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Desigualdade: a mãe de todas as revoltas

Ao longo da História do capitalismo são inúmeros os exemplos da conflitualidade social que as desigualdades criadas pela apropriação capitalista criaram.

De acordo com Hunt e Sherman no seu livro História do Pensamento Económico (Editora Vozes, 2010), antes do capitalismo se ter tornado o sistema dominante "existia no século XIII uma indústria têxtil capitalista em Flandres. Quando, por diferentes razões (...) a sua prosperidade entrou em declínio, o antagonismo que se gerou entre a riqueza e a pobreza por ela criadas deu origem, em cerca de 1280, a prolongadas e violentas lutas de classe que destruíram quase por completo a indústria na região. No século XIV floresceu uma indústria têxtil capitalista em Florença. Como em Flandres, as condições económicas adversas despertaram tensões entre a classe operária, reduzida à mais negra miséria, e os opulentos empregadores capitalistas, culminando em violentas rebeliões, em 1379 e 1382. O agravamento desses antagonismos de classe precipitou o declínio da indústria têxtil florentina, tal como acontecera anteriormente em Flandres."

Em ambos os exemplos foram as desigualdades na distribuição do rendimento causadas pela acumulação capitalista - se bem que ainda numa fase embrionária - que motivaram rebeliões populares.

Ao longo da História do capitalismo são inúmeros os exemplos da conflitualidade social que as desigualdades criadas pela apropriação capitalista criaram. Aliás, muitos foram os cientistas que procuraram em parâmetros como o índice de Gini (um das mais famosas medidas de desigualdade) uma resposta para as recentes Revoluções Árabes.

Mas o que é pouco conhecido é que Portugal tem um índice de Gini acima do do Egito e um dos maiores da Europa, ou seja, Portugal é um país desigual, tanto em termos absolutos como relativamente a outros países. Aliás, de acordo com um livro do Professor Carlos Farinha Rodrigues que foi apresentado esta segunda-feira, as desigualdades em Portugal são altas por causa dos altos rendimentos dos mais ricos, mas diminuíram até 2009 devido às políticas sociais do Estado como o Rendimento Social de Inserção.

No entanto, e de acordo com o mesmo estudo, o ciclo de mitigação das desigualdades terá terminado em 2009. Assim, pode esperar-se um aumento dos índices de desigualdade desde o início da crise, mais acentuado e acelerado do que o que foram os anos de mitigação dessa desigualdade. Deste modo, em poucos anos de austeridade vamos deitar fora dezenas de anos de políticas de redução da pobreza que influíram, de modo positivo, sobre a desigualdade em Portugal.

Assim, pode antever-se que o aumento das desigualdades irá provocar um aumento da conflitualidade social tanto no campo político, como nos locais de trabalho, ou em qualquer espaço público. O sentimento de injustiça de uns ganharem tão pouco e terem de sacrificar tanto e de outros terem tanto e terem de sacrificar tão pouco é a pólvora que acende o conflito social.

A desigualdade é, de facto, a mãe da perceção de injustiça e da revolta.

Sobre o/a autor(a)

Engenheiro e mestre em políticas públicas. Dirigente do Bloco.
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