Israel não aprende!

02 de janeiro 2009 - 0:00
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Quando George Bush, presidente dos EUA, pisou pela primeira vez a Casa Branca como comandante-em-chefe, em 2001, os palestinianos estavam a ser mortos na Intifada de al-Aqsa. Oito anos depois, quando Bush se prepara para sair de lá, Israel realiza um dos maiores massacres dos seus 60 anos como potência ocupante, na Palestina. Antes, como hoje, os EUA decididamente apoiam a ofensiva israelita, e dizem, até, que seria defensiva.



Texto de Nir Rosen, jornalista e professor.



Recentemente, um general israelita ameaçou usar a força militar para obrigar Gaza a "retroceder décadas", a mesma linguagem usada antes de Israel invadir o Líbano, em 2006. Mas, apesar de Israel ter devastado o Líbano, o Hezbollah emergiu vitorioso, e o movimento social e de resistência dos xiitas emergiu como herói do mundo árabe. Hoje, Israel está próximo de cometer erro idêntico, na luta contra o Hamas.



Israel, para assinar uma trégua com o Hamas, exige que os palestinianos aceitem, mudos e imóveis, qualquer tipo de bloqueio ou cerco. Israel negou-lhes até os meios mais básicos para a sobrevivência e, isso, sem falar que sempre lhes negou qualquer chance de construírem uma sociedade funcional. E a cada movimento de resistência, Israel tentou esmagá-los.



Já no Líbano, há anos, Israel deveria ter aprendido, de uma vez por todas, que a força militar não basta, para destruir a resistência dos palestinianos.



O papel dos média



O exército israelita chacina, depois de ter aprisionado, a população de 1,5 milhão de seres humanos que vive em Gaza, e o Ocidente assiste ao sacrifício dos palestinianos. Os média operam para explicar, quando não para justificar, a carnificina em cores.



Até no mundo árabe houve noticiários e comentaristas para informar que o poder de fogo da resistência palestiniana - praticamente rockets, todos de fabricação caseira - seria grave ameaça à portentosa máquina militar que Israel é, mais do que comanda ou possui.



Pois nada disso é surpresa; os israelitas montaram uma campanha global de propaganda para obter apoio para o assalto, e até conseguiram, sim, a colaboração de alguns Estados árabes.



Um jornal norte-americano convidou-me certa vez para uma discussão sobre se haveria caso ou circunstância em que se justificasse o terrorismo ou o ataque militar a populações civis. Respondi que nenhum jornal norte-americano deveria perguntar a mim sobre justificativas para ataques a civis desarmados. Que essa pergunta só poderia ser respondida por, e portanto só poderia ser feita a, civis que algum dia tivessem sofrido ataque militar: pelos índios nos EUA, há 150 anos; pelos judeus, na Alemanha Nazista; pelos palestinianos, hoje.



Terrorismo é termo que se usa hoje, doentiamente, para descrever o que 'outros' fazem, não para descrever o que 'nós' fazemos. Nações poderosas, como Israel, os EUA, a Rússia ou a China, sempre descrevem como "terrorismo" a luta de resistência que seja feita, contra as nações poderosas, pelas suas vítimas.



Estranhamente, não dizem que seria acto de terrorismo a destruição da Chechenia, o massacre lento do que resta dos palestinianos, a repressão aos tibetanos e a ocupação, pelos EUA, do Iraque e do Afeganistão.



As mesmas nações, porque são potências militares, definem o que seja legal e permitido, no que tange a matar em grande escala. As mesmas nações formulam o conceito de terrorismo, criam leis terroristas, e fazem parecer que algum tribunal neutro houvesse definido alguma espécie de lei do opressor, do ocupante, do invasor, do assassino.



Assim se torna ilegal, por definição, que o oprimido, o ocupado, o invadido, o mais fraco resista.



O uso excessivo do jargão judiciário e legalista de facto mina os fundamentos do que é legítima e verdadeiramente legal e diminui a credibilidade das instituições internacionais como a ONU. A lei passa a ser inimiga dos que resistam.



