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Há 40 anos a PIDE assassinou Ribeiro Santos, mas o povo perdeu o medo!

Olhando 40 anos para trás, não tenho dúvida de que o funeral de Ribeiro Santos foi o dia em que o povo perdeu o medo. O medo que tu próprio perdeste naquele anfiteatro, em 12 de Outubro. E tinhas toda a razão, Ribeirinho: o que nos une é muito mais forte do que o que nos possa dividir. Artigo de Alberto Matos

Como se fosse ontem! Era um fim de tarde chuvoso e cinzento duma quinta-feira de Outono. Uma arreliadora gripe, com febre perto dos 40 graus, sem perspetivas de recuperação até ao fim de semana que se anunciava sombrio. Nem eu sonhava quanto…

Bateram à porta, com violência. Com cautela, abrimos. De rompante entrou a Ana Rosa, esbaforida, com a voz embargada. “Acalma-te rapariga, respira fundo.” E as palavras soltaram-se, como balas: “Mataram o Ribeirinho, em Económicas. Eu estava lá!” “O Ribeirinho? Não pode ser!”…

Ribeirinho, diminutivo carinhoso de José António Ribeiro Santos, estudante de Direito, baixa estatura, maturidade invulgar que, aos 26 anos, já transparecia na cabeleira densa e polvilhada de branco.

Dias antes, após uma RIA – Reunião Interassociações de Lisboa – e algumas altercações com o João Isidro, de Direito, um grupo de estudantes do MRPP que integrava Saldanha Sanches, fez uma espera aos POP’s (Por um Ensino Popular) no longo corredor da Sala de Alunos de Medicina, em Santa Maria. A coisa ia dando para o torto, não fora a calma do Ribeirinho: “o que nos une é mais forte do que o que nos divide.” Foram as últimas palavras que trocámos.

Na tarde de 12 de Outubro de 1972 decorria um meeting contra a repressão, numa das escolas mais politizadas da academia de Lisboa – o ISCEF, hoje ISEG. Os estudantes, desconfiados de um dos “bufos” que rondavam as instalações, acabaram por levá-lo para o anfiteatro onde decorria o meeting, com um capuz enfiado na cabeça. Cena caricata: a Direção do Instituto telefonou para a sede da PIDE/DGS para confirmar se o indivíduo era mesmo informador…

E a polícia política enviou dois pides “oficiais” ao ISCEF para identificar o “bufo”! Mais caricato e chocante para os estudantes apinhados no anfiteatro: dois membros da Direção da AEISCEF afeta ao PCP - UEC, Manuel Aranda da Silva e Vasco Cal, serviram de cicerones aos pides no anfiteatro. Estes retiraram o capuz ao “bufo”, viraram-se para os estudantes e menearam a cabeça com ar de gozo: “não, este não é dos nossos”.

A provocação tinha ido longe demais. Aos gritos “Morte à PIDE!”, dezenas de estudantes lançaram-se sobre os dois bandidos armados. Ribeiro Santos foi dos primeiros e caiu varado pelas balas da pistola do assassino António Joaquim Gomes da Rocha que feriram ainda José Lamego, preso após estes trágicos acontecimentos. O Rocha, como tantos outros pides, foi libertado da prisão de Alcoentre em 1975 e nunca pagou por este e outros crimes.

Sexta-feira, 13 de Outubro, foi um vendaval de manifestações de estudantes indignados por toda a cidade de Lisboa. Inventámos novas formas de contacto com a população, como uma distribuição de comunicados em plena luz do dia (não era fácil!) num supermercado Pão de Açúcar da Avenida dos Estados Unidos da América. Por esses dias as vidraças dos bancos transformaram-se em alvo predileto da ira estudantil, como símbolo do poder dos verdadeiros donos do regime. Uma realidade que permanece e uma ideia com potencialidades nesta eram dos especuladores…

Sábado, 14 de Outubro. O funeral de Ribeiro Santos foi a maior manifestação de massas dos últimos anos da ditadura. Ao chegar junto do atual Teatro “A Barraca”, um enorme burburinho no Largo de Santos arrastou-me com centenas de pessoas pela calçada que hoje dá pelo nome Ribeiro Santos. A PIDE e a polícia de choque tinham arrancado à força a urna que os familiares, camaradas e amigos de Ribeiro Santos queriam transportar às costas. Este gesto cobarde fez despertar a fúria da multidão que perseguiu os sequestradores até ao cemitério da Ajuda, cercado pela polícia.

