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"Trump representa a oligarquia fóssil e o negacionismo climático, a receita para a catástrofe ecológica"

Entrevista ao pensador marxista Michael Löwy sobre os perigos ambientais trazidos pela eleição de Donald Trump e a situação política em França. Por Tiago Ivo Cruz.
Michael Löwy
Michael Löwy

A entrevista de Tiago Ivo Cruz a Michael Löwy está incluída no programa Mais Esquerda, que pode ser visto aqui e inclui ainda uma reportagem sobre trabalhadores perseguidos por serem sindicalizados (que podes ver aqui) e uma visita guiada ao Museu do Aljube feita pelo seu diretor, o historiador Luís Farinha.

Com a eleição de Trump, quais serão os principais perigos ambientais no futuro próximo?

Nos próximos 4 anos, se Trump continuar a presidir os Estados Unidos (e talvez o consigam tirar de lá), serão muito preocupantes. Parece haver um consenso nos representantes capitalistas no mundo de que o problema do clima é sério, é uma ameaça real e que o que os cientistas dizem que temos de fazer tudo para impedir a temperatura de superar os 1.5 - 2º, o que é um desafio.

Os acordos Paris mostraram que, desde essa conclusão até tomar medidas necessárias o impedir, não havia continuidade nenhuma. Ficou vazia a afirmação de que era preciso evitar isso, nada nos acordos de Paris ia realmente nessa direção. Os próprios cientistas calcularam que, se cada país cumprisse o compromisso que assumiu no Acordo de Paris, íamos chegar a uma temperatura de 3º acima do período pré industrial e, portanto, o processo de mudança climática já se tornaria irreversível. Isso no melhor dos casos porque, como não há controlo nem sanções, é muito pouco provável que cada país cumpra as suas promessas, são promessas bastante vazias. 

Os acordos de Paris são altamente insatisfatórios, são uma receita para o desastre, mas pelo menos eram um sinal de que os representantes dos governos e do capitalismo se davam conta de que o problema é real.

Os acordos de Paris são altamente insatisfatórios, são uma receita para o desastre, mas pelo menos eram um sinal de que os representantes dos governos e do capitalismo se davam conta de que o problema é real. Com a eleição de Trump, temos uma situação inédita. Chega ao poder o representante de um setor do capital, a que eu chamaria a oligarquia fóssil, os interesses do petróleo, do carvão e que nega, simplesmente, o problema. É o negacionismo climático. Isso é uma situação inédita e extremamente preocupante porque este governo comprometeu-se a libertar totalmente de qualquer regulação mínima que existia a extração e a queima do petróleo, do gás de xisto, do carvão. Sem limites, sem controlo, sem nada. Quatro anos com a principal potência industrial do mundo a queimar energia fóssil alegremente, sem limites, sem nada, é uma receita para a catástrofe ecológica. É extremamente preocupante.  

Felizmente há nos Estados Unidos um movimento de resistência sócio-ecológico muito importante e que se viu em várias manifestações que conseguiram impedir a construção dos pipelines. Do primeiro pipeline que vinha do Canadá, depois do outro do Dakota. As comunidades indígenas estiveram na vanguarda disso, com o apoio da juventude, da população, dos economistas. Houve realmente uma mobilização social importante. Será que essa mobilização vai continuar a conseguir impedir os nefastos projetos de Trump e companhia? Não sei, mas essa é a única esperança. E nós no mundo inteiro precisamos de ajudar os nossos companheiros americanos, na medida do possível. Dar-lhes todo o apoio político-financeiro, moral, inclusive ir aos Estados Unidos e lá participar em manifestações, eles precisam da nossa ajuda.

Quatro anos com a principal potência industrial do mundo a queimar energia fóssil alegremente, sem limites, é uma receita para a catástrofe ecológica. É extremamente preocupante.

