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Uma greve e quatro equívocos

A greve dos/das trabalhadores/as da Autoeuropa que ocorreu ontem teve uma forte adesão e suscitou um acalorado debate no espaço público. Um debate importante mas repleto de equívocos que importa confrontar.

O primeiro destes equívocos é o de que esta greve apenas serve propósitos pouco transparentes de disputa de relações de força sindicais. É evidente que em todos os processos de conflito laboral há dinâmicas de disputa interna. Mas elas não explicam senão uma parte do conflito existente. A redução do conflito a essa disputa revela um paternalismo intolerável, que assume que milhares de trabalhadores são manipuláveis ao ponto de iniciarem um confronto com o patronato sem razões para tal. A obrigatoriedade de trabalhar ao sábado, mediante uma compensação financeira limitada (e muito inferior ao pagamento das horas extraordinárias correspondentes) não é uma alteração de pormenor à vida das pessoas. Uma das dimensões fundamentais das lutas laborais foi sempre a luta pela conquista do tempo de vida que não é dedicado ao trabalho. O comunicado que serviu para a convocação da greve por parte dos trabalhadores expressa claramente que há mais do que uma discussão meramente monetária em causa. É um disputa de princípio sobre o lugar do trabalho na vida das pessoas: “o dinheiro não apaga o desgaste físico e a saúde que se perde, o tempo de ausência com a família, o direito ao descanso e ao lazer, ao desporto e à cultura, o direito a uma vida pessoal e familiar, com a qualidade a que temos direito, onde se inclui o fim-de-semana”1. A greve não é, portanto, nem uma mera manipulação interesseira dos trabalhadores, nem é apenas uma questão monetária (que, por si só, já seria total legítima): é uma disputa pelo direito à vida fora do trabalho.

O segundo equívoco baseia-se na ideia, peregrina, de que as greves são algo anormal, patológico e que nos deve preocupar. Nada mais errado. Na verdade, as greves são acontecimentos generosos, difíceis e que fazem parte da história e da vida das sociedades. A elas devemos a maioria dos direitos laborais que ainda temos. Se as greves perturbam a ordem? Claro que sim. Perturbando a ordem, elas perturbam o poder instituído para conquistar mais direitos. Não se faz greve porque se tem direitos; alcançamos direitos porque resistimos e fazemos greves. A greve pode afetar, no momento em que é feita (sobretudo quando falamos em serviços públicos), muitas outras pessoas para lá do patronato. Mas elas são feitas para que a maioria das pessoas possa ser positivamente afetadas pelos avanços alcançados. No caso da Autoeuropa, uma greve que garanta a contratação de mais funcionários para reduzir a carga de trabalho permitirá uma redução do desemprego, o aumento das receitas da Segurança Social e a pressão adicional para todas as outras empresas darem melhores condições aos seus trabalhadores. Bom para toda a gente, portanto, menos para o patronato.

O terceiro equívoco no debate sobre esta greve assenta no argumento de que ela é imprudente e mal pensada devido à chantagem da deslocalização que está fortemente presente. A este respeito, nada de novo. A chantagem sempre foi a regra e o instrumento privilegiado pelos dominantes para manterem as relações de poder. Quantas e quantos de nós não ouvimos já falar de fuga de capitais, deslocalização, perda de investimento e quebra confiança dos privados, sempre que lutamos por melhores direitos laborais, mais justiça fiscal ou maior taxação do capital? A história do movimento operário e sindical mostra-nos que só com coragem para enfrentar a chantagem se podem evitar males cada vez maiores. Cedendo à primeira chantagem, abre-se o flanco para se ceder à segunda. Sem resistência à chantagem tudo piora sucessivamente. A chantagem deve precisamente ser usada não para atar as mãos de quem por ela é ameaçado, mas para expor a hipocrisia de quem precisa dela para a sobrevivência do seu modo de vida alicerçado na exploração do trabalho.

O último equívoco é a ideia de que há “patrões bons” e “patrões maus”, substituindo o debate político por um debate moral. Segundo esta lógica, o poder definir-se-ia pela interação entre os traços de personalidade e os hábitos culturais. Atribuir “bondade” e “maldade” à forma como uma pessoa individualmente se comporta perante a sua posição social é fugir ao essencial da forma como o capitalismo estrutura a vida social, através da divisão da sociedade por classes. Não há patrões “bons” e “maus”. É a luta de classes e de poder que determina avanços e retrocessos nos direitos laborais, sociais e políticos. A evolução das conquistas e dos recuos da luta de classes explicam o essencial das relações de forças que se estabelecem no mundo laboral: em momentos em que as forças sociais e políticas à esquerda têm uma maior influência, as cedências do patronato são necessariamente maiores, e vice-versa em momentos de refluxo das lutas. Não significa que não haja empresas com práticas mais ou menos predatórias do que outras, que há. Significa sim que glorificar as empresas menos predatórias é uma estrada curta, na qual se abdica da disputa social por mais direitos e para todos, e que mais tarde ou mais cedo vai dar à autoestrada do retrocesso social. Deixar a raposa a guardar o galinheiro dá mau resultado.

Uma esquerda de combate não se pode deixar iludir por estes equívocos. É preciso apoiar e incentivar as e os trabalhadores que, na Autoeuropa, lutando pelos seus direitos legítimos, lutam também pelos nossos. Todos ganhamos com uma dinâmica de conquistas sociais. Em tempos difíceis é destes exemplos de que precisamos.

João Mineiro é sociólogo, investigador e ativista contra a precariedade na investigação. Samuel Cardoso é economista e dirigente do Bloco de Esquerda


1 Retirado da resolução do plenário, de 28 de agosto de 2017, de trabalhadores da Autoeuropa.

Sobre o/a autor(a)

João Mineiro é sociólogo, investigador e ativista contra a precariedade na investigação. Samuel Cardoso é economista e dirigente do Bloco de Esquerda
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