Já é visível que os poderosos - os que escrevem as leis - insistem na legalidade apenas para preservar relações de poder que lhes sirvam ou para criar ou para manter relações de ocupação e de colonialismo.



Resistência desesperada



Os poderes coloniais sempre usam estrategicamente as populações civis. Sempre cabe a civis ocupar terras e deslocar as populações nativas, sejam as populações indígenas nos EUA, sejam palestinianos no que hoje são Israel e os Territórios Ocupados.



Assim surgem os grupos civis armados, em movimento desesperado de resistência, porque a resistência local grupal passa a ser o único modo de enfrentar a ameaça sempre iminente da erradicação.



Os palestinianos não atacam civis israelitas porque esperem que aquela violência derrote ou destrua Israel. Eles recorreram à resistência armada quando perceberam que há uma dinâmica poderosíssima, quase irreversível, que os quer extrair da própria terra e da própria identidade, apoiada num poder que parece ser incomensuravelmente maior do que qualquer resistência. Então, sim, recorreram às armas, como qualquer um recorreriam a qualquer meio que encontrasse.



OLP, depois Hamas



Em 1948, quando Israel se implantou como um novo Estado, houve um processo de 'limpeza étnica' de 750 mil palestinianos, deliberadamente arrancados de suas casas; centenas de vilas foram destruídas até serem reduzidas a pó.



A terra que ali havia foi entregue a colonos judeus que até hoje negam que ali existissem palestinianos e fazem guerra, há 60 anos, contra as populações nativas e contra todos os movimentos de libertação nacional que os palestinianos organizaram por todo o mundo.



Israel, os seus aliados no Ocidente e vários países árabes na região conseguiram corromper as lideranças da OLP, com promessas de poder, ao preço da liberdade da Palestina. Assim, Israel neutralizou o poder legítimo da OLP de Arafat e surgiu a OLP que passou a colaborar com a Israel ocupante. Dos restos da OLP de Arafat nasceu então o Hamas. Imediatamente, Israel mudou seu foco: o alvo, então, passou a ser o Hamas.



E o Hamas passou a ser obsessão, para Israel quando, há três anos, venceu as eleições legislativas.



Ao apoiar o boicote e o cerco de Gaza, para atacar o Hamas, o Ocidente, de facto, declara os palestinianos 'não preparados' para a democracia. Todas as ditaduras do mundo, até hoje, fizeram, sempre, igual 'avaliação'.



Isolamento e radicalização



Ao declarar aos palestinianos que não são livres para votar e escolher os seus líderes, líderes nos quais confiam, e têm de curvar-se e aceitar líderes que lhes sejam impostos, a comunidade internacional aprofunda o isolamento - e portanto os leva a radicalização cada vez maior dos palestinianos.



Essa radicalização já é hoje maior do que jamais foi, porque Israel continua a bombardear a já precaríssima estrutura de sobrevivência na Palestina ocupada, sob o pretexto falso, como se vê, de estar a atacar estruturas do Hamas.



É mentira sobre mentira; as forças de Israel bombardearam instalações da Polícia palestiniana. Já assassinaram, dentre outros, Tawfiq Jaber, Chefe da Polícia, ex-oficial da OLP de Arafat, que permaneceu no cargo depois que o Hamas foi eleito.



Com o fim dos últimos vestígios de ordem e segurança debilitados ainda mais por sucessivos ataques militares israelitas, haverá caos, em Gaza. Com o Hamas muito enfraquecido, não haverá grupo moderador.



Então, assumirá o poder, não alguma Fatah debilitada, corrompida e impopular, mas um grupo extremista, persuadido pela violência do bloqueio e pela brutalidade dos ataques israelitas, de que nenhuma negociação se pode esperar, que não se pode confiar, porque todo e qualquer acordo sempre será rompido por Israel.



