“O crime contra a humanidade da tropa colonial é ainda hoje um tabu completo”

Miguel Cardina: Eu e o Bruno Sena Martins organizámos, muito recentemente, este livro chamado “As voltas do passado. A guerra colonial e as lutas de libertação”, que trata de alguns episódios relacionados com a história da guerra colonial e das lutas de libertação, mas também do modo como elas foram ressoando nos anos sucessivos a seguir ao processo das independências africanas, e à rutura com o fascismo e com o final da guerra. Temos agora aqui um espaço de conversa, não necessariamente a partir do livro, mas partindo inicialmente do livro e depois indo para questões que têm a ver com o modo como Portugal tem lidado com o seu passado colonial.
Fernando Rosas: Eu acho que este livro se incorpora numa corrente nova da historiografia que tem procurado rediscutir vários pressupostos, não só da nossa historia colonial recente, como da história da guerra colonial, em particular. Combatendo alguns preconceitos muito fortes na cultura portuguesa, e que têm sido conceitos mais ou menos hegemónicos, contraditados, mas hegemónicos. Basicamente a ideia de que, antes da guerra colonial existe em Portugal um longo período de colonialismo pacífico, humanitário e delicado, e escondendo, portanto, que a guerra colonial é a última guerra de um passado de quase meio século de guerras, pelo menos, desde as chamadas eufemisticamente “campanhas de pacificação”, porque, na realidade, as coisas até começaram em meados do século XIX.
A guerra colonial é a guerra moderna contra o colonialismo, de uma série de guerras de cunho mais tribal, pré nacionalista, que antes cederam as guerras de libertação nacional. Ponto dois, a ideia de que, apesar de tudo, o colonialismo português é um colonialismo bondoso. Cristão, diferente do inglês, do francês, do belga e, portanto, há aqui uma exceção colonial portuguesa, o que é uma total mistificação. É certo que os ingleses mataram 30% da população sudanesa durante o período da expansão colonial. Os portugueses não se sabe bem que percentagem mataram, mas quando vieram com os produtos bélicos da segunda revolução industrial para África, o canhão e a metralhadora, formados em quadrado, mataram dezenas de milhares em Angola, em Moçambique, na Guiné, etc. Finalmente, referir, só para efeito de discussão, esta ideia de que a guerra colonial era uma guerra justificável, feita em nome de um interesse nacional, e isso tem muito a ver com a própria prevalência das ideias coloniais na oposição portuguesa até muito tarde. Mesmo o Partido Comunista em 1957, na sequência do XX Congresso do Partido Comunista da união Soviética, adotou uma postura anti-colonial, mas sobretudo, retórica.
É, de facto, a extrema esquerda, e a esquerda católica que introduzem, em Portugal, a luta contra o colonialismo e guerra em termos de luta de massas, em termos de luta de rua, de combate político. Tudo isto é perpetuado pelo facto de que, quem faz o movimento militar que derruba a ditadura e o regime anterior são os militares que estavam a fazer a guerra, nem sequer são os militares que estão no “ar condicionado”, são os militares que combatem no mato, que colaboram com a PIDE no mato, que são, eles próprios, réus de crimes coloniais que ficaram, absolutamente, por discutir. Os crimes coloniais da polícia política começaram agora a destapar-se, mas o crime contra a humanidade da tropa colonial, isso é quase um tabu, ainda hoje, um tabu completo. Aliás, vocês abordam isto neste livro, é muito importante isto.
