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A Branca de Neve e a Bruxa Má

O combate à violência sobre as mulheres é uma causa mundial que, felizmente, ano após ano tem maior visibilidade e congrega cada vez mais sectores da sociedade. Artigo de Helena Pinto.
Foto de Christi Niels, Flickr.

É um combate difícil porque está diretamente ligado a sentimentos e emoções e, sobretudo, porque é um combate muito desigual, entre o agressor e a vítima. Foi preciso romper os muros que “protegiam o lar”, que protegiam o casamento, colocar em causa o poder que é exercido pelo homem no contexto da família e sobre a “sua mulher”. Foi preciso romper os silêncios das vítimas. Foi preciso ir contra a inércia dos poderes públicos. Foi e é preciso. Este combate, embora registe avanços significativos está longe de terminar. Mais do que nunca, há que manter a luta contra a violência doméstica e a violência contra as mulheres na ordem do dia.

É uma luta multifacetada e é também importante centrar o debate na vítima, compreender a sua situação concreta, como vive as suas emoções e as suas contradições e como encontrará as forças para dizer NÃO e recomeçar tudo de novo. É neste sentido, que vos convido a ler e a refletir sobre este texto de Alyce D. LaViolette e Ola W. Barnett, publicado no livro “It Could Happen to Anyone” (Pode acontecer a qualquer uma), um estudo sobre mulheres vítimas de violência, onde, através de um exemplo em torno de uma história infantil, que continua a ser contada às meninas, se coloca em evidência como a maioria das mulheres não está preparada para enfrentar situações de violência no casamento.

“Tem sido ‘desafiador de pensamento’ perguntar às mulheres com que personagens se identificam, nomeadamente nos contos tradicionais, tipo ‘quem é que tu queres ser quando fores grande’?

Na história da Branca de Neve, quase todas as mulheres querem ser a Branca de Neve. Por razões óbvias, é raro as mulheres escolherem a Rainha Má/Bruxa Má como seu modelo.

O que é que se sabe sobre a Branca de Neve? Era muito bonita, bastante passiva, extremamente doce, demasiado indulgente (com os sete anões), incrivelmente alimentadora e excessivamente desamparada, e cantava de uma forma medíocre. Os modelos de papéis das mulheres (mesmo no século XX e eu acrescento no século XXI) não saem muito das personagens dos contos de fadas. A Branca de Neve, por exemplo, estava preparada para encontrar o Príncipe Encantado, ser acarinhada e salva por ele. Ela não estava preparada para encontrar Átila, o Huno. Não estava preparada para tomar decisões, ser assertiva e heroica.

O que é que se sabe sobre a Bruxa Má? Era bela, diabólica, manipuladora, calculista, forte, interesseira, egoísta, vaidosa. Ela tratava de si própria e fazia frente a qualquer pessoa que se atravessasse no seu caminho. Ela controlava o pai da Branca de Neve e estava preparada não apenas para encontrar, mas para combater Átila, o Huno.

Não se tem muita escolha, pois não? Quando uma mulher se envolve emocionalmente com um individuo que ela inicialmente percebe como um bonito príncipe encantado e que, mais tarde, adquire características de Huno. Muitas vezes ela não está preparada para lidar com esta situação nova e insegura.

Os traços de personalidade com que ela cresceu a acreditar como valiosos, traços que a tornam uma mulher de valor, tais como empatia, compaixão, gentileza, capacidade de perdão, aqui, não a protegem. De facto, eles podem até desampará-la. Exatamente estes atributos que ela passa uma vida a desenvolver, são agora vistos como negativos, mesmo patológicos, no contexto de uma relação abusiva.

