tudo isto é que a defesa da democracia ou, para ser mais preciso, a luta contra a desdemocratização promovida pelo neoliberalismo deveria ser uma prioridade na atual agenda da esquerda. Historicamente, a desvalorização da democracia liberal pela tradição da Terceira Internacional (com exceção de Gramsci), ou seja, a incapacidade de entender que os elementos democráticos genuínos dos regimes burgueses são conquistas duramente conquistadas pelas massas populares e não truques burgueses para apaziguar o proletariado, teve um efeito devastador no movimento comunista do século XX.

Mas a defesa da democracia não deve ser entendida apenas como a defesa das liberdades e dos direitos, por mais crucial que seja esta batalha institucional e jurídica. Para a esquerda anticapitalista, defender a democracia também deve significar lutar pela ação autónoma das classes subalternas, atacar tudo o que as relega à passividade e abrir brechas no controlo do capital sobre a vida social. Esta parece ser a única forma de construir uma contra-hegemonia dos setores subalternos e preparar concretamente o terreno para uma democracia socialista.

Passemos agora a algumas questões de estratégia. Voltando ao paralelismo com as décadas de 1920 e 1930, dentro do movimento comunista três estratégias foram colocadas em cima da mesa para enfrentar essa combinação da crise da democracia liberal e da ascensão da extrema-direita. Muito esquematicamente, estas eram a estratégia do «Terceiro Período» da Internacional Comunista, a Frente Única e a Frente Popular. Que lições e atualizações podemos hoje retirar desses debates? De forma mais geral, como vês a dialética entre estratégias defensiva e ofensiva numa conjuntura que não parece muito promissora para a esquerda?

Se concordamos que a situação atual não pode ser entendida como uma repetição, ou mesmo uma variante, da década de 1930, então temos de repensar a estratégia. Isto não significa que não possamos tirar lições úteis do passado. Na verdade, uma compreensão autocrítica do passado é um passo necessário para recomeçar. Das três propostas estratégicas que menciona, é bastante fácil resolver a questão do Terceiro Período, uma linha ultra-sectária adotada pela Internacional Comunista em 1928 que levou ao desastre da ascensão do nazismo ao poder e ao esmagamento total do movimento operário mais poderoso da Europa na altura [na Alemanha].

As outras duas merecem uma avaliação mais criteriosa: a Frente Única, entendida num sentido amplo, ou seja, ampliada a todas as formas de atividade autónoma das classes subalternas e não somente ao que normalmente se entende por movimento operário, aparece como um componente ‒ necessária, mas não suficiente‒, de qualquer estratégia interessada em obter vitórias efetivas. Mas desde o início, na década de 1920, houve uma ambiguidade sobre o seu alcance real: é apenas uma manobra tática, uma posição temporária que se mantém numa situação defensiva e que deve ser rapidamente superada por uma linha ofensiva que reafirma o exclusivo protagonismo do partido revolucionário? Ou será uma forma de elaborar uma estratégia revolucionária diferente do cenário de outubro de 1917, que tenha em conta a divisão que separa o Ocidente do Oriente, para utilizar as categorias de Gramsci, tão conhecidas mas frequentemente mal interpretadas?

É claro que Trotsky tinha toda a razão na sua brilhante defesa de uma frente unida entre social-democratas e comunistas como única forma de impedir a chegada dos nazis ao poder, contra a linha suicida do Partido Comunista da Alemanha e da Internacional Comunista dominada por Estaline. No entanto, continuou a conceber esta frente unida como uma medida defensiva que deveria rapidamente dar lugar a uma ofensiva revolucionária, uma vez que o que estava na ordem do dia a curto prazo era a conquista do poder. Numa situação tão próxima da revolução, acrescenta Trotsky no início de 1932, os sovietes tornam-se “a forma mais elevada da frente unida” e todo o desenvolvimento deveria seguir de perto a sequência russa de 1917.

Esta conceção de revolução como algo quase permanentemente iminente baseou-se na conhecida visão catastrofista de Trotsky do capitalismo como um sistema em decomposição, incapaz de desenvolver forças produtivas, etc., uma visão profundamente enraizada na visão de mundo da Internacional Comunista (novamente, com exceção de Gramsci) desde a sua criação e já formulada na definição de imperialismo de Lenin como uma forma “parasitista” e “agonizante” do capitalismo.

Agora, as estratégias do tipo Frente Popular são, de certa forma, o oposto da frente unida. A linha de alianças amplas gradualmente adotada a partir de 1934 pela Internacional Comunista, à qual a maior parte da social-democracia aderiu, pretendia incluir não apenas os componentes do movimento operário, mas também setores da pequena burguesia e até da esquerda burguesa. 

No entanto, uma vez que o núcleo da aliança era composto por fortes partidos comunistas e socialistas, a sua criação provocou uma verdadeira mobilização de massas contra o fascismo. Esse antifascismo popular tinha um enorme potencial anticapitalista, refletia a vontade de mudar a vida, como dizia um slogan francês da época, mas esse potencial entrava em conflito com a estratégia política. Em França, a vitória eleitoral da Frente Popular deu enorme confiança às massas e desencadeou a onda de greves em junho de 1936, a primeira mobilização maciça da classe trabalhadora industrial do país.