Temos um Presidente da República que veio falar sobre a bondade genética dos portugueses face à escravatura, dizendo que o Marquês de Pombal tinha iniciado o fim da escravatura em Portugal no fim do século XVIII, quando, como toda a gente sabe, o que o Marquês de Pombal fez foi desviar o tráfico da metrópole, onde não era necessário, para as colónias brasileiras. É muito importante desconstruir os mitos nacionalistas e colonialistas que estão à volta da guerra colonial e do passado colonialista do Estado português. Nesse sentido, há uma nova historiografia, feita de historiadores jovens, de gente nova, de gente com outra aproximação à realidade, gente com comparação, ou seja, que em vez de enclausurar a história do colonialismo português na sua pequena realidade paroquial estabelece relações, e relações que são muito importantes porque são relações de paralelo com as outras formas de colonialismo, no fundo, o colonialismo português não inventou praticamente nada, copiou e adaptou as experiências coloniais anteriores, e essa nova corrente da historiografia é muito importante. Tão importante que trouxe para o terreno este bem-vindo debate sobre o Museu das Descobertas.

Fernando Rosas
Miguel Cardina: Se calhar deixamos um bocadinho o Museu das Descobertas em suspenso, porque certamente será uma discussão que certamente vamos a seguir ter, mas pegando em algo que o Fernando Rosas agora dizia relativamente ao silenciamento daquilo que foi a violência colonial. Uma das razões que o pode explicar, é, justamente, o processo de mudança política que foi operado em Portugal e o ator que produz essa mudança política.
Os militares, enquanto sujeito político que desencadeia um golpe que depois abrirá espaço para uma revolução, são também aqueles que fazem a guerra. Isso introduz dinâmicas de atrito naquilo que é, não só a memória, como a própria responsabilização daquilo que foram os crimes relacionados com a guerra. Esse elemento é interessante. Depois há um outro dado, que o Fernando Rosas agora mencionava, que tem a ver com o modo como a sociedade portuguesa lidou de maneira muito difícil com esse passado colonial e isso abre alguma reflexão sobre as continuidades do luso-tropicalismo. Por exemplo, Cavaco Silva quando vai, em 2008, a Maputo é questionado sobre Wiriamu e a resposta dele é “não vamos estar a olhar para o passado, vamos olhar para o futuro”. Ao mesmo tempo, se olharmos para os discursos de Cavaco Silva, os tópicos sobre o luso-tropicalismo, os grandes tópicos definidores, estão lá, reconfigurados.
Fernando Rosas: Luso-tropicalismo é discurso oficial, continua a ser discurso oficial!
Miguel Cardina: Já não é o “Portugal que não é um país pequeno”, mas é o “Portugal europeu que se encontrou com outros povos”…
Fernando Rosas: É o “jeitinho lusitano de se miscigenar nos trópicos”, essa mitologia está lá, é discurso oficial. Tu falaste no Cavaco Silva, mas podemos falar no atual Presidente da República, que no discurso de posse da presidência veio invocar o Mouzinho de Albuquerque. Quer dizer, o Mouzinho de Albuquerque é o carrasco do Gungunhana e dos vátuas na revolta… Porquê, porque é o símbolo. E continua a ser o padroeiro, não é bem o padroeiro, o santo glorificador do exército português. Esse discurso está aí, todos os governos depois do 25 de Abril tiveram esse mesmo discurso, todos.
Bruno Sena Martins: Uma experiência interessante que nós temos tido com a receção pública do livro é o modo como ele, ao mesmo tempo, tem um impacto na historiografia, mas é a repercussão pública que ele tem tido, e isso tem sido particularmente interessante porque se enquadra num tempo em que existe uma discussão pública identitária acirrada que convoca muito a necessidade de se inscrever a violência colonial portuguesa dentro daquilo que é a identidade e representação nacional.
A ideia que nos fica é que, se Portugal se reconfigurou de alguma forma enquanto país pós imperial, que assumiu, digamos, a sua pequenez, a identidade e a auto-estima do senso comum português lida muito mal com a possibilidade de ter de enfrentar a sordidez da violência colonial. E essa sordidez é constitutiva daquilo que foi, desde a expansão oceânica, desde o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, desde as campanhas de pacificação, o estatuto do indigenato, o trabalho forçado, a guerra colonial… estes eventos são constitutivos da experiência portuguesa, e a experiência europeia, como a experiência portuguesa, fez-se, em grande medida, fora das fronteiras da Europa, fora das fronteiras de Portugal.