Na batalha campal que se seguiu, entre Santos e a Ajuda, passando pelas Janelas Verdes, Alcântara, Junqueira, Santo Amaro, Aliança Operária, Rio Seco e Boa Hora, tive a plena sensação do que é perder o medo aos esbirros do fascismo. As pedras da calçada foram levantadas e arremessadas contra tudo o que tivesse os tons de azul e cinzento da polícia, estivesse a pé ou nos famosos “níveas” e carrinhas dos “choques”. Durante horas o povo tornou-se dono da cidade e até os habituais “apelos à calma” dos reformistas eram olhados de soslaio e com desprezo.

Nem ao Domingo os manifestantes descansaram, sucedendo-se os comunicados à população. Até que, na noite de segunda-feira, 16 de Outubro, reuniu no Hospital de Santa Maria uma RIA extraordinária, com o objetivo de aprovar um Manifesto à População. Não se tratava de mais um comunicado, mas da posição oficial da RIA, palco de intensa disputa política. Ao fim de horas (como sempre!) de acesa discussão, acabou por ganhar a versão dos POP’s, com o título simples e contundente: VINGAREMOS RIBEIRO SANTOS!

Obviamente ficámos satisfeitos, mal sabendo o que a PIDE nos reservava nessa madrugada. Emprestei o meu velho Fiat 850 ao Pedro Ferraz de Abreu, de Ciências, intuindo sem perguntar (nesse tempo havia perguntas indesejáveis…) que ele iria desempenhar alguma tarefa importante. Curiosamente, ambos escapámos às prisões que a PIDE desencadeou, pelas 7 horas de 17 de Outubro: o Pedro porque não foi dormir a casa, foi avisado pelo piquete de estudantes postado à entrada da sua rua; eu, porque o ficheiro da PIDE estava atrasado duas moradas e a brigada só me bateu à porta às 11 da manhã…

Vinte anos mais tarde, ao consultar o arquivo da PIDE, deu-me um enorme gozo ler a frase, escrita pelo punho do agente Carlos Augusto Martins: “Deslocando-nos à sua atual morada, na Avenida João XXI, apurou-se que o referenciado e seus familiares estavam ausentes de casa. Feitos todos os esforços ao nosso alcance para não prejudicar o serviço, não nos foi possível, todavia, proceder à sua captura”. Felizmente, a burocracia é cega, estúpida e atrasada!

As oito prisões tentadas (três falhadas, incluindo a do Firmino da Costa) atingiram quatro membros da Direção da Associação de Ciências e outros quatro do Técnico, numa tentativa falhada de intimidação e desmobilização dos estudantes. Os nossos camaradas estiveram presos até aos 90 dias permitidos, sem julgamento. E nós andámos três meses “a monte”, numa primeira experiência de clandestinidade que se revelou muito útil. Entre vários amigos solidários, lembro Pedro Botelho, Conceição e Silva, José Calado, João Abel Manta e José Fanha, todos arquitetos, por coincidência...

No nosso caso, éramos membros da anterior Direção da AE, já que a Direção em funções, afeta à UEC e eleita sob enorme chantagem, com o Técnico cercado pela polícia, foi muito “moderada” em todo o processo, a exemplo dos seus camaradas da Direção de Económicas que conduziram os dois pides para dentro do anfiteatro. Para nós, foi uma medalha de mérito antifascista concedida pela PIDE. Só voltou a haver eleições no Técnico depois do 25 de Abril que, obviamente, ganhámos. E, no dia 26 de Abril, o carro do Diretor fascista, Sales Luís, desceu todos os degraus da rampa do Pavilhão Central.

12 de Outubro de 1973, um ano após o assassinato de Ribeiro Santos, foi dia de todas as manifestações, em Lisboa e no Porto: em repúdio por este crime hediondo, mas também contra a guerra colonial e a farsa eleitoral, a última ensaiada pelo fascismo. As manifestações nunca mais pararam e os capitães já conspiravam, mas nós não sabíamos… O 25 de Abril de 1974 estava quase a chegar e, nesse dia glorioso, a PIDE ainda assassinou quatro jovens, disparando da varanda da Rua António Maria Cardoso.

