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Radicalismo político e ativismo estudantil nos últimos anos do fascismo (1969-1974)

Momentos particularmente importantes da luta estudantil contra o regime ocorreram em Maio de 1972, e depois em Outubro do mesmo ano, aquando do funeral do aluno da Faculdade de Direito de Lisboa, José António Ribeiro dos Santos, com os estudantes a desafiarem abertamente a repressão. Artigo de José Manuel Lopes Cordeiro, professor da Universidade do Minho
Página da Revista "Vírus" nº 12, 1ª série

O isolamento e o atraso a que a ditadura fascista submeteu Portugal durante décadas começou a dissipar-se, ainda que de uma forma tímida e lenta, ao longo dos anos 60. Foram inúmeros os fatores que contribuíram para essas transformações, que se acentuaram e generalizaram à medida que o tempo ia passando.

A entrada de Portugal na EFTA em Dezembro de 1959, no GATT em 1961, assim como o Acordo Comercial celebrado em 1972 com a então CEE, permitiram uma progressiva abertura e modificação na estrutura económica do país. Registou-se um considerável desenvolvimento económico (incremento da industrialização, emergência do sector terciário), ao mesmo tempo que se verificava uma progressiva diminuição do peso da ruralidade, fruto do fenómeno da emigração económica para o estrangeiro e do início da deslocação da mão-de-obra rural para as periferias de Lisboa e Porto (e de uma maneira geral para o litoral), onde a oferta de emprego na indústria começava a exercer uma maior atração.

A emigração massiva para os países europeus a partir do início da década de 1960, nomeadamente para a França e a Alemanha contribui, de facto, para uma progressiva modificação do país. Para além de ter contribuído para a melhoria das condições de vida de largos estratos da população, o contacto com uma realidade política, social e cultural completamente diferente por parte destes emigrantes – cujos reflexos em Portugal não deixaram de se fazer sentir –, contribuiu para a abertura de novos horizontes e perspetivas que se foram progressivamente instalando na sociedade portuguesa.

Por último, a guerra colonial, cujo prolongamento provocava uma generalizada insatisfação, desgastando o regime – política, económica e militarmente – o qual não encontrava nenhuma solução para a mesma, senão o seu prolongamento indefinido. A guerra era particularmente impopular junto da juventude estudantil universitária, que a vinha rejeitando de uma forma crescente, principalmente desde o início da década de 1970. O incremento das deserções, agravando as dificuldades do regime em dispor de quadros militares para prosseguir a guerra, constituiu um fator não negligenciável para a futura eclosão do golpe militar que porá cobro ao regime fascista.

A substituição de Salazar por Marcelo Caetano em Setembro de 1968, e o surgimento da denominada “primavera marcelista” anunciando uma liberalização política do regime, criou de início uma considerável expectativa – rapidamente defraudada – cujo ponto alto se traduziu na mobilização para a participação nas eleições para a Assembleia Nacional de Outubro de 1969, as quais representaram também o terminus dessa tímida e fugaz “abertura” política. Contudo, será durante esse breve período que, aproveitando a prometida “liberalização”, se registarão algumas iniciativas políticas que, embora tenham padecido de inúmeras dificuldades resultantes da repressão, prosseguirão até ao final do regime: a criação do Movimento da Juventude Democrática (Novembro de 1969), a constituição da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos (Novembro de 1969), o nascimento do movimento das Cooperativas Culturais (já no rescaldo das eleições), assim como a criação da Intersindical, a qual, não obstante só ter sido formalizada em 1 de Outubro de 1970 teve a sua génese durante as movimentações da campanha eleitoral.

Será também a partir das eleições de 1969 – e até ao final do regime – que se registará um crescente aumento das lutas operárias e populares, em boa medida espontâneas, nas quais se enquadrará um movimento estudantil cada vez mais politizado e radicalizado, cujo primeiro anúncio ocorreu com a crise académica de 1969 na Universidade de Coimbra. O pano de fundo em que se inscreviam estas movimentações estudantis era no entanto a permanência da guerra colonial, a qual, precisamente, registou uma progressiva agudização a partir de então, principalmente na Guiné e, depois, em Moçambique.

