Será preciso intervir militarmente na Líbia?

As imagens provenientes da Líbia são terríveis. Mas quem pediu uma intervenção militar do Ocidente quando os aviões israelitas bombardeavam Gaza durante a operação 'Chumbo Fundido'? Ou durante os bombardeamentos da NATO no Afeganistão? Por Alain Gresh

13 de março 2011 - 9:00
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Comatentes rebeldes pertos de Bin Jawad. Foto de Nasser Nouri

Desde a queda do regime de Ben Ali na Tunísia, o mundo árabe está submerso numa vaga de protestos trazida por imagens da Al-Jazira, que permite à opinião pública seguir os acontecimentos em directo. De Marrocos ao Bahrein, da Argélia ao Iraque, cidadãos, quase sempre desarmados, saem à rua para exigir reformas políticas e maior justiça social. Na maioria dos casos, as autoridades mostram relutância em empregar a força de forma indiscriminada. Em contrapartida, na Líbia, os manifestantes viram-se confrontados com a mais terrível repressão.

As informações provenientes da Líbia são contraditórias, parciais, algumas vezes não confirmadas. A brutalidade do regime não deixa dúvidas e o número de mortes é considerável: centenas segundo as organizações não governamentais, provavelmente mais tendo em conta a violência utilizada pelas milícias do regime. Se a zona oriental do país, com as cidades de Bengazi e de Tobrouk, caiu nas mãos dos revoltosos, permitindo a entrada de jornalistas estrangeiros, a parte ocidental, nomeadamente Tripoli, continua inacessível. Aparentemente Khadafi retomou a capital e parece conservar a confiança das tribos da região1 (“Gaddafi tightens grip on Libyan capital as rebels swiftly advance west”, por Leila Fadel et Sudarsan Raghavan, The Washington Post, 24 de Fevereiro). Ele acaba de anunciar que Tripoli estaria, a partir de amanhã, aberta a todos os jornalistas. Além disso, depende de mercenários subsarianos, o que pode desenvolver o racismo anti-negros no país.

O carácter errático e ditatorial do coronel Muammar Khadafi foi confirmado no seu discurso iluminado de 22 de Fevereiro de 2011. O líder líbio recordou as realizações do seu reinado – particularmente a retirada das bases britânicas e americanas, e a nacionalização do petróleo - que inicialmente lhe haviam granjeado uma popularidade inegável, bem como a condenação maciça do Ocidente. Mas no discurso multiplicou também os seus propósitos ameaçadores e incoerentes, afirmando que não poderia demitir-se, pois não estava a ocupar nenhum lugar oficial, que combateria até à última gota de sangue, que o país iria para a guerra civil, etc.

A indignação justificada contrasta com o silêncio prevalecente quando o regime, no início dos anos 2000, esboçou a reconciliação com o ocidente esmagando impiedosamente os islamitas. A detenção e tortura de militantes islâmicos na Líbia (tal como no Egipto e na Tunísia) não causou indignação.

Seja como for, os apelos à intervenção militar multiplicam-se.

Marc Lynch, no seu blog de Foreign Policy, é muito claro, como indica o título : “Intervening in the Libyan tragedy” (21 de Fevereiro de 2011) :

“Devemos comparar com a Bósnia ou o Kosovo, ou mesmo com o Ruanda: assiste-se a um massacre em directo na televisão e o mundo é incitado a agir. É o momento de os Estados-Unidos, a NATO, a Organização das Nações Unidas e a Liga Árabe agirem em força para tentar impedir que a situação já sangrenta degenere em algo ainda pior”.

É um pouco difícil de entender essas comparações. No Ruanda, estávamos em face de um genocídio que fez centenas de milhares de mortes. Quanto ao Kosovo, é duvidoso que a intervenção militar tenha sido um sucesso (leia Noam Chomsky, "No Kosovo, havia outra solução", Le Monde Diplomatique, Março de 2000).

Marc Lynch continua :

"Ao agir, e refiro-me a uma resposta directa e suficientemente forte que possa impedir o regime líbio de usar os seus recursos militares para esmagar os adversários. Vi relatórios segundo os quais a NATO advertiu severamente a Líbia contra mais violência para com o seu povo. Tornar isto credível pode significar a declaração e a imposição de uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia, provavelmente pela NATO, para impedir a utilização de aviões de guerra contra os manifestantes."

Um ponto de vista fortemente contestado por Justin Raimondo, no site Antiwar.com, “Interventionists Target Libya” (23 de Fevereiro) :

“O espectro de uma intervenção americana é precisamente o que deseja Khadafi: isso jogaria a seu favor. Como acontece frequentemente nas acções americanas, essa intervenção teria justamente os efeitos contrários ao que se procura. (...) O professor Lynch acredita realmente que uma intervenção “enérgica” (...) não iria reforçar a posição de Khadafi? [ele] sabe como utilizar as paixões e os preconceitos do seu povo e a sua estratégia é claramente dividir o país segundo linhas geracionais.” (...)