A necessidade de convocar essa história feita noutros territórios e noutros espaços como parte inerente daquilo que é a identidade, representação e a história do país. Isso é interessante, dizia, na relação da repercussão com o espaço público, porque é possível perceber como é que há identidades cujas lutas sociais estão a ser mobilizadas pela convocação da história. Desde logo, as identidades dos ex-combatentes, eu tive a oportunidade de fazer trabalho com ex-combatentes da guerra colonial portuguesa, deficientes das Forças Armadas, em particular, e o modo como as suas histórias ficaram num limbo, sem espaço de conversa na sociedade portuguesa, que não queria falar da guerra, que não queria falar da violência colonial, é muito significativo de um certo abandono que as suas identidades, as suas histórias, sofreram. Por outro lado, temos tido, mais recentemente, a emergência, por parte da comunidade negra e afrodescendente portuguesa, cuja afirmação de uma ligação, de uma genealogia entre aquilo que é a história da violência colonial portuguesa e o racismo pulsante na sociedade portuguesa. Como é que esse racismo produz desigualdade, como é que esse racismo produz violência, e como é que esse racismo promove uma inviabilização da presença de negros e de agendas que tenham a ver com a presença de corpos e de visões, nos currículos, nos espaços públicos, nos museus, que incorporem um pouco a história dessas entidades feridas pelo racismo. É muito interessante que este livro surja tendo um objetivo bastante historiográfico e modesto, neste sentido, e que se inscreva num espaço público que está efervescente, eu acho, em que as lutas sociais estão a ser muito constituídas pela memorialização da história e pela inscrição da violência colonial.
Eu diria que há três eventos recentes que são decisivos numa ligação entre o papel da academia e o dos movimentos sociais negros e de afrodescendentes que marcam muito um debate interessante que está a acontecer na sociedade portuguesa. O primeiro terá sido das declarações de Marcelo Rebelo de Sousa em Gorée, que recebeu, da parte de historiadores, uma crítica de como ele fazia uma leitura benigna daquilo que foi o colonialismo português e do papel de Portugal, neste caso, na escravatura. O segundo evento importante foi quando, no orçamento participativo de Lisboa foi aprovado um memorial da escravatura por intervenção da Djazz, a associação de afrodescendentes, e o significado político que isto tem, de inscrever no espaço público essa memória, em Lisboa, uma cidades que desde o século XV viveu com a experiência da escravatura e a promoveu. E, finalmente, o debate que se criou em torno do Museu das Descobertas.
Eu não sei se o museu alguma vez será feito, mas terá sido uma instalação artística pública histórica museológica importante a própria ideia do museu pelo debate que criou. E por perceber como é que colocar em causa a ideia da Descoberta é ofensivo para muito daquilo que é um certo senso comum instalado dentro da academia, dentro do espaço mediático, a ideia de que se possa por em causa esta narrativa exaltante acerca da gesta heróica dos portugueses, é uma perplexidade perceber a força de que esta contra narrativa que coloca a violência colonial tem sobre a fragilidade desta identidade portuguesa, tão fortemente ancorada nesta ideia benigna do colonialismo e nesta ideia heróica dos Descobrimentos.
Fernando Rosas: É verdade, eu acho que sim. Agora, esse fenómeno está a ser acompanhado na sociedade portuguesa por uma reação violentíssima por parte dos setores políticos, culturais, ideológicos, que são herdeiros da herança colonial, da herança colonialista. E isso tem a ver com a natureza da colonização portuguesa. A colonização portuguesa teve, a partir do pós-guerra, sobretudo do segundo pós-guerra, um caráter massivo, ou seja, finalmente os grandes projetos de colonização branca são feitos nos anos 50. Projetos, aliás, milionários, a colonização do Limpopo, a barragem de Cahora Bassa, em Angola a colonização no colonato do Bié, e são projetos que levam dezenas de milhares de camponeses pobres da Beira Alta, Trás-Os-Montes, etc, para as colónias.