No final da década de 1960, e prolongando-se até ao 25 de Abril, registou-se também algo de novo no panorama editorial e, em menor escala, na imprensa. No primeiro caso, com o surgimento de livros e de autores marxistas, traduzidos em português, e no segundo, com a reformulação de alguns jornais e revistas que alteraram o seu conteúdo. Publicados por pequenas, e por vezes efémeras, editoras – quase todas sobrevivendo nos limites da marginalidade e com grande parte do seu acervo editorial “fora do mercado” –, estes livros de natureza marxista tiveram larga circulação nos meios da oposição, particularmente no sector estudantil universitário, possibilitando um conhecimento das obras desses autores até então praticamente impossível de encontrar no país. Este aspecto, até agora praticamente esquecido nas análises sobre o “marcelismo”1, teve na nossa opinião uma enorme importância na formação política da geração de jovens que agora despertava para a luta contra o regime, proporcionando-lhes não só um conhecimento dos clássicos do marxismo, como das polémicas que tinham existido no movimento comunista internacional, aquando do conflito sino-soviético, ainda que, no respeitante a estas, com um considerável atraso.

Importa salientar também o surgimento de uma imprensa de (subtil) oposição ao regime, marcada inicialmente pelo Comércio do Funchal – uma iniciativa de jovens, entre os 17 e os 22 anos, que souberam aproveitar uma inesperada oportunidade de relançar, em novos moldes, um título que estava quase a extinguir-se –, cujo exemplo e sucesso motivou, já próximo do 25 de Abril, idêntica transformação no Jornal do Centro. A particularidade do Comércio do Funchal residia no facto de ter surgido à margem da tradicional “oposição democrática”, ou seja, de sectores em maior ou menor grau influenciados pelo PCP , como sucedia, por exemplo, com o Notícias da Amadora, embora entre os seus colaboradores contasse também com elementos afetos àquele partido. Por último, saliente-se a transformação ocorrida no seio da revista O Tempo e o Modo, que originou o surgimento de uma nova série a partir de Novembro de 1969, onde as posições maoistas passaram a ser predominantes.

Entre as múltiplas transformações que a sociedade portuguesa então registou importa também salientar aquela que ocorreu no domínio musical a partir do memorável Outono/Inverno de 1971, com a publicação dos álbuns “Cantigas do Maio” (José Afonso), “Gente de Aqui e de Agora” (Adriano Correia de Oliveira), “Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades” (José Mário Branco) e o EP “Romance de Um Dia na Estrada” (Sérgio Godinho), que tiveram uma profunda influência na juventude da época.

A maior mobilidade que os estudantes começaram a usufruir a partir de então, não obstante as restrições impostas pela necessidade de uma “licença militar” para os jovens do sexo masculino quando se ausentavam do país, contribuiu não só para um alargamento de horizontes que o contacto com outras realidades culturais, sociais e políticas lhes proporcionavam, como para a introdução em Portugal de literatura clandestina, assim como “revistas e livros proibidos”.

Os acontecimentos internacionais registados durante a década de 1960, nomeadamente a Guerra do Vietname, a Revolução Cultural na China e o Maio de 1968 em Paris, assim como a invasão da então Checoslováquia pelas tropas do Pacto de Varsóvia, tiveram também uma influência considerável, principalmente junto da juventude estudantil politicamente mais esclarecida.

A Revolução Cultural e o Maio de 68

A década de 1960 registou também o surgimento de um fenómeno novo, traduzido na emergência da juventude como um grupo social reclamando uma identidade própria e uma intervenção política autónoma. Este protagonismo da juventude conheceu o seu primeiro ponto alto em Outubro de 1964, nos Estados Unidos, através do Movimento pela Liberdade de Expressão (Free Speech Movement), na Universidade de Berkeley, o qual protestava contra a proibição da realização de atividades políticas no respetivo campus e contra os “valores conservadores” que a instituição universitária representava.