Os comunistas franceses reconheceram a dimensão emancipatória da tradição democrática francesa, que remonta à Grande Revolução e ao momento jacobino. Nessa base, delinearam uma versão de uma estratégia hegemónica, apresentando-se como uma força nacional-popular e, ao mesmo tempo, como o partido da classe trabalhadora capaz de liderar um amplo bloco social para a mudança social, uma espécie de gramscianismo em estado prático. Mas havia uma contrapartida muito pesada: o abandono de todas as posições anticoloniais e uma perspetiva etapista rígida que adiou o socialismo para um futuro distante.

Qualquer ideia de articular exigências democráticas imediatas com um programa transição adequado foi rejeitada pelos partidos comunistas em nome de uma ampla unidade antifascista. Num contexto de crescente polarização de classes, as políticas da Frente Popular ascenderam a um reformismo inviável, que assustou as classes dominantes, uma vez que emergiu de uma dinâmica de massas, ao mesmo tempo que bloqueava qualquer possibilidade de vitórias revolucionárias. O resultado previsível foi a derrota em todo o lado e o fascismo no fim da linha. Em França, a aliança entrou em colapso, com a ala burguesa (os radicais) mudando de lado e abrindo caminho para a reação e contraofensiva de uma classe capitalista traumatizada pelas greves de junho de 1936.

Em Espanha foi muito pior, uma vez que, ao contrário da França, um processo revolucionário estava a desenvolver-se mesmo antes do sucesso eleitoral da Frente Popular. A aliança da esquerda foi quebrada a partir de dentro, com os comunistas aliando-se à ala moderada da Frente Popular para reprimir violentamente todas as forças que poderiam levar a desenvolvimentos mais radicais do que os do antifascismo estreito e da defesa de uma República burguesa. Eventualmente, eles próprios foram marginalizados pelos seus aliados burgueses, que tentaram chegar a um compromisso com os fascistas e finalmente se mostraram dispostos a capitular. 

Escusado será dizer que toda essa estratégia estava estritamente de acordo com a política externa da União Soviética, que naqueles anos priorizava uma aliança com democracias liberais para conter a Alemanha nazi e se opunha a qualquer coisa que pudesse destabilizar o domínio burguês no Ocidente (como revoluções internas ou lutas de libertação nas colónias). 

A dupla lição que emerge é que a esquerda deve evitar as armadilhas gémeas do ultra-esquerdismo e da repetição imaginária de glórias passadas, embora este risco pareça atualmente bastante marginal. Muito mais grave é o risco de se tornar uma força subalterna de um bloco neoliberal vacilante. Em nome de antifascismo, alguns sectores da esquerda parecem cair na tentação de desempenhar o papel de força auxiliar da corrente liberal dominante.

Este pastiche da histórica Frente Popular só pode levar a uma derrota certa, sem contribuir com nada remotamente comparável à dinâmica de massas do antifascismo da década de 1930. Revela uma forma de pânico que ignora completamente o significado da atual direita radical, ou seja, o facto de não ser uma repetição do fascismo, mas o resultado da transformação do campo político moldado pelo consenso neoliberal das décadas anteriores, consenso que inclui racismo, militarismo, intervenções imperialistas e cumplicidade em genocídios. Só uma oposição determinada a esta ordem neoliberal ‒cujos pilares são o império americano, a NATO e a União Europeia ‒ pode oferecer uma perspetiva positiva e recuperar os sectores das classes populares que são influenciados ou tentados pela direita radical e pelo seu falso discurso anti-sistema.

Hoje, as experiências de esquerda mais promissoras no Norte global, como La France Insoumise, Mamdani e outros socialistas eleitos nos Estados Unidos, e a reorganização em curso da esquerda britânica, são aquelas que seguiram este caminho. A solidariedade com a Palestina, um forte antirracismo e a oposição ao militarismo, a interação constante com as mobilizações de base, uma agenda social anti-neoliberal sólida e concreta, mas também a reivindicação de uma visão progressista da nação e da soberania nacional-popular, aparecem como os componentes constitutivos desta nova esquerda emergente. 

Se levarem a política a sério, o que só pode significar uma política de massas, os marxistas devem ser uma parte orgânica deste movimento e contribuir para a sua maior radicalização num sentido anti-imperialista e socialista. Mas para o fazer, devem abandonar formas de pensar obsoletas e irrelevantes, como a vontade de repetir os cenários revolucionários do passado, o vanguardismo estéril e as suas fantasias de pureza ideológica e uma visão abstrata do internacionalismo, que pouco difere do cosmopolitismo liberal. Precisam de reconectar-se com os sujeitos sociais e políticos realmente existentes, antes de tudo, com as classes trabalhadoras e populares, para transformar o senso comum das grandes massas e ativar a construção de um bloco contra-hegemónico.

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