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A política velha e as duas respostas para ela

O consenso do grande centro está a ruir. A ruína do grande centro abre espaço para uma luta política nova.

O consenso do grande centro está a ruir. Esse consenso assentou, durante décadas, no mundo rico, num compromisso entre salvaguarda dos interesses do capital e rendimentos crescentes para o trabalho. Esse consenso teve um nome: Estado de Bem-Estar.

A ascensão do neoliberalismo nos anos oitenta anunciou o estertor deste compromisso. O desmantelamento do Estado Social – tornado politicamente desnecessário com o fim da Guerra Fria – mostrou como o liberalismo deixou de precisar da democracia e a assumiu como um estorvo. A austeridade passou a ser a política única do que antes foi o espaço do grande centro.

A ruína do grande centro abre espaço para uma luta política nova. Ela faz-se de respostas ao imenso vazio deixado por essa ruína. E, sendo todas críticas ao grande centro, são críticas de conteúdo e alcance político muito diferente. Reúno essas respostas em dois campos, correndo o risco de sobre-simplificar o mapa em causa.

De um lado está uma resposta de direita. Ela tem como traços essenciais o autoritarismo político e a nostalgia primária de um passado mitificado como forma de responder à procura de segurança por setores sociais flagelados pelas consequências da globalização. Ela usa dois truques: mascara de democracia o seu autoritarismo profundo e mascara de anti-sistema político a sua defesa do sistema económico. A extrema direita é a intérprete desta primeira resposta. A vitória de Trump mostra a sua grande força de atração popular.

Nos seus antípodas está uma resposta de esquerda. O seu traço essencial é o alargamento do espaço democrático, trazendo-o para o campo social, económico e cultural e não o confinando ao campo político formal, e injetando participação no monopólio de representação deste último. É essa renovada centralidade da democracia que faz com que esta resposta dê prioridade à crítica dos mecanismos profundos de poder e não dos fenómenos de superfície.

Os guardiões do grande centro não se dão conta da sua ruína. Nesse desengano, entrincheiram-se e fingem para si mesmos que as duas respostas são iguais. E brincam, contentinhos: “os extremos tocam-se”. É o truque que usam para fingir que a ruína do seu espaço não se deve, em grande medida, à cedência prática das suas políticas às bandeiras da direita autoritária e xenófoba. Na verdade, foram essas políticas que anteciparam a vitória de Trump.

Artigo publicado no diário “As Beiras”, a 12 de novembro de 2016

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
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