O envolvimento dos Estados Unidos na Guerra do Vietname – que já durava desde 1959 –, contribuiu consideravelmente para a radicalização do movimento estudantil norte-americano, ao qual se virão em breve juntar os ecos da Revolução Cultural na China. Alguns anos mais tarde, será Paris o epicentro de movimentações semelhantes, em maior escala e afrontando diretamente o poder político, as quais se alastrarão a outros países do continente, como a Itália, Alemanha Ocidental, Bélgica, Reino Unido, Espanha, e mesmo à Polónia e Jugoslávia. A influência do Maio de 68 chegou, também, a Portugal, ainda que o isolamento e a repressão então existentes tivessem limitado consideravelmente o seu impacte e consequências.

Também a Revolução Cultural irá influenciar esta juventude estudantil universitária, como se constatou nos acontecimentos do Maio de 68 em Paris. Em Portugal, após o retrocesso que se seguiu aos acontecimentos de 19652, a juventude estudantil voltou a despertar para a luta política, como o evidenciou a Crise de Coimbra (e as incorporações compulsivas no Exército dela resultantes), assim como as eleições legislativas de 1969, tanto mais que sobre ela pendia permanentemente o cutelo da mobilização para a guerra colonial. No que respeitava à guerra colonial, a questão da deserção – e da deserção com armas – constituía também uma linha de demarcação entre esta juventude estudantil radicalizada e o PCP , que defendia uma posição de recusa à deserção.

Será principalmente através dos acontecimentos do Maio de 68 que a influência da Revolução Cultural Chinesa se irá exercer em Portugal. Não será, por conseguinte, de estranhar que, precisamente em Outubro de 1969, se registe o surgimento de uma organização comunista para a juventude, neste caso estudantil, – a União dos Estudantes Comunistas (marxista-leninista) [UEC (m-l)] promovida pelo então Comité Marxista-Leninista Português –, pela primeira vez desde a dissolução da Federação da Juventude Comunista Portuguesa no MUD Juvenil, em 1946, com o objetivo então proclamado de procurar congregar a juventude antifascista numa única organização.

As novas forças políticas de influência marxista-leninista que, como é conhecido, se constituíram neste período irão lançar, a curto prazo, as suas organizações estudantis, sendo as mais importantes3 constituídas pela Federação dos Estudantes Marxistas-Leninistas (FEML ), criada pelo Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado (MRPP ) em Junho de 1971, e os Comités Revolucionários de Estudantes Comunistas (CR EC’s), cujas bases são lançadas em Abril de 1971 no Porto, e em Outubro do mesmo ano em Coimbra, pela Organização que editava o jornal O Grito do Povo. Em 1972, já perto do final do regime surgirão também as primeiras organizações estudantis influenciadas pelo trotskismo, com a constituição do Grupo Marxista Revolucionário (GMR ) e dos Grupos de Acção Comunista, que em 1973 iniciaram a publicação do jornal Toupeira Vermelha.

O aspeto mais significativo registado durante este período de 1969-74, no seio da oposição estudantil ao regime fascista, consistiu na subalternização da importância das organizações estudantis do PCP face ao surgimento das organizações criadas pelas novas forças políticas marxistas-leninistas. Esta hegemonia resultou mais de uma adesão ao maoismo pelos estudantes que despertavam para o combate anti-fascista, do que das dificuldades internas registados a partir de 1965 pelas organizações estudantis do PCP , após a traição do funcionário Nuno Álvares Pereira, que entregara à PIDE toda a estrutura que aquele partido possuía entre os estudantes de Lisboa. No entanto, o PCP irá não só progressivamente recompor-se, como tentará disputar o terreno do combate estudantil às novas organizações marxistas-leninistas, criando a União dos Estudantes Comunistas (UEC) em 21 de Janeiro de 1972, numa reunião realizada em Budapeste, na qual participaram Álvaro Cunhal, Carlos Brito e militantes do Interior ligados ao sector estudantil, entre os quais Albano Nunes – apesar de já ter mais de trinta anos e não ser estudante deste 1964 –, que passou a integrar a sua Comissão Executiva. Ainda nesse mês, a UEC publicará a sua “Declaração” programática, redigida por Cunhal.

