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Uma estratégia para a história

Os partidos de esquerda honraram o seu compromisso, cumpriram com o programa que submeteram a sufrágio e que foi ratificado pelos seus eleitores. Não pode valer tudo na política. Por Luís Lisboa.
António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa - Foto de Manuel de Almeida / Lusa

Para nos situarmos, convém recordar que nas eleições legislativas de 2015, o PS, não sendo o partido mais votado, estabeleceu um compromisso com o Bloco de Esquerda e o PCP, para desalojarem a direita conservadora e a reacionária do poder, e, assim, podermos reconquistar alguns dos direitos perdidos com a Troika e o Governo PSD/CDS de Passos Coelho. Notem que, este acordo foi feito por escrito, sob exigência do então Presidente da República, Cavaco Silva.

Seguidamente, nas legislativas de 2019, assistimos ao fim da apelidada Geringonça. Porquê? Porque o PS, agora o partido mais votado, avançou sem os seus parceiros e decidiu unilateralmente formar um governo minoritário. Portanto, sem compromisso escrito e sem acordo à esquerda, mas devidamente empossado pelo atual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Concedo que o sufrágio lhe conferiu essa legitimidade, mas essa escolha, foi única e simplesmente da responsabilidade do PS e de António Costa.

Assim, nesta segunda legislatura, o PS precisou apenas que o PCP fosse o seu aliado e ajudasse a aprovar os primeiros dois orçamentos anuais, o de 2020 e o de 2021. Contudo, agora o Partido Comunista percebeu que não podia continuar a legitimar as políticas de direita e o seus compromissos neoliberais e tinha de respeitar o seu programa e o seu eleitorado, assunção que o Bloco já tinha feito.

Aliás, se dúvidas houvesse de que Costa tinha esquecido a Geringonça, o apoio ao descendente do regime para as presidenciais de 2021, mostrou que as suas intenções eram claras, continuar a delapidar e a fragilizar a esquerda. Por conseguinte, anunciando e apoiando implicitamente o conservador Marcelo Rebelo de Sousa, Costa deixou a direita tradicional órfã de candidato. Assim, abriu caminho e estendeu a passadeira vermelha à extrema direita, que, com a vida facilitada, terminou num retumbante terceiro lugar, quase à frente de Ana Gomes, que sendo filiada no PS não teve o apoio do seu próprio partido, o mesmo de António Costa.

Eis então que, embalado pela vitória nas eleições presidenciais, sim, foram também uma vitória pessoal de António Costa e da sua estratégia. E embalado também pela vitória nas autárquicas, mas sobretudo pelo mau resultado da esquerda, que ficou muito fragilizada politicamente, o experiente estratega António Costa, cria uma oportuna crise política. Como? De forma muito simples, à bully. Apresenta o seu orçamento, é intransigente na sua negociação e com a faca e o queijo na mão, depois de nada ter feito para negociar, ameaçou. Assim, encostou a esquerda à parede para a seguir vitimizar-se, para depois, de peito feito, provocar eleições antecipadas. Assim, vai conseguir transformar o medo e a incerteza que semeou, em votos que vai capitalizar de toda a conjuntura política.

Ora vejamos, o CDS está em processo de oclusão em curso. O PSD, como refere Costa, "não é alternativa" e está neste momento em aguerrida disputa interna, portanto, o PS irá capitalizar o voto dos indecisos do "centrão". Este é também o momento ideal para destruir a Esquerda Parlamentar, Bloco de Esquerda e PCP, assimilando e reforçando assim a bancada do PS, para uma posição mais confortável. Por consequência, António Costa e o seu partido serão os principais beneficiados das iminentes eleições antecipadas pela crise política que eles próprios criaram.

Mas há outros beneficiários desta crise, como sabemos a extrema direita tem vindo a crescer. Mas, digam-me, se o orçamento fosse aprovado a extrema direita deixava de existir? Não. A extrema direita sempre existiu, apenas cresceu porque se tornou populista e aproveitou a crise sanitária e social para espalhar a mentira e as teorias da conspiração. Não esqueçamos que o PPD/PSD foi a sua barriga de aluguer e que o CDS/PP lhe encheu as fileiras. Porém, precisamos de entender que há aqui uma larga franja de eleitorado que são simplesmente pessoas a quem o sistema capitalista falhou e que estão a ser facilmente manipuladas pelo discurso populista.

Em síntese, esta proposta de orçamento não responde às prioridades certas nem às necessidades do país nem dos portugueses. Esta proposta de orçamento não tem verdadeira orientação estratégica, a não ser a perpetuação das desigualdades e a perpetuação dos problemas. E por favor entendamos que o chumbo deste orçamento não é o fim do mundo. É o fim de um ciclo. Também não se percebe todo este alarido sobre a possibilidade da direita chegar ao poder e voltar castigar ainda mais o povo. Até porque, o PS é a direita. O PS é um partido que assume o capitalismo como o seu sistema e promove e impõe políticas neoliberais.

Não esqueçamos que durante estes seis anos em que foi governo, o PS a maior parte das vezes votou ao lado dos seus amigos do PSD. Agora que os seus amigos de privilégio pretendem o seu lugar, correm atrás da esquerda a impor o seu orçamento, sob intransigência, sob ameaça.

Este não era o orçamento do Bloco de Esquerda ou do PCP, era o orçamento imposto pelo PS, elaborado pelo PS, que renunciou aos acordos com a esquerda. Ou seja, depois de ter andado a prometer os milhões do PRR pelas autárquicas, parece que o Primeiro Ministro ficou sem tostões para o orçamento de estado, para o SNS, para a Segurança Social e sem vontade para reverter o ataque troikiano aos direitos dos trabalhadores. Na verdade, António Costa esteve sempre, e está em campanha, a pedir desculpa aos patrões, enquanto tenta convencer os pobres que a culpa é de quem luta pela totalidade dos seus direitos e não por mais umas migalhas na sua ração.

Os partidos de esquerda honraram o seu compromisso, cumpriram com o programa que submeteram a sufrágio e que foi ratificado pelos seus eleitores. Não pode valer tudo na política, sem lealdade não podemos construir as pontes necessárias para superar este sistema injusto e discriminatório que teima em colocar o povo contra o povo.

Artigo de Luís Lisboa

Sobre o/a autor(a)

Professor, artista e ativista.
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