Políticas fracassadas



Nos últimos 60 anos, os políticos israelitas têm incansavelmente repetido que "a violência é a única linguagem que os árabes entendem." Mas Israel, muito mais que os árabes, tem feito da violência, rotina. Na Cimeira Árabe em Beirute, em 2002, a Liga Árabe, colectivamente, ofereceu meios a Israel para pôr fim ao banho de sangue e evoluiu para um acordo de paz regional amplo. Em resposta, Israel invadiu Jenin e matou centenas.



No mês passado, a Fatah lançou uma campanha, pelos jornais, para reviver a Iniciativa de Paz de 2002. Israel, outra vez, respondeu com brutalidade.



Uma Israel sionista já não é um projecto viável. E as colónias armadas, a expropriação violenta de terras e os muros de separação já tornaram impossível qualquer Solução dos Dois Estados.



Só pode haver um Estado, na Palestina histórica. Mais dia, menos dia, os israelitas terão de enfrentar a questão que decidirá o seu destino: como construir uma transição pacífica e construir, afinal, uma sociedade de palestinianos e israelitas, sociedade igualitária, na qual os palestinianos tenham os mesmos direitos que os israelitas.



Mais alguns anos de violência desmedida, nem essa alternativa será possível.



A história tem mostrado que o colonialismo só sobreviveu intacto, quando a maioria dos nativos usurpados foram exterminados. Algumas vezes, como na Argélia ocupada, os colonizadores tiveram de fugir. A prosseguir a violência de Israel sem que nada a detenha, os palestinianos não aceitarão nem a solução de um Estado igualitário, e os colonialistas de Israel serão forçados a sair.



Restaurar a Palestina



Apesar de nada fazer na direcção de qualquer processo de paz para o Oriente Médio, a Casa Branca, nos anos recentes tem-se mostrado incapaz de resolver o nó da ocupação da Palestina por Israel, principal causa que põe em armas todos os militantes anti-americanos no mundo árabe e fora do mundo árabe.



O anti-americanismo é o denominador comum que modula todos os discursos populistas, no Médio Oriente. Invadir o Iraque ou oferecer vantagens a Estados aliados, não ajudará a resolver o problema em que os EUA converteram em problema quase insolúvel para todo o mundo.



Nas minhas viagens e pesquisas, tenho falado com jihadistas no Iraque, no Líbano, no Afeganistão, na Somália e em outros lugares: todos falam da luta dos palestinianos como uma das suas principais motivações.



O apoio a Israel custará muito caro aos EUA. Em breve, as ditaduras árabes, que os EUA consideram moderadas e que contribuem para manter a hegemonia dos EUA na região perceberão que, elas mesmas, estão em posição insustentável.



Perda de prestígio



Já se vêem aparecer novas tensões na região. Damasco retirou-se das conversações tripartidas com Telavive. Muitos árabes já temem, não só Israel ou os EUA ou ambos, mas, mais, a própria instabilidade interna dos seus governos e regimes, enfraquecidos por décadas de colaboração com Washington.



Também em Israel, a opinião pública começa a apresentar tendências novas. Embora 81% dos israelitas estejam hoje a apoiar a guerra, uma sondagem recente mostrava que apenas 39% dos israelitas acreditam que o actual governo, com guerra ou sem, conseguirá enfraquecer o Hamas ou reduzir a violência.



Em editorial, há poucos dias, o jornalista Gideon Levy escreveu, no Haaretz, de Telaviv, editorial intitulado "The neighborhood bully strikes again" ("O delinquente do quarteirão ataca novamente" (28/12/2008).



Barack Obama, presidente eleito dos EUA permanece mudo, enquanto Israel assassina palestinianos. A mudez é manifestação de cumplicidade.



Nir Rosen é jornalista, professor do New York University Center on Law and Security, autor de "The Triumph of the Martyrs: A Reporter's Journey in to Occupied Iraq" (escrevendo de Beirute).

Publicado originalmente na Al-Jazeera, em 31/12/2008 e traduzido por Carta Maior.

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