Incremento das lutas estudantis (1969-1974)

Uma das temáticas mais debatidas durante o período final do regime fascista, consistiu na denominada “crise da Universidade”4, quer do ponto de vista da sua incapacidade para formar os quadros técnicos necessários para acompanharem o desenvolvimento económico que o país estava a registar desde o início da década de 1960, quer do ponto de vista do seu funcionamento institucional, devido à crescente contestação estudantil que se vinha manifestando nas três academias, principalmente na de Lisboa.

O incremento das lutas estudantis que se começou a verificar a partir do ano letivo de 1969/70 pode ser classificado, por comodidade de exposição, em três níveis distintos. Um primeiro nível, dizia respeito à tradicional “luta pedagógica” – melhores condições de estudo, exames de recurso, publicação atempada pelos professores de elementos de estudo –, assim como a contestação da atuação arbitrária na avaliação de conhecimentos, que provocava reprovações massivas. Inclui-se também neste nível a luta contra a desatualização pedagógica e, em muitas áreas, científica, que grassava em muitas escolas superiores, ou ainda contra a transmissão de conteúdos arcaicos e reacionários. O insuficiente apoio à ação social (residências, cantinas, bolsas, etc), a carência de instalações adequadas (salas superlotadas, falta de equipamentos nos laboratórios), também suscitavam o descontentamento por parte dos estudantes e revelavam a incapacidade do regime para dar resposta às transformações que se tinham operado durante a década anterior, na qual se registou o início da massificação do Ensino Superior. Como sublinhou Rui Grácio, “em cerca de vinte anos, o número de alunos inscritos no ensino superior triplicou, sobretudo graças à expansão do universitário (3,7 vezes), sendo mais acentuado o crescimento no segundo decénio (2,4) [década de 1960] do que no primeiro (1,5) [década de 1950]”5.

O regime procurou responder a alguns destes problemas com a nomeação de Veiga Simão para ministro da Educação Nacional, em Janeiro de 1970, substituindo o desacreditado José Hermano Saraiva, medida com a qual pretendia também resolver dois problemas em simultâneo: afastar um dos responsáveis pela repressão associada à Crise de Coimbra de 1969 e, assim, satisfazer e “sossegar” o movimento estudantil, ao mesmo tempo que procurava modernizar o Ensino Superior recorrendo a um tecnocrata que se apresentava com discurso condizente com essa necessidade de mudança. A apresentação, em 1971, das “Linhas Gerais da Reforma do Ensino Superior”, constituiu a primeira medida tendente a concretizar aquele objetivo.

Esta solução irá desembocar na Reforma Veiga Simão, com a qual o regime não só procurava adaptar o Ensino Superior às necessidades de desenvolvimento económico do país, como descongestionar as quatro universidades existentes – o que não só respondia à massificação como contribuiria para a diminuição da contestação e a “normalização” do ensino –, com a criação de novas escolas, tanto em Lisboa (Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa – ISCT E, em Dezembro de 1972), como “na província” (as universidades do Minho e de Aveiro, assim como o Instituto Universitário de Évora), para além da Universidade Nova de Lisboa, todas elas criadas em Agosto de 1973. Também a Universidade de Coimbra passou a dispor de cursos de carácter tecnológico, tendo sido criados, em 1972, os cursos completos de Engenharia, uma vez que até então apenas se lecionavam os preparatórios, e a Faculdade de Economia. O plano concluía-se com a criação, também em Agosto de 1973, do ensino politécnico, com base nos novos Institutos Politécnicos e das Escolas Normais Superiores em vários pontos do país.

