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Queenjacking

Quando, há mais de 10 anos, Manuela Ferreira Leite sugeria que se deveria suspender a democracia para fazer todas as reformas necessárias, estava longe de pensar que 23 dias apenas pudessem fazer tanta diferença.

"Não sei se, a certa altura, não é bom haver seis meses sem democracia, mete-se tudo na ordem e depois, então, venha a democracia", questionava a então líder do PSD, defendendo a necessidade de reformar a Justiça no contexto político da tomada de posse do Governo de José Sócrates. Vilipendiada por todos os quadrantes políticos e atacada dentro do próprio partido, a ex-ministra das Finanças poderia ser agora o farol de cristal que Boris Johnson precisa erguer para antever o futuro no pós-31 de Outubro. Desejo de clarificação que arde em câmara comum por todos os britânicos. O Reino Unido pergunta-se, por estes dias, como é possível que um dos maiores ataques à democracia representativa possa decorrer à luz do respeito pelas regras e preceitos constitucionais.

O Reino Unido viveu a olhar para Londres como uma capital de Império. Mimou-a, deu-lhe tudo, fê-la crescer em sobranceria e, entretanto, Londres deixou que o Reino apodrecesse. Empobrecesse. A xenofobia cresceu e, nos dias deles que são também os nossos, atinge proporções inquietantes. A saída da União Europeia com ou sem acordo, a dois meses de distância, adensa o nevoeiro que não produz sebastiões ou salvadores. Pelo contrário, sente-se a desagregação como inevitável à medida que Londres continua a olhar para o seu umbigo, sem compromisso, sem ideia de união. Se o Reino é já uma miragem, o que dizer da democracia? Suspenda-se, defende o primeiro-ministro britânico Boris Johnson.

Alcandorado a "Trump's best friend", dono e senhor do cadeado democrático da Câmara dos Comuns, Boris encarrega-se, ainda assim, de estampar o ridículo da monarquia, do seu sistema político e a natural irrelevância da Rainha Isabel II. Sem uma Constituição escrita, o Reino Unido sobrevive enrolada em novelos, precedentes e convenções que nem a habitual prosápia parlamentar consegue desenrolar. A jactância "british" perdeu a superioridade, ainda tem manias mas já nem conserva a fleuma. A rainha faz de faz de conta, de mãos atadas, unidas a um primeiro-ministro não eleito.

Ao responder positivamente ao pedido do primeiro-ministro para prorrogar o Parlamento, a Rainha cumpre uma formalidade e faz o que pode fazer: nada. A aceitação da suspensão dos trabalhos por 23 dias, recorde de inactividade da Câmara dos Comuns, não é só um atentado ao debate democrático e ao tempo útil para a Oposição impedir que o Reino Unido saia da União Europeia sem acordo. É a prova de que um dos maiores perigos para a civilização advém dos populismos e da senilidade dos seus intérpretes-fantoche. É também a confirmação de que a Coroa foi já tomada, roubada e não foi substituída por cara alguma no reverso da moeda.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” a 30 de agosto de 2019

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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