Olhando 40 anos para trás, não tenho dúvida de que o funeral de Ribeiro Santos foi o dia em que o povo perdeu o medo. O medo que tu próprio perdeste naquele anfiteatro, em 12 de Outubro. E tinhas toda a razão, Ribeirinho: o que nos une é muito mais forte do que o que nos possa dividir. Ontem como hoje, em bloco contra todas as troikas que querem dar cabo das nossas vidas. O teu exemplo é precioso para milhares de jovens de todas as idades, indignados e determinados em resgatar o futuro!

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda

Resto dossier

40 anos do assassinato de Ribeiro Santos

Nesta sexta-feira, faz 40 anos que José António Ribeiro Santos foi assassinado pela PIDE/DGS. O assassinato marcou uma mudança na sociedade portuguesa. Pouco mais de 18 meses depois, o regime foi deposto e o 25 de Abril foi um ponto de partida para uma mudança de fundo no país. Dossier organizado por Carlos Santos.

A morte do estudante Ribeiro dos Santos

Faz esta quinta-feira 45 anos desde a morte de Ribeiro dos Santos, estudante assassinado pela PIDE em 1972. O Esquerda.net republica o dossier que lhe é dedicado com textos de Carlos Santos, Aurora Rodrigues, Jorge Costa, Renato Soeiro, Alberto Matos, José Manuel Lopes Cordeiro, e a entrevista a Raimundo Santos.  

O assassinato de Ribeiro Santos

Sabíamos que corríamos riscos, mas não estávamos à espera daquela morte. Quando parámos, não conseguíamos suportar. Uma coisa é estar-se numa manifestação sob o efeito da adrenalina, outra é quando pára. Fica-se desconcertado e era como nós estávamos. A reacção não foi só nossa. Foi uma reacção geral dos estudantes e da população. Por Aurora Rodrigues, extrato do livro “Gente comum: uma história na PIDE”.

História de um comunicado

A hora era, sem dúvida, sombria e eu, que adorava aqueles dois últimos versos do poema da Comuna, resolvi propô-los como título do nosso comunicado: “A hora mais sombria é a que precede a aurora”(Comunicado acerca do assassinato de Ribeiro Santos, publicado na Academia do Porto em 1972).
Artigo de Renato Soeiro.

Há 40 anos a PIDE assassinou Ribeiro Santos, mas o povo perdeu o medo!

Olhando 40 anos para trás, não tenho dúvida de que o funeral de Ribeiro Santos foi o dia em que o povo perdeu o medo. O medo que tu próprio perdeste naquele anfiteatro, em 12 de Outubro. E tinhas toda a razão, Ribeirinho: o que nos une é muito mais forte do que o que nos possa dividir. Artigo de Alberto Matos

“Havia o sentimento de que o regime não tinha muito mais tempo de vida”

Em entrevista ao esquerda.net, Raimundo Santos dá-nos o seu testemunho sobre a repercussão do assassinato de Ribeiro Santos nos meios operários de Lisboa. “Ao contrário do que era habitual, em que a ditadura conseguia que a informação não circulasse, neste caso não conseguiu e isso teve repercussões, porque foi um assassinato e também porque naquela altura havia já um sentir diferente”.  

Radicalismo político e ativismo estudantil nos últimos anos do fascismo (1969-1974)

Momentos particularmente importantes da luta estudantil contra o regime ocorreram em Maio de 1972, e depois em Outubro do mesmo ano, aquando do funeral do aluno da Faculdade de Direito de Lisboa, José António Ribeiro dos Santos, com os estudantes a desafiarem abertamente a repressão.
Artigo de José Manuel Lopes Cordeiro, professor da Universidade do Minho

Evocações e homenagens

Este ano vão realizar-se vários ações de evocação e homenagens a Ribeiro Santos. No dia 12 de outubro, haverá uma aula aberta na FCSH/UNL, a Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa tem um vasto programa evocativo e no próximo sábado haverá uma romagem ao cemitério da Ajuda.

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