Esta profunda reforma do ensino não surtiu os efeitos pretendidos, não só porque uma alteração desta envergadura demoraria tempo a produzir os seus resultados e necessitava de recursos financeiros e humanos consideráveis, como os estudantes – nomeadamente os do Ensino Superior – lhe dedicaram um combate sistemático, denunciando-a como aquilo que na realidade ela era: a urgência do sistema capitalista em dispor dos quadros de que necessitava para acompanhar as transformações que a economia do país vinha registando. A contestação estudantil aumentou e, a curto prazo, os estabelecimentos de Ensino Superior caminharam para uma situação de ingovernabilidade, principalmente os da capital, pois tanto no Porto como em Coimbra a situação era muito mais calma.

Apesar de englobar, essencialmente, lutas consideradas “recuadas”, o ambiente então existente nas universidades conduzia a que, frequentemente, as lutas inseridas neste primeiro nível respeitante à tradicional “defesa dos interesses dos estudantes” adquirissem muito facilmente uma rápida politização, em grande medida devido à imediata repressão que enfrentavam.

O segundo nível de desenvolvimento das lutas estudantis registado neste período traduzia um maior nível de consciência política e de radicalização, situação que começou a assumir uma certa predominância a partir do ano letivo de 1970/71. Os estudantes contestavam o “conteúdo de classe” do ensino, apresentando-o como um “instrumento ideológico da burguesia”, defendendo que “a ciência não era neutra”, para referirmos algumas das temáticas então mais debatidas; reclamavam também a liberdade de reunião e de associação, uma vez que as Associações de Estudantes estavam na sua maior parte encerradas, e aquelas que ainda funcionavam eram frequentemente invadidas pela polícia e também encerradas, ainda que algumas o fossem temporariamente. Denotando uma cada vez maior radicalização, os estudantes organizavam “meetings”, confrontavam os professores nas aulas, boicotavam conferências consideradas reacionárias, e desenvolviam uma intensa e paralela atividade editorial, publicando textos de apoio sobre os mais diversos temas, na sua maioria abertamente políticos e de carácter marxista. Tratava-se de uma atitude mais ofensiva, de contestação aberta do sistema de ensino, que colocava na ordem do dia a questão de saber ao serviço de quem estava a universidade.

Este segundo nível da luta estudantil constituía também uma demarcação das novas correntes associativas influenciadas pelas organizações marxistas-leninistas estudantis face à orientação seguida pelas organizações estudantis do PCP , que em geral se limitavam à tradicional luta pedagógica. A partir de 1970/71, e embora dependesse das Faculdades, a as lutas estudantis apresentavam uma maior incidência neste tipo de reivindicações, em detrimento da mera “luta pedagógica” ainda que, como veremos, esta pudesse adquirir muito facilmente elevados níveis de politização.

O incremento da contestação estudantil era nesta época particularmente visível em Lisboa, com os estudantes a insurgirem-se contra as frequentes invasões das instalações universitárias pela polícia, o encerramento temporário das Faculdades, a invasão e destruição das Associações de Estudantes, as suspensões e prisões de colegas, ou contra os processos disciplinares, que muitas vezes conduziam à expulsão e incorporação forçada no Exército.

O regime não apresentava outra solução que não a do aumento da repressão. Em Janeiro de 1973, o ministro Veiga Simão criou a categoria de vigilantes (que os estudantes rapidamente denominaram “gorilas”), cuja função era a de exercerem um controlo policial sobre as atividades estudantis, a que se seguiu um outro diploma, em Novembro do mesmo ano, que concedia aos reitores a faculdade de recusarem a matrícula ou a inscrição aos alunos que fossem considerados “prejudiciais à disciplina dos estabelecimentos” (D.-L. n.º 629/73). É claro que estas medidas só vieram agravar a situação, particularmente em Lisboa, desencadeando autênticas lutas corpo a corpo com os odiados “gorilas”, e agravando a ingovernabilidade de várias faculdades, que acabavam por ser encerradas pelo Governo, enquanto a situação não acalmasse.