“Uma intervenção ocidental reforçaria Khadafi e salvá-lo-ia talvez, de um final que merece. Daria munições à corrente islâmica marginal que simpatiza com a Al-Qaida. Ambos ficariam confortados nos seus pontos de vista: olhem, diria Khadafi, os estrangeiros regressam para retomar o controlo do país; olhem, diriam os islamitas, os Cruzados regressam para roubar a vossa revolução.”

As imagens provenientes da Líbia são terríveis. Mas quem pediu uma intervenção militar do ocidente quando os aviões israelitas bombardeavam Gaza durante a operação Chumbo Fundido? Ou durante os bombardeamentos da NATO no Afeganistão? Ou do Iraque pelos Estados Unidos? Devemos intervir militarmente contra Israel e os EUA neste momento?

E aí está o caso do Iraque para nos aconselhar prudência. A ditadura de Saddam Hussein era uma das mais brutais do Médio Oriente, também ela aliada dos Estados Unidos enquanto o regime travava uma guerra de agressão contra o Irão. A invasão do Kuwait mudou tudo isso e fez dele um pária. Mas quem pode pensar, oito anos após a intervenção dos EUA no Iraque, que foi um sucesso? As manifestações, quer no Curdistão iraquiano, (apresentado como uma democracia modelo) quer no resto do país, têm sido alvo de repressão brutal, de que poucos meios de comunicação falam.

O que fazer, então ?

Em primeiro lugar, aceitar o facto de, salvo casos de genocídio como o Ruanda, uma intervenção militar sob a égide da ONU nem sempre é a melhor solução. Tanto mais que ela seria certamente delegada na NATO, cujo papel no Afeganistão não parece verdadeiramente positivo. Os movimentos tunisino e egípcio tiveram êxito sem intervenção militar externa.

Também é de louvar a posição da Liga Árabe que, pela primeira vez, suspendeu um Estado membro por problemas dentro da "soberania nacional”. Esta posição, tal como a da União Africana e da Organização da Conferência Islâmica, agravaria as fissuras dentro do regime, particularmente no exército e na diplomacia, onde muitos já tinham abandonado Khadafi. Terá mais peso que os governos europeus e americanos – suspeitos, com razão, de segundas intenções – que mantiveram nos últimos anos um relacionamento próximo com o ditador Líbio.

Podemos também, para a União europeia, tirar algumas lições para o futuro.

Se não é possível para os países europeus fundamentar toda a sua política externa no respeito pelos direitos humanos, e se é impossível e indesejável cortar relações com qualquer regime que os viole (como Israel, por exemplo), é certo que podem adoptar-se medidas mais equilibradas entre interesses e princípios, especialmente quando muitos projectos bizarros provaram ser miragens (ler Faujas Alain, "Os perigos e ilusões de trocas comerciais com Khadafi", LeMonde.fr, 24 de Fevereiro):

― Nos últimos anos, os países europeus, incluindo a França, armaram as forças líbias, aconselharam-nas, e deram-lhes assim os meios para lutar contra o seu próprio povo ( a França pretendia até vender-lhes aviões Rafale) ;

― O apoio ao regime do coronel Khadafi na União Europeia, e particularmente na Itália, assentou numa chantagem: a capacidade da Líbia parar o fluxo de emigrantes africanos para o velho continente; esta obsessão migratória leva Bruxelas a ajudar toda uma série de regimes pouco preocupados com os direitos humanos a gerirem eles próprios, em condições muitas vezes terríveis, os imigrantes. A qualquer preço, é preciso defender a fortaleza Europa; e, desse ponto de vista, Khadafi era um aliado que Silvio Berlusconi, nomeadamente, recusa abandonar (ler Stefano Liberti, “A Itália e a Líbia de mãos dadas”, Visions cartographiques, 25 de Agosto 2010) ;

– Como na sua cooperação com os outros países do Mediterrâneo, a União Europeia fez prevalecer os princípios do comércio livre sobre o desenvolvimento, multiplicando as relações elogiosas sobre a Tunísia ou o Egipto; não está já na hora, como nos convida George Corm, de fazer valer um conceito diferente? ("Quando a 'rua árabe' serve de modelo ao Norte” Le Monde.fr, 11 de Fevereiro).

É lamentável que as principais preocupações dos europeus em face dos acontecimentos na Líbia sejam principalmente os receios com as exportações de petróleo2 e o medo de um afluxo de levas de imigrantes. Isto não augura nada de bom para o futuro.

Os princípios discutidos, em vez de pedir a intervenção militar, devem orientar a política da UE para os países árabes, especialmente os a sul do Mediterrâneo afectados pela onda revolucionária que varreu o mundo árabe.

24 de Fevereiro de 2011

Publicado no Blog do MondeDiplo

Tradução de Deolinda Peralta para o Esquerda.net

1 Sobre as tribos, matéria complexa que não tenho a pretensão de conhecer bem, convém ler “Libya - Tribal Rivalries”, no site Bnet.

2 Ler “Batailles pour l’énergie”, Manière de voir, n° 115, Fevereiro-Março de 2011.

 

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