E depois há uma segunda vaga, já não de colonização estatal, que é a dos soldados que vão fazer a guerra e que ficam lá. E isso constitui a base social de uma nostalgia colonial que alimenta esta ideologia. Quando eu fiz o filme sobre a Diamang, por exemplo, naquela série que fiz para a televisão [História a História: África], tive reações muito acirradas, quer de pessoas que diziam “isso era mesmo assim, foi mesmo assim, aquilo era uma espécie de campo de concentração de luxo” e depois os outros que beneficiavam do campo de concentração a dizer “isso é uma calúnia, a Diamang era um modelo de convívio interracial”, mas há uma base social para a reação do colonialismo, e que se reflete retroativamente na história que vemos do próprio período da expansão e dos “Descobrimentos”.
Ou seja, há uma espécie de utopia de antigo regime, utopia regressiva, que tenta reconstruir uma história dos chamados “Descobrimentos”, vamos chamar-lhes assim por facilidade de expressão, que é completamente mítica. Esse próprio processo da expansão colonial, as origens no século XVI e XVII frustraram a própria acumulação capitalista, porque foram processos liderados pela corte e pela aristocracia senhorial, em claro prejuízo da acumulação de uma burguesia capitalista moderna, ao contrário, sim, do que se passa em Inglaterra, na Bélgica, na Holanda. É uma expansão que tem um cunho senhorial aristocrático e de despesa improdutiva, que faz com que os rendimentos da Índia ou o ouro do Brasil sejam mais ou menos, mais ou menos, porque depois com o ouro do Brasil já há a correção que o Marquês começa a fazer, mas antes disso era despejar água num cesto. Tudo aquilo se traduzia não na acumulação de uma classe emergente, mas em despesas sumptuárias por parte das classes senhoriais. Mesmo isso é uma mentira, mesmo essa narrativa é uma mentira organizada, já para não falar nos mitos do Infante e da Escola de Sagres, mas é uma mitologia forte que tem uma base social na nostalgia do império. E eu acho que esta nova geração de investigadores, e todos nós, historiadores, tem pela frente uma luta prolongada e saúdo de uma forma muito importante esta polémica do museu. Porque é talvez a primeira polémica verdadeiramente pública que se estabelece acerca desta questão. É a primeira em muitos anos.

Bruno Sena Martins
Miguel Cardina: É muito interessante comparar isso com a polémica que surgiu aquando da Expo’98, em que ficaram setores muito reduzidos marginalizados completamente. É interessante esta questão da força desta narrativa, porque eu acho que é preciso ter em conta que esta narrativa, chamemos-lhe, por conveniência, neo-lusotropicalista, como quisermos chamar, é claramente dominante em Portugal.
É interessante observar a partir de que sujeitos políticos, atores, ela tem vindo a ser contestada, claramente, por alguma academia, coletivos de afrodescendentes, que têm vindo a assumir um protagonismo. E também outro elemento interessante é perceber como é que esta nostalgia imperial feita da África perdida, por quem de lá veio, por quem lá esteve, etc, tem vindo também a ser contestada, nomeadamente no campo da arte por novas gerações que nasceram já depois do 25 de Abril, e que têm tido um discurso fortemente crítico, muitas vezes um discurso de busca do passado, não é só um discurso ancorado numa história que se quer contar.
Em relação, ainda, à questão do Museu das Descobertas e das permanências desse senso comum, basta observar, nem é preciso ir ao Portugal dos Pequenitos, porque esse é o óbvio, mas eu, que vivo ao pé do Portugal dos Pequenitos, tenho observado outra coisa, é que…
Fernando Rosas: Nunca lá fui.
