O desabafo dos professores também se faz com poemas

20 de outubro 2008 - 0:00
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A burocracia e o autoritarismo com que as medidas deste ministério da educação inundaram as escolas levou vários professores a redigirem poemas como forma de desabafo, mas também de sátira acutilante. O Esquerda.net escolheu para publicação quatro curtos poemas que circularam na blogosfera.



O Não professor do ano



Faço projectos, planos, planificações;

Sou membro de assembleias, conselhos, reuniões;

Escrevo actas, relatórios e relações;

Faço inventários, requerimentos e requisições;



Escrevo actas, faço contactos e comunicações;

Consulto ordens de serviço, circulares, normativos e legislações;

Preencho impressos, grelhas, fichas e observações;

Faço regimentos, regulamentos, projectos, planos, planificações;



Faço cópias de tudo, dossiers, arquivos e encadernações;

Participo em actividades, eventos, festividades e acções;

Faço balanços, balancetes e tiro conclusões;

Apresento, relato, critico e envolvo-me em auto-avaliações;



Defino estratégias, critérios, objectivos e consecuções;

Leio, corrijo, aprovo, releio múltiplas redacções;

Informo-me, investigo, estudo, frequento formações;

Redijo ordens, participações e autorizações;



Lavro actas, escrevo, participo em reuniões;

E mais actas, planos, projectos e avaliações;

E reuniões e reuniões e mais reuniões!...



E depois ouço,

alunos, pais, coordenadores, directores, inspectores,

observadores, secretários de estado, a ministra

e, como se não bastasse, outros professores,

e a ministra!...



Elaboro, verifico, analiso, avalio, aprovo;

Assino, rubrico, sumario, sintetizo, informo;

Averiguo, estudo, consulto, concluo,

Coisas curriculares, disciplinares, departamentais,



Educativas, pedagógicas, comportamentais,

De comunidade, de grupo, de turma, individuais,

Particulares, sigilosas, públicas, gerais,

Internas, externas, locais, nacionais,

Anuais, mensais, semanais, diárias e ainda querem mais?

Querem que eu dê aulas!?...



Publicado por Pata Negra no blogue "A Sinistra Ministra"





Migalhães e desigualdades





Lá vem pelo avelar

O filho do Zé João

Vem do centro escolar

Cansado de palmilhar

A caminho da povoação



Não há médico na aldeia

E a antiga escola fechou

Não tem carne para a ceia

Nem petróleo para a candeia

Porque o dinheiro acabou



O seu pai foi para França

Trabalhar na construção

E a mãe desta criança

Trabalha na vizinhança

Lavando pratos e chão



Mas o puto vem contente

Com o Migalhães na mão

E passa por toda a gente

Em alegria aparente

De quem já sabe a lição



Um senhor muito invulgar

Que chegou com mais senhores

Veio para visitar

O novo centro escolar

E dar os computadores



E lá vem o Joãozinho

No seu contínuo vaivém

Calcorreando o caminho

Desesperando sozinho

À espera da sua mãe



Neste país de papões

A troco de dois vinténs

Agravam-se as disfunções

O rico ganha milhões

E o pobre Migalhães



Luís Costa



Sinto-me cansado

Não por trabalhar demais

Mas porque estou atolado

Em papéis e outras coisas tais



Não faço o que adoro fazer

Ensinar a aprender

Ajudar a crescer

E com isso rejuvenescer



E lá na minha escola

Ainda não há Magalhães

Nem tubos de cola

Ou até manuais



Se marco falta sou intransigente

Se não marco, sou incompetente

Se quero ser exigente

Não serei um "Excelente"



No fim do ano, tenho de todos "aprovar"

Mesmo aqueles que andaram a brincar

E dos meus impostos a rir

E ainda posso com isso não "progredir"



Afinal, isto de ser professor

Já dizia o velho ditado

"É-se preso por ter cão

Ou até por cão não ter"



Publicado no blogue Ondas de Reflexos





Na escola da Ana Maria



Na escola d'Ana Maria

Já não há paz nem alegria:

Há vaidade e presunção

Há soberba e inquisição

E pura demagogia!



Na escola d'Ana Maria

Morreu a harmonia!



Na escola d'Ana Maria

Reina a burocracia:

Há papéis e papelões

Relatórios e avaliações

E portefólios de fantasia!



Na escola d'Ana Maria

Morreu a pedagogia!



Na escola d'Ana Maria

Grassa a autocracia:

Há chuva de normativos

Há órgãos deliberativos

Há avisos e editais

Há actos eleitorais



Mas quem manda é o ditador!



Na escola d'Ana Maria

Morreu a Democracia!



Luís Costa

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