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Algumas formas da violência patriarcal

O patriarcado é muito antigo. Oprime as mulheres pelo facto de o serem. Já existia antes do capitalismo e reproduz-se de diversas formas para além do aspecto estritamente económico: pela linguagem, os estereótipos, a cultura. Artigo de Adriana Lopera.
Foto de Katie Buttons, Flickr.

Esta dominação faz-se sempre acompanhar da violência, seja ela física, moral ou psíquica e reveste as mais diversas formas, identificando-se, entre outras, a mutilação genital, o tráfico para exploração sexual e laboral, os casamentos forçados, as violações, ou a violência nas relações de intimidade.

Aliás, esta última tem sido, sob a designação de violência doméstica, é uma das formas de violência que se tem tornado mais visível, devido ao aumento de denúncias também facilitado pelo facto de se ter tornado crime público.

Segundo alguns académicos e académicas, entre as quais Walker, a mentora da teoria do Ciclo, a violência conjugal exerce-se por fases ou ciclos e nem sempre com a mesma forma, duração e intensidade.

Esta teoria impôs-se como contributo significativo para explicar a manutenção nas relações abusivas e identifica nestas o seguinte padrão cíclico: fase do acumular de tensão, fase de ocorrência da agressão e fase de lua de mel.

A fase do aumento de tensão implica violência psicológica. Consiste numa rotina carregada de insultos e humilhações que proporcionam um sentimento de inferioridade e uma perda da autoestima da mulher. Os pretextos do agressor para este rebaixamento estão frequentemente relacionados com ciúmes e com situações do quotidiano, como pela mulher ter cozinhado com mais pimenta, ou ter saído de casa sem o avisar. Desta forma vai-se criando um ambiente cada vez mais tenso e unidirecional.

A fase do ataque violento implica violência física e psicológica. Este ataque pode ser de grande intensidade, podendo a mulher precisar de cuidados de saúde, aos quais o agressor nem sempre permite um acesso imediato.

Na fase da “lua de mel” o agressor mostra-se arrependido e manifesta que não vai voltar a ser violento, que foi a última vez. Caracteriza-se frequentemente por uma saída de casa - o casal passa um dia ou um fim de semana fora - o agressor costuma oferecer flores, dar prendas e tentar seduzir a mulher pedindo desculpas com delicadeza. A mulher vive esta fase numa mistura entre medo, esperança e amor.

Este ciclo pode repetir-se durante meses ou anos e pode ter fases mais longas no tempo do que outras. O homicídio é o seu exponente máximo.

 

Entender o porquê de serem as mulheres as principais vítimas da violência, quer seja no espaço privado, quer no espaço público, exige uma compreensão sobre a forma como as sociedades se organizam ao nível económico, político, social, cultural, sendo que aqui, a análise dos discursos e as representações sociais (mitos e crenças) sobre as mulheres assumem expressão determinante.

 

Por exemplo, quando o Ministro da Economia diz que: “Se as mulheres tiverem a mesma produtividade que os homens até podem ganhar o mesmo salário” está a exercer a sua violência patriarcal sobre as mulheres, mediante a humilhação e usando uma falácia. A de que as mulheres produzem menos.

Hoje em dia as mulheres estão no mercado de trabalho quase na mesma proporção do que os homens, mas recebem menos, muitas vezes pelo mesmo trabalho e com a mesma produção. Outras vezes são relegadas a trabalhos menos qualificados e pior pagos. Exercem largas horas de trabalho doméstico, que não só não é pago como é desvalorizado. Este trabalho doméstico é produção e, ao mesmo tempo, é essencial para a produção.

Se se tiver em conta o trabalho profissional remunerado e o trabalho doméstico das mulheres, ver-se-á que elas produzem mais em relação aos homens.

 

As relações de dominação acompanham-se com frequência dum discurso que mascara as desigualdades sociais de factores naturais, assumindo as desigualdades como algo inevitável.

 

Sem denúncia e desconstrução este tipo de discursos, como o de Álvaro Santos Pereira, e outros, podem ser facilmente interiorizados.

 

A violência contra as mulheres é um filme de terror que não acabou. Ela existe e é preciso que se denuncie. Por isso, vamos Marchar no dia 25 de Novembro às 17h no Largo de Camões, em Lisboa.

Estamos atentas e vigilantes!

Resto dossier

Violência contra as Mulheres

A violência contra as mulheres é uma forma de discriminação e uma violação de direitos humanos, sendo que a sua persistência constitui um pesado retrocesso civilizacional. No dia 25 de novembro, sairemos à rua para exigir a vontade política e os recursos necessários para assegurar uma estratégia eficaz de prevenção e combate à violência contra as mulheres. Dossier organizado por Mariana Carneiro.

UMAR apresenta dados sobre mulheres assassinadas em 2011

A UMAR apresentou esta quinta-feira, Dia Internacional pela Eliminação da Violência Doméstica, os dados relativos ao Observatório de Mulheres Assassinadas e referentes ao ano de 2011. Até dia 11 de novembro do presente ano, registaram-se 23 homicídios, 39 tentativas de homicídio e 62 vítimas associadas. Ver relatório.

Violência contra as mulheres: um fenómeno multidimensional

A violência contra as mulheres é uma forma de discriminação e uma violação de direitos humanos, sendo que a sua persistência constitui um pesado retrocesso civilizacional. Tendo em conta que as suas manifestações são variadas e complexas, a resposta a este fenómeno terá que ser global, estratégica e exige o envolvimento de toda a sociedade.

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Violência Contra as Mulheres é "persistente, generalizada e inaceitável"

Durante a apresentação, em outubro deste ano, do relatório anual do Conselho de Direitos Humanos da ONU sobre violência contra mulheres, Rashida Manjoo, Relatora Especial deste Conselho, classificou este tipo de violência como "persistente, generalizada e inaceitável" em todo o mundo.

O fenómeno da violência doméstica em Portugal

A violência doméstica é, muito possivelmente, a forma mais generalizada de violência contra as mulheres. No nosso país, este tipo de violência continua a vitimizar dezenas de milhares de mulheres, chegando a causar a morte de algumas das vitimas.

Não somos cúmplices nem indiferentes!

É este um dos lemas que nos deve nortear no que diz respeito à violência contra as mulheres. Não existe um decréscimo no número de vítimas de violência contra as mulheres, apesar de parecer que já está tudo feito, que a igualdade existe e que já é considerado crime público. Tem aumentado o número de denúncias, mas nem por isso têm aumentado as medidas de prevenção ou a avaliação do risco.  Artigo de Albertina Pena.

Não pararemos de lutar até que todas sejamos livres!

Como salienta Christine Ockrent, as mulheres são sempre as primeiras vítimas de humilhação, precariedade, maus-tratos conjugais, criminalidade, pobreza, fome, desemprego, violência, violação, morte. Artigo de Nádia Cantanhede.

A Branca de Neve e a Bruxa Má

O combate à violência sobre as mulheres é uma causa mundial que, felizmente, ano após ano tem maior visibilidade e congrega cada vez mais sectores da sociedade. Artigo de Helena Pinto.

Manifesto da Marcha pelo Fim da Violência contra as Mulheres

No dia 25 de novembro, celebra-se o "Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres". Em Portugal, esta data será assinalada com a Marcha pelo Fim da Violência Contra as Mulheres, cujo início está marcado para as 17h no Largo de Camões, em Lisboa. Leia aqui o manifesto da marcha.

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