Miguel Cardina: Não? Eu vou muito, quase diário. Porque já não são só as crianças, não é só a excursão da escola que vem de Fafe, ou de Santa Maria da Feira, ou de Loulé, ou de Matosinhos, são turistas. E é muito interessante perceber como, por exemplo, no “Porto World of Discoveries”, que já existe, é um parque temático sobre as Descobertas que lá está, com muitos visitantes. Há uma dinâmica de turistificação deste passado também, e é interessante perceber como é que esta dinâmica de turistificação deste passado se vai alimentar deste senso comum, justamente porque este senso comum é operativo e demonstra, justamente, como ele está vivo. O que eu acho, independentemente de o museu existir ou não, é que o museu já existe, na medida em que desencadeou um debate que é novo. Há tempos um colega nosso do centro de Estudos Sociais, o António de Sousa Ribeiro escreveu um pequeno texto sobre o museu, que tinha um início particularmente luminoso, onde dizia “a existir o Museu das Descobertas, a primeira sala deveria ser dedicada à polémica sobre o museu”, que é o modo como, de facto, este museu não é uma forma de nós olharmos o passado e de o procurarmos corrigir, é o que este museu nos diz sobre o modo como Portugal ainda hoje enfrenta este passado.
Fernando Rosas: Eu gostava, sobre este museu, de falar de um dos argumentos que é apresentado como um dos mais perturbadores da contestação ao museu, que é de que se está a querer minimizar o progresso técnico-científico que resultou da expansão. Eu gostava de chamar a atenção para o facto de que o progresso técnico-científico também resultou do nazismo. O nazismo trouxe o avião a jato, o nazismo trouxe os primeiros mísseis intercontinentais, o nazismo trouxe máquinas de destruição massivas, os computadores surgiram na guerra.
A tecnologia inovadora, em si mesma, tem que ser, historicamente, analisada ao serviço do que foi feito. Que os chamados Descobrimentos, que a expansão marítima trouxe desenvolvimento da tecnologia, é claro, a navegação, a astronomia, a botânica, essas coisas todas de que se fala. É preciso é saber qual era a lógica social e política e cultural, no modelo que produz essa tecnologia. A tecnologia em si, claro, é um contributo, mas porque é que não se fala nos mesmos termos da tecnologia que os nazis inventaram para ganhar a guerra? A tecnologia em si mesma é um avanço técnico, mas a questão sempre subjacente é saber quem é que isso serve, ao serviço de quem é que isso é colocado? Esse é um dos argumentos mais demagógicos.
No outro dia, alguém dizia assim, sim, porque o Pedro Nunes, o grande matemático, o nónio, que foi uma coisa que as Descobertas trouxeram, etc. E não é verdade, os conhecimentos do Pedro Nunes, que são importantíssimos do ponto de vista da matemática, não tiveram praticamente nenhuma aplicação aos Descobrimentos porque o que os portugueses fizeram foi adaptar aquele astrolábio, havia um astrolábio muito complicado feito pela cultura mediterrânica, e ele, com um sentido muito prático da coisa, os marinheiros adaptaram aquele astrolábio à navegação. Mas o princípio do nónio e as descobertas do Pedro Nunes não são ainda aplicadas, há uma mistificação acerca disto. Esses progressos técnicos existem, mas a questão dominante não é saber se eles existem, é saber ao serviço de que modelo, ao serviço de que sociedade, ao serviço de que justiça, ao serviço de que progresso é que foram criados, e acho que esse é um argumento um bocadinho intimidante, é contra o progresso, o desenvolvimento técnico, estão a negar o progresso, etc, Os portugueses aprenderam a navegar com os astros, isto com aquilo, há alguns progressos. Do ponto de vista da ciência pura não há muitos, do ponto de vista da ciência aplicada há alguns, mas o problema está mal colocado, está colocado ao contrário.
