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Katie e Margaret

Katie Bouman e Margaret Hamilton “pousam” lado a lado na montagem fotográfica que o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) publicou.

Entre cada uma das fotografias há 50 anos de distância, uma insignificância quando comparada à distância que está o buraco negro que conhecemos esta semana.

Margaret Hamilton tinha pouco mais de 30 anos e foi a pessoa fundamental na criação do código de programação que permitiu à missão Apollo 11 levar Neil Armstrong e Buzz Aldrien até solo lunar. Katie Bouman tem 29 anos e foi a responsável pelo algoritmo que permitiu “juntar as peças” da primeira fotografia de um buraco negro. Agora já não sabemos apenas que existem, passaram a ter uma imagem real. Os dados recolhidos e trabalhados com este algoritmo resultam do trabalho de muita gente e das imagens captadas por oito telescópios, mas ainda assim mais fácil do que conseguir o tal telescópio com 10 mil quilómetros de diâmetro, quase o diâmetro da Terra, que seria o único capaz de substituir o trabalho do algoritmo de Katie Bouman.

De um lado, 2019 e a pilha de discos rígidos com tanta informação armazenada como a que seria necessária para ouvirmos música durante oito mil anos. Do outro lado, 1969 e a pilha de relatórios em papel, do tamanho da própria Margaret Hamilton. Cada uma das fotografias tem a sua própria impressão digital. Os elementos que as compõem marcam bem o tempo e é perceptível que meio século, mais coisa menos coisa, terá passado entre cada uma delas.

A intenção do MIT parece-me clara: comparar Bouman a Hamilton dá-nos uma dimensão da importância da fotografia revelada, e essa dimensão é - nada mais, nada menos - o pequeno/grande passo em solo lunar que transformou a Humanidade. Não é para menos, há mesmo um antes e um depois da fotografia do buraco negro. Há mesmo a confirmação da teoria da relatividade de Einstein. Os nossos alicerces sobre as massas capazes de tudo absorver, até a própria luz, não ruíram, consolidaram-se antes. O que apaga os 50 anos que separam as fotografias é mesmo o facto de Bouman ser mulher, tal como Hamilton, e esse ser um facto importante da notícia, tal como em 1969. Estes 50 anos não foram suficientes para naturalizar o papel das mulheres na ciência porque ele ainda não é igual. É por isso que, em 2019, ainda é um caso. O caso “da mulher” que, entre os duzentos investigadores envolvidos, teve um papel determinante. E a verdade, como bem o sabemos, é que a fotografia revelada é mesmo um trabalho de outra galáxia e que o algoritmo seria sempre parte da notícia. Ter sido feito por uma mulher pode ser que seja, neste caso, um pequeno/grande passo para a igualdade.

Artigo publicado no jornal “Diário de Notícias” a 13 de abril de 2019

Sobre o/a autor(a)

Eurodeputada, dirigente do Bloco de Esquerda, socióloga.
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