Amigos, família, terapeuta, advogado(a), todos podem estar a dizer-lhe que aquelas prioridades já não funcionam. Que ela, agora, precisa de tomar conta da sua vida, canalizar a sua raiva para a ação e salvar-se a si e às suas crianças. Muitas mulheres espancadas sentem que se lhes está a pedir que deixem de ser a Branca de Neve e se transformem na Bruxa Má. Pede-se-lhes que passem a ser uma pessoa de quem elas nunca gostaram. Pede-se-lhes que neguem e mudem a sua socialização, e que façam isso rapidamente.”

Vale a pena refletir e agir!

Resto dossier

Violência contra as Mulheres

A violência contra as mulheres é uma forma de discriminação e uma violação de direitos humanos, sendo que a sua persistência constitui um pesado retrocesso civilizacional. No dia 25 de novembro, sairemos à rua para exigir a vontade política e os recursos necessários para assegurar uma estratégia eficaz de prevenção e combate à violência contra as mulheres. Dossier organizado por Mariana Carneiro.

UMAR apresenta dados sobre mulheres assassinadas em 2011

A UMAR apresentou esta quinta-feira, Dia Internacional pela Eliminação da Violência Doméstica, os dados relativos ao Observatório de Mulheres Assassinadas e referentes ao ano de 2011. Até dia 11 de novembro do presente ano, registaram-se 23 homicídios, 39 tentativas de homicídio e 62 vítimas associadas. Ver relatório.

Violência contra as mulheres: um fenómeno multidimensional

A violência contra as mulheres é uma forma de discriminação e uma violação de direitos humanos, sendo que a sua persistência constitui um pesado retrocesso civilizacional. Tendo em conta que as suas manifestações são variadas e complexas, a resposta a este fenómeno terá que ser global, estratégica e exige o envolvimento de toda a sociedade.

Algumas formas da violência patriarcal

O patriarcado é muito antigo. Oprime as mulheres pelo facto de o serem. Já existia antes do capitalismo e reproduz-se de diversas formas para além do aspecto estritamente económico: pela linguagem, os estereótipos, a cultura. Artigo de Adriana Lopera.

Violência Contra as Mulheres é "persistente, generalizada e inaceitável"

Durante a apresentação, em outubro deste ano, do relatório anual do Conselho de Direitos Humanos da ONU sobre violência contra mulheres, Rashida Manjoo, Relatora Especial deste Conselho, classificou este tipo de violência como "persistente, generalizada e inaceitável" em todo o mundo.

O fenómeno da violência doméstica em Portugal

A violência doméstica é, muito possivelmente, a forma mais generalizada de violência contra as mulheres. No nosso país, este tipo de violência continua a vitimizar dezenas de milhares de mulheres, chegando a causar a morte de algumas das vitimas.

Não somos cúmplices nem indiferentes!

É este um dos lemas que nos deve nortear no que diz respeito à violência contra as mulheres. Não existe um decréscimo no número de vítimas de violência contra as mulheres, apesar de parecer que já está tudo feito, que a igualdade existe e que já é considerado crime público. Tem aumentado o número de denúncias, mas nem por isso têm aumentado as medidas de prevenção ou a avaliação do risco.  Artigo de Albertina Pena.

Não pararemos de lutar até que todas sejamos livres!

Como salienta Christine Ockrent, as mulheres são sempre as primeiras vítimas de humilhação, precariedade, maus-tratos conjugais, criminalidade, pobreza, fome, desemprego, violência, violação, morte. Artigo de Nádia Cantanhede.

A Branca de Neve e a Bruxa Má

O combate à violência sobre as mulheres é uma causa mundial que, felizmente, ano após ano tem maior visibilidade e congrega cada vez mais sectores da sociedade. Artigo de Helena Pinto.

Manifesto da Marcha pelo Fim da Violência contra as Mulheres

No dia 25 de novembro, celebra-se o "Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres". Em Portugal, esta data será assinalada com a Marcha pelo Fim da Violência Contra as Mulheres, cujo início está marcado para as 17h no Largo de Camões, em Lisboa. Leia aqui o manifesto da marcha.

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