Bruno Sena Martins: Eu acho que um outro aspeto que estávamos a falar, de como esta historiografia, esta memorialização daquilo que foi o colonialismo e a violência colonial tem sido desencadeado a partir de diferentes atores, acho muito curioso quando falava do facto de que as oposições no período anterior ao 25 de Abril tiveram uma condenação que não era tão clarividente, ou que não era tão dominante em relação ao colonialismo nos diferentes setores, e, portanto, que de alguma forma, não só nós temos uma base social que defende uma certa visão melancólica do colonialismo, como nós não tivemos no período posterior ao 25 de Abril, atores com uma significativa presença no espaço público trouxessem essa questão de uma forma crítica. A questão da guerra, a questão da violência colonial.
E o que é curioso, nesta leitura que fazemos, é que um ator ou atores que estão ausentes desta discussão são as comunidades dos países que emergiram da guerra colonial e das lutas de libertação. Ou seja, como é que nesses lugares, como nós podemos pensar em que medida é que os movimentos de libertação libertaram Portugal de um regime colonial fascista. Isto é um ponto que acho que é importante nós pensarmos também, e como é perspetivada a violência colonial, a produção de heróis, do outro lado, nos países que emergiram das lutas de libertação? Acho que um exercício que este livro tenta fazer é, do ponto de vista de historiadores, académicos e pessoas que se integram na sociedade civil, às vezes não com uma leitura romantizada daquilo que foram as lutas de libertação, e até bastante críticas de como é que essas heranças têm sido colocadas ao serviço de agendas políticas não tão democráticas, não tão representantes da promessa libertadora, e acho interessante nós também articularmos esta reflexão que nós temos sobre o colonialismo com aquilo que se passa do outro lado. De como os países que emergiram deste ciclo de violência se procuram reconstruir, e também mobilizam, como fundacional, este momento de violência, como libertador, com as contradições que isto traz.
Fernando Rosas: Pois, eu acho que tu colocas um problema que é central. O regime cai porque não resiste a uma guerra de libertação nacional, desencadeada durante 13 anos e que, pelo menos em 2 países, está à beira ou de libertar o país, ou de infligir, em Moçambique, golpes de misericórdia. E, conjugado com isso, há um exército, há um setor das forças armadas, que percebe isso e desiste de fazer a guerra. Assume a derrota na guerra, contra o Estado e contra os comandos, assume a derrota na guerra. Portugal é derrotado na guerra colonial, e isso é uma coisa que custa imenso…
Portugal é derrotado porque o exército, perante a persistência e os sucessos, ainda que desiguais, da luta de libertação, se rende. Há, digamos assim, uma dialética de contribuições, uma luta comum, uma luta conjunta que contribui para o desenlace que existiu. Em Portugal, a crítica do colonialismo, a derrota na guerra colonial, não é fruto de uma longa luta da esquerda portuguesa contra o colonialismo, é fruto da derrota na guerra! A não ser por parte, já muito tardiamente, a partir do final dos anos 60, da extrema esquerda e da esquerda católica, que são a malta que vai para a rua, mas mesmo assim é uma luta limitada, é uma luta setorializada, é uma luta de juventude, de setores intelectuais, etc. É preciso não esquecer que o Partido Comunista em 1949, fim da guerra, Índia independente, as independências a virem do extremo oriente para cá, apoiou um candidato à presidência da República que era o general Norton de Matos, que era o rei do colonialismo em Angola. É preciso dizer que o Partido Comunista Português, nos anos 50 criou secções angolanas e moçambicanas do Partido Comunista Português. Mesmo a viragem do Partido Comunista Português é muito induzida pelas resoluções do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética. E é retórica! Não nego a coragem, por exemplo, dos homens do Movimento Nacional Democrático que, em 53 ou 54, defendem publicamente a autodeterminação de Goa, Damão e Diu e são todos presos, e condenados a prisão maior. Nem nego, no ambiente que me lembro muito bem porque andava no liceu no ambiente de histeria nacional colonialista em 1961, quando se desencadeia a guerra em Angola, o Partido Comunista Português foi a única voz que, no meio daquela histeria geral, defende o direito à independência. Mas eram, sobretudo, posições retóricas. Porque, na realidade, unidade antifascista que o Partido Comunista propõe, continua a fazer-se com os setores liberais…
Qual era o resultado? Não se podia falar na questão colonial. Porquê? Porque a crítica dos setores republicanos ao colonialismo era a crítica à má administração colonial, “isto o que está a ser é mal administrado”, o problema não era o colonialismo em si.