O terceiro nível de desenvolvimento da contestação registado durante este período assumia características politicamente mais avançadas, como organização de manifestações de rua contra o fascismo e o colonialismo, com ações violentas – como o estilhaçar de montras de bancos –, ou de solidariedade com lutas travadas pela população. Momentos particularmente importantes da luta estudantil contra o regime ocorreram em Maio de 1972, e depois em Outubro do mesmo ano, aquando do funeral do aluno da Faculdade de Direito de Lisboa, José António Ribeiro dos Santos, com os estudantes a desafiarem abertamente a repressão. Também as lutas contra a Queima das Fitas, em 1971 no Porto, e em 1972 em Coimbra (tentativa frustrada de um pequeno grupo de apodados de “reaccionários”, que não teve problemas em desrespeitar o luto académico6), assumiram um carácter massivo e vitorioso, tendo os estudantes das respetivas academias deixado de organizar aquelas “festividades”, até à sua ressurreição ocorrida já depois do 25 de Abril.

Breve conclusão

Apesar de circunscritas a um grupo social relativamente restrito – os estudantes –, estas organizações estudantis conseguiram mobilizar e integrar, em cerca de cinco anos, centenas de ativistas e formar dezenas de quadros políticos que ainda hoje – embora noutros quadrantes partidários – se mantêm em atividade, beneficiando em grande medida da formação e da experiência adquiridas naquela época. Estas organizações conseguiram, também, superar pela primeira vez a influência do PCP no movimento estudantil7, beneficiando da emergência de uma nova geração que se sentia mais atraída pelos acontecimentos do Maio de 68 e, em particular, pela Revolução Cultural, então em curso na República Popular da China.

A oposição ao regime fascista – não só em relação aos métodos caducos de ensino como à sua política de manutenção da guerra colonial – desenvolvida por estas organizações, conquistou uma grande popularidade e adesão junto de numerosos estudantes, causando sérias dificuldades ao regime e obrigando-o a tomar um conjunto de medidas no sentido de evitar o seu isolamento junto da opinião pública. A imprensa do regime, assim como a televisão, constituíam as únicas armas – embora extremamente importantes – de que dispôs para tentar confundir o povo português sobre os verdadeiros motivos por que lutavam os estudantes, e foram inúmeras as ocasiões em que se viu obrigado a recorrer àquele expediente.

Estas organizações estudantis conheceram o seu período áureo durante a primeira metade da década de 70. Após o 25 de Abril, com o restabelecimento das liberdades fundamentais, a maior parte dos militantes destas organizações envolveu-se na luta política que marcou o período revolucionário, passando a intervenção no movimento estudantil a assumir uma importância secundária.

Publicado na revista Virus 12, 1ª série, abril/maio 2011


Notas:

1 Exceção feita para o estudo de António Ventura sobre a recepção do marxismo em Portugal [António Ventura (2000), “O marxismo em Portugal no século XX”, in Pedro Calafate (Dir.), História do Pensamento Filosófico Português. Lisboa: Editorial Caminho, Vol. V, pp. 195-229], e mais recentemente Miguel Cardina (2008), A Tradição da Contestação. Resistência estudantil em Coimbra no Marcelismo. Coimbra: Angelus Novus, pp. 252-255.

2 Em Janeiro de 1965, cerca de cinquenta estudantes de Lisboa foram presos pela PIDE, acusados de pertencerem ao PCP . As lutas de solidariedade então travadas não foram capazes de impedir a expulsão de cinquenta e três estudantes de todas as universidades do país e a suspensão de mais de cem estudantes.

3 Não consideramos, dada a sua efémera existência – de Janeiro a Setembro de 1972 –, para além da sua reduzida atividade e importância, o Movimento das Juventudes Comunistas (Marxista-Leninista) criado pelo Comité Marxista-Leninista de Portugal (O Bolchevista). No entanto, também o título do seu jornal, denominado Jovem Guarda (nº 1, Janeiro de 1972), do qual se publicaram quatro números, traduzia claramente a influência da Revolução Cultural.

4 Para além de debates, mesas-redondas, artigos, em jornais e revistas, ver, entre outros exemplos, J. P. Miller Guerra, e A. Sedas Nunes (1969), “A crise da Universidade em Portugal: reflexões e sugestões”, Análise Social, VII (n.º 25-26), pp. 5-49, ou a colectânea de artigos coordenada por Adérito Sedas Nunes (1970), O Problema Político da Universidade. Lisboa: Publicações Dom Quixote.

