Este processo marca o pós crise financeira de 2007/8 e foi acelerado no último decénio. Na Europa, contou com o subsídio de Putin, sendo depois insuflado pelos ventos da primeira vitória de Trump, em 2017 (também auxiliada pelo Kremlin). Neste dossier, compilamos contributos recebidos nesse debate internacional e que comprovam a diversidade dos diagnósticos à esquerda.
As continuidades e diferenças do neofascismo face ao fascismo histórico são analisadas em dois textos. Gilbert Achcar identifica como ponta de lança do fascismo “a maior potência económica e militar do mundo, os EUA, com a qual convergem vários governos da Rússia, Índia, Israel, Argentina e outros países”. Diogo Machado aborda essas diferenças a partir do debate histórico à esquerda e da sua atualização por autores contemporâneos.
Para o historiador Enzo Traverso, a mutação mais notável da atualidade é a nova legitimidade da extrema-direita, tornada uma interlocutora legítima – e em muitos casos, privilegiada – para as elites dominantes globalmente, mesmo se por agora se trata mais de uma convergência baseada em interesses comuns do que da constituição de um novo bloco histórico, no sentido gramsciano do termo. Mas este endurecimento autoritário neoliberal tem, se não for travado, boas hipóteses de conduzir a poderes neofascistas, admite o sociólogo francês Ugo Palheta. Pelo seu lado, Fernando Rosas retoma a leitura de Hannah Arendt sobre a banalidade do mal e a capitulação moral da maioria, admitindo também “a emergência a curto ou médio prazo de regimes autoritários de tipo novo, talvez as novas formas de um fascismo adaptado às condições atuais”. Essas condições atuais - as das desigualdades crescentes e a da crise climática - levam à afirmação aberta daquilo a que Naomi Klein chamou “o fascismo do fim dos tempos”, um sobrevivencialismo supremacista monstruoso sob retórica “libertária”.
Miguel Urbán, dirigente anticapitalista do Estado espanhol, reconhece que muitas das paixões que mobilizaram as formas mais antigas de fascismo estão presentes na nova direita radical, mas também existem diferenças importantes que apontam para um novo fenómeno. O historiador Stathis Kouvelakis vai mais longe: considera estar em causa uma politização do racismo num quadro de degradação da democracia, mas “caracterizar a situação atual como uma repetição das décadas de 1920 e 1930 é profundamente enganador”. Pelo seu lado, o filósofo canadiano Alberto Toscano desmonta a virtude do centrismo liberal, que condena como fascistas fenómenos que ele próprio produziu ou em que colaborou. Toscano regressa às raízes do fascismo no colonialismo e no capitalismo racial para explicar também o fascínio da atual extrema-direita por Israel, essa realização quase utópica do supremacismo ocidental. Gilbert Achcar também explora o entusiástico sionismo da extrema-direita global.