Miguel Cardina: O Cunha Leal…
Fernando Rosas: O Cunha Leal, na verdade, era um adversário do Norton de Matos, mas, na realidade, eram os herdeiros intelectuais do Norton de Matos. Tu lês o programa, as primeiras versões do programa para a democratização da República, que é quando começa a guerra, em 61, e o problema é um problema de descentralização, de acabar com a corrupção, mas a questão de soberania colonial… porquê? porque há uma velha mística, há um mito fundador da República e que é herdada da monarquia, que é da riqueza que está à espera, num país pobre, que está à espera que nós a tomemos, que é o império. Está ali aquilo à nossa espera. Aquilo é o substitutivo místico, a solução mística para a miséria nacional, para a miséria do país. E isso é um mito popular, o da riqueza infindável do império que está à espera que nós a tomemos. E isso passa pelos partidos da esquerda, porque vem dos partidos republicanos, passa para a oposição, no Partido Comunista lá vai andando, e é preciso esperar pelo fim dos anos 60, para surgir a palavra de ordem “guerra do povo à guerra colonial”, que é a política que, finalmente, aparece no final dos anos 60. Estas coisas são profundas e, como nós perdemos a guerra, mas não derrotámos o colonialismo, o colonialismo ficou, mesmo com a guerra perdida.

Fernando Rosas e Miguel Cardina.
Miguel Cardina: Mas, introduzindo um outro setor social que tem importância, para além da extrema esquerda, dos católicos, nessa fase, há também setores anti-coloniais africanos, que estão em Portugal, a Casa dos Estudantes do Império é o exemplo mais evidente, mas é muito curioso que há tempos tive, creio que por causa da série documental, de tentar fotografar onde era a sede da Casa dos Estudantes do Império em Coimbra e foi, absolutamente, uma odisseia, porque não tem uma indicação. Já descobri que há duas…
Fernando Rosas: O Bruno não te disse onde é que era?
Miguel Cardina: Não, o Bruno perguntou-me. Primeiro depois andámos a ver, e foi muito difícil, o que é muito curioso, justamente…
Fernando Rosas: Apagou-se.
Miguel Cardina: Totalmente, foi totalmente apagado. Em Lisboa, sim, mas em Coimbra o papel da Casa dos Estudantes do Império e na sociedade portuguesa em geral o papel dos movimentos de libertação do anticolonialismo enquanto fator fundamental no processo de libertação do país. Não é só não termos um monumento às vítimas da escravatura em Portugal, que faz falta, e podemos ter todas as discussões sobre políticas de representação, que não são simples, porque fazer uma estátua é criar heróis, e tudo isso é complexo. Mas a verdade é que hoje, se as crianças do primeiro ciclo quiserem ter um confronto sobre narrativas alternativas em relação à nacionalidade e ao orgulho pátrio, e às descobertas, e etc, não têm espaços para os professores irem, a não ser que façam um discurso de pós-graduação às crianças. É necessário esse espaço. E, ao mesmo tempo, se olharmos para as ruas destes país, não sei quantas ruas Amílcar Cabral ou Agostinho Neto, ou outros, existirão, que são também parte da história portuguesa, também, são parte, naturalmente, da história africana, mas são também parte da história portuguesa. E é interessante perceber como esse elemento não só não está presente, e uma das razões disso é justamente essa, a própria esquerda, a própria história da esquerda, a própria história do antifascismo e do anticolonialismo proveniente destes setores da esquerda pós-68, 69, também, por diferentes razões, teve dificuldade em se articular com o anticolonialismo. Primeiro, porque são gerações diferentes, já estavam a fazer a luta…
Fernando Rosas: E, no entanto, Miguel, repara que há uma tradição anticolonialista no anarquismo.
