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Infinito e mais além

Falam-me de “liberdade de escolha” no ensino, mas a liberdade passa por a escola poder proporcionar a todos o mesmo acesso à educação, com a mesma qualidade; é todos poderem ir mais além, independentemente de serem do campo ou da cidade, do litoral ou do interior, do norte ou do sul.

Conheci a Ana este verão. 12 anos alegres, iguais aos da minha filha. Conheci-a na aldeia onde passámos férias − era uma das três crianças que lá vivia. Estou a falar-vos de uma aldeia algarvia a menos de 30 km da costa, onde já resta pouca gente, resistindo apenas quem nunca saiu de lá, na maior parte, idosos. 

O pai da Ana levou-a uma vez à praia, há cerca de dois anos. Mas como o trabalho do campo é duro, e sustentar dois filhos sozinho um desafio, tem outro trabalho, que não lhe deixa tempo nem meios para fazer o que muitos de nós tomam por garantido.

A Ana passou as férias connosco. Fomos (muito) à praia, a uma cascata (coisa que ela também nunca tinha visto), a uma exposição, e passeámos e conversámos muito. 

Gostas de pizza? Não sei, nunca provei. Adorou! Gostas de cinema? Gosto muito, já fui uma vez com a minha escola. Gostas da escola? Adoro. Na escola ando de patins e tenho os meus amigos. Tenho lá computador e vejo o meu email. Todos os anos conhecemos um sítio novo. Sabes que já fui a Faro com a minha escola? Este ano não sei.

Sou da cidade. Nasci em Lisboa, sempre aqui vivi, foi aqui que os meus filhos nasceram e estão a crescer. E é fácil perceber porque é que a vida da Ana me tocou tanto: é da idade da minha filha, vive ao lado da praia… mas só lá tinha ido uma vez. Ficaram amigas, partilharam histórias, músicas, mergulhos, mas as suas realidades não podiam ser mais distintas.

É imenso o impacto que a escola tem na vida das crianças: dá-lhes acesso ao conhecimento, à partilha de ideias, à experiência, ao mundo que as rodeia. Falam-me de “liberdade de escolha” no ensino, mas a liberdade passa por a escola poder proporcionar a todos o mesmo acesso à educação, com a mesma qualidade; é todos poderem ir mais além, independentemente de serem do campo ou da cidade, do litoral ou do interior, do norte ou do sul. É, no fundo, ter acesso a um ensino de qualidade e poder escolher prosseguir os estudos. Aliás, se “liberdade de escolha” significasse “possibilidade de inscrever o filho em qualquer escola”, já existia: quem quer, coloca os filhos num colégio, ninguém os obriga a ir para a escola pública.

Na verdade, não é só quem quer, é quem pode pagar todos os encargos inerentes e, no caso das escolas de elite, quem cumpre os critérios de seleção, que privilegiarão sempre os alunos oriundos de classes sociais onde os níveis prévios de escolaridade e o rendimento proporcionam às crianças melhores condições para o desempenho escolar. Se o cheque-ensino garantisse que as escolas privadas abdicariam de ser as escolas da elite… isso seria o fim do próprio conceito de escola de elite, certo?

Não se pode retirar meios à escola de todos para os dar à escola de alguns. Os impostos de todos devem financiar a escola de todos, para que todos tenham as mesmas oportunidades. O financiamento às escolas privadas só se justifica quando não há oferta pública na zona. Mas o Estado já financia essas escolas; e já paga parte das mensalidades aos pais que optam que os filhos vão para o privado, através dos contratos simples!

O que o Ministro está a fazer é promover ainda mais desigualdade, plasmando-a no sistema de ensino. Para isso, retira-se-lhe qualidade reconhecida, fazendo-o retroceder décadas. Que não restem dúvidas: isto não é promover a “liberdade de escolha”, é uma opção política que a limita ainda mais à maior parte da população − a tal que até tem o mar quase à porta de casa, mas só o viu uma vez.

Ana, e quando fores para o 10.º ano? Quando for para o secundário, vou para a cidade(os olhosbrilham). E o que gostavas de ser quando cresceres? Responde sem hesitação: Professora.

Quero que a Ana seja professora dos meus netos − numa escola que não deixa ninguém para trás, e em que todos partilham histórias, músicas, mergulhos, saberes e realidades distintas. É assim que se escolhe a liberdade - tanto a da Ana como a dos meus filhos.

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