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A utilidade do voto

A aceitação da ideia de que há votos que têm menos valor que outros conduz necessariamente à desvalorização das eleições como oportunidade de mudança e de dar visibilidade a novas propostas.

A chamada às urnas para a escolha dos deputados da Nação é, para muitos, um dos poucos momentos de participação cívica como cidadãos. Esquecem que existem muitas outras formas de praticar a cidadania e a democracia nos seus locais de trabalho, nos seus bairros, na sociedade.

Os eleitores são, nas campanhas eleitorais, pressionados para refletirem sobre o chamado voto útil, como se a democracia e a liberdade de escolha fossem uma ameaça para a sociedade.

A questão que se deve colocar não é a do voto útil mas sim a da utilidade do voto. De facto a aceitação da ideia de que há votos que têm menos valor que outros conduz necessariamente à desvalorização das eleições como oportunidade de mudança e de dar visibilidade a novas propostas. Poderá ser uma das razões para o crescimento contínuo da abstenção e a sensação de muitos votantes que não valerá a pena participar no ato eleitoral, desinteressando-se da própria política.

A ausência de autonomia dos países na condução das suas políticas tem sido um dos fatores que tem minado a democracia e desvalorizado o voto dos cidadãos. Veja-se o caso da Grécia em que o voto no Syriza pouco valor tem face às imposições da Europa quanto às orientações políticas a seguir pelo Governo da Grécia.

O voto tornou-se muito pouco útil para provocar verdadeiras mudanças e muito útil para “autorizar” as promessas constantemente desrespeitadas.

Pode perguntar-se o que conseguiu Portugal nos últimos anos com os votos úteis no PS e no PSD? Uma vez que dentro das diferenças existe alguma continuidade nas políticas destes dois partidos do poder, o voto útil apenas serviu para recusar e impedir mudanças de fundo no sistema e manter um capitalismo que agrava as desigualdades sociais e assenta na corrupção e especulação financeira.

A utilidade do voto é medida pela forma como os partidos do poder passam a respeitar os eleitores e deixam de fazer promessas que não cumprem. A utilidade do voto é medida pela vitalidade da democracia e pela redução da abstenção.

Sobre o/a autor(a)

Professor do Instituto Politécnico de Portalegre e da Escola Superior de Gestão e Tecnologia. Cabeça de lista do Bloco de Esquerda nas eleições legislativas de 2015, pelo círculo de Portalegre, como candidato Independente
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