Miguel Cardina: Claro, anos 20, Mário Domingues.
Fernando Rosas: Claramente anticolonialista, que se perde. Tu tens os anarquistas nos anos 20 a defender o direito à independência dos povos coloniais e tens, poucos anos depois, o Partido Comunista a defender o Paiva Couceiro e a acusar o fascismo de não defender o património colonial face às pretensas tentativas italianas para tomar conta de Angola, ou outras coisas do género.
Bruno Sena Martins: Uma outra dimensão que acho importante é pensarmos como este debate, que está a acontecer em Portugal tem tido também uma circulação internacional. Há muito deste debate que tem uma matriz e uma origem nacional, mas vincula-se também muito a debates e discussões que têm acontecido noutros lugares do mundo. Ou seja, aquilo que aconteceu em Charlottesville em relação à representação da estátua de um consagrado combatente pela confederação na defesa da escravatura, aquilo que aconteceu em África do Sul no processo “Rhodes Must Fall” e como é que a população negra, sobretudo estudantes negros se indignaram com essa representação ostensiva de um herói do racismo, do apartheid e do colonialização. Como é que no SOAS se colocou a questão dos currículos que representavam a história africana, asiática, sobretudo, a partir de narrativas e referenciais que eram eurocêntricos e que, nesse sentido, falavam da necessidade de descolonizar os currículos. Este é um debate que está a acontecer e que tem uma dimensão internacional muito forte, muito marcada pelo que acontece na mobilização de negros e de afrodescendentes, por exemplo a realidade no Brasil, onde é muito pulsante o modo como uma reivindicação de uma afrodescendência, de uma ancestralidade, que às vezes até mitifica uma certa ideia de África, e é fundadora de um movimento social, que faz escola e que está muito ligada às políticas afirmativas, que o PT estabeleceu e que permitiram a representação da população negra.
Se nós pensarmos como é que está distribuída a desigualdade, ela tem linhas raciais bastante fortes, que poderiam, ou deveriam ser confrontadas com políticas afirmativas. Este é um debate que tem uma dimensão nacional, e que tem a ver com as especificidades do colonialismo português e com a inviabilização da violência colonial no quadro português, e com a força do lusotropicalismo, sem dúvida, mas tem também tem uma dimensão internacional que me parece interessante, acerca deste processo de uma demanda de descolonizar enquanto condição para desracializar as hierarquias de humano que constituem as nossas sociedades, que constituem as nossas universidades, que constituem os currículos, os manuais escolares, por exemplo, e, obviamente, o espaço público. Em Coimbra, qualquer pequena república tem o nome de um escritor anónimo que por lá passou. Figuras célebres que por lá passaram do anticolonialismo não têm representação naquela cidade.
Fernando Rosas: E, no entanto, houve repúblicas muito marcadas nesse sentido.
Miguel Cardina: Mas é o único espaço, na república “Kimbo dos Sobas”, que curiosamente agora fechou já há pouco anos, onde, lá fora “aqui viveu Neto e Sabrosa”, dois anticolonialistas, do MPLA, aliás, um deles vem a morrer no 27 de Maio, que foram presos em 1971. É dos poucos espaços onde eu conheço uma lógica de memorialização, mas é muito residual, justamente porque nessa república específica eles passaram por lá.
Conversa gravada em setembro de 2018 no Fórum Socialismo 2018 em Leiria.