5 Rui Grácio (1990), “A expansão do sistema de ensino e a movimentação estudantil”, in António Reis (Dir.), Portugal Contemporâneo. Lisboa: Publicações Alfa, Vol. V, p. 225.

6 “Viva a vitoriosa luta dos estudantes de Coimbra contra a Queima dos burgueses!”, Servir o Povo, nº 1, Maio de 1972, pp. 1-2 e 6. [Órgão do CR EC de Coimbra].

7 Deve referir-se, contudo, que a partir de 1971/72 a UEC recuperou alguma influência no movimento estudantil, nomeadamente em Lisboa, onde listas afetas à sua orientação conquistaram a Direção de algumas Associações de Estudantes.

Resto dossier

40 anos do assassinato de Ribeiro Santos

Nesta sexta-feira, faz 40 anos que José António Ribeiro Santos foi assassinado pela PIDE/DGS. O assassinato marcou uma mudança na sociedade portuguesa. Pouco mais de 18 meses depois, o regime foi deposto e o 25 de Abril foi um ponto de partida para uma mudança de fundo no país. Dossier organizado por Carlos Santos.

A morte do estudante Ribeiro dos Santos

Faz esta quinta-feira 45 anos desde a morte de Ribeiro dos Santos, estudante assassinado pela PIDE em 1972. O Esquerda.net republica o dossier que lhe é dedicado com textos de Carlos Santos, Aurora Rodrigues, Jorge Costa, Renato Soeiro, Alberto Matos, José Manuel Lopes Cordeiro, e a entrevista a Raimundo Santos.  

O assassinato de Ribeiro Santos

Sabíamos que corríamos riscos, mas não estávamos à espera daquela morte. Quando parámos, não conseguíamos suportar. Uma coisa é estar-se numa manifestação sob o efeito da adrenalina, outra é quando pára. Fica-se desconcertado e era como nós estávamos. A reacção não foi só nossa. Foi uma reacção geral dos estudantes e da população. Por Aurora Rodrigues, extrato do livro “Gente comum: uma história na PIDE”.

História de um comunicado

A hora era, sem dúvida, sombria e eu, que adorava aqueles dois últimos versos do poema da Comuna, resolvi propô-los como título do nosso comunicado: “A hora mais sombria é a que precede a aurora”(Comunicado acerca do assassinato de Ribeiro Santos, publicado na Academia do Porto em 1972).
Artigo de Renato Soeiro.

Há 40 anos a PIDE assassinou Ribeiro Santos, mas o povo perdeu o medo!

Olhando 40 anos para trás, não tenho dúvida de que o funeral de Ribeiro Santos foi o dia em que o povo perdeu o medo. O medo que tu próprio perdeste naquele anfiteatro, em 12 de Outubro. E tinhas toda a razão, Ribeirinho: o que nos une é muito mais forte do que o que nos possa dividir. Artigo de Alberto Matos

“Havia o sentimento de que o regime não tinha muito mais tempo de vida”

Em entrevista ao esquerda.net, Raimundo Santos dá-nos o seu testemunho sobre a repercussão do assassinato de Ribeiro Santos nos meios operários de Lisboa. “Ao contrário do que era habitual, em que a ditadura conseguia que a informação não circulasse, neste caso não conseguiu e isso teve repercussões, porque foi um assassinato e também porque naquela altura havia já um sentir diferente”.  

Radicalismo político e ativismo estudantil nos últimos anos do fascismo (1969-1974)

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Artigo de José Manuel Lopes Cordeiro, professor da Universidade do Minho

Evocações e homenagens

Este ano vão realizar-se vários ações de evocação e homenagens a Ribeiro Santos. No dia 12 de outubro, haverá uma aula aberta na FCSH/UNL, a Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa tem um vasto programa evocativo e no próximo sábado haverá uma romagem ao cemitério da Ajuda.

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