Dizes que François Fillon e Marine Le Pen têm uma narrativa de uma "utopia de futuro na grande França". Como defines esta direita e extrema direita francesa e, em particular, a sua relação com a igreja católica, que está cada vez mais a deixar de ter pudor de apoiar a Frente Nacional?

A Frente Nacional é uma ameaça real, é um movimento de extrema direita, xenófobo, racista. Não gosto do termo populismo, acho que ele é muito confuso, mas têm com rasgos semifascistas, eu diria, um pouco atenuados pela filha em relação ao pai, mas ainda bem presentes. Consegue capitalizar um descontentamento social difuso muito grande contra a crise, contra a política da União Europeia e também contra a xenofobia que existe, infelizmente, em toda a Europa, salvo em Portugal (belíssima exceção). É uma ameaça muito importante. Eu vejo o caso Fillon de forma diferente, mais como uma manifestação da direita reacionária clássica, é um outro tipo de figura, inclusive mais neoliberal do que a própria Marine Le Pen, não é a mesma configuração.

A igreja católica, como você mesmo disse, tradicionalmente opunha-se ao discurso da Frente Nacional. Há uma extrema direita católica que simpatiza com a Frente Nacional, claro, e há um movimento já mais amplo dentro do catolicismo reacionário na questão dos homossexuais, do casamento homossexual, da “família”, defesa da família, que tem o apoio de setores da igreja católica. Há um setor da Frente Nacional que segue essa orientação, mas não é a linha dominante. É a linha da sobrinha do Le Pen, Marion Le Pen, e não é a linha da Marine Le Pen.

Não é só em França, em toda a Europa vemos um ascensão preocupante de uma direita islamofóbica, racista, xenófoba com variantes em cada país. É um fenómeno europeu e, com Trump, é um fenómeno internacional. Temos que enfrentar esse monstro.

Marine Le Pen resolveu jogar a carta da laicidade, que é muito popular na França desde a velha tradição laica contra a igreja, contra as religiões. Ela está a jogar essa carta contra o Islão. Obviamente, é a carta da islamofobia, mas a islamofobia não em nome do catolicismo, mas da laicidade, o que tem mais popularidade. Ela não pode jogar a carta da igreja católica, o argumento contra o islão não é que o islão não é cristão, é que o islão é estrangeiro, é hostil às nossas tradições francesas, laicas, que protegem os direitos da mulher, com todo um discurso pseudo feminista, com outro tipo de discurso que não tem até muito a ver com a tradição religiosa. Mas não é só em França, em toda a Europa vemos um ascensão preocupante de uma direita islamofóbica, racista, xenófoba com variantes em cada país. É um fenómeno europeu e, agora com o Trump, é um fenómeno internacional. Temos que enfrentar esse monstro.

Nas próximas Presidenciais, como se vai apresentar a esquerda em França?

Existe uma esquerda revolucionária em França, por exemplo, o Novo Partido Anticapitalista nas últimas eleições tem apresentado um operário, Philippe Poutou, mas desta vez vai ser difícil apresentarem-se porque a lei francesa exige um sistema de quinhentas assinaturas [de autarcas] que está a ficar cada vez mais difícil, não sei se vão conseguir este ano.

Das candidaturas mais importantes da esquerda há duas que são rivais atualmente: a de Jean-Luc Mélenchon e a de Benoît Hamon, um representante da esquerda do Partido Socialista, que surpreendentemente ganhou as primárias do Partido Socialista e que é um social democrata de esquerda, com todas as contradições que isso tem. Esses dois candidatos têm as suas qualidades, mas têm os seus problemas, e, sobretudo, com a sua rivalidade é pouco provável que um deles passe à segunda volta. Eles têm um potencial de 25%, se houvesse um só poderia ir à segunda volta, mas como estão divididos, um tem 15% e o outro tem 10%. No começo, Mélenchon tinha 15% e Hamon 10%, agora Hamon tem 16-17% e Mélenchon caiu para 10%. De qualquer maneira, nenhum dos dois tem muitas hipóteses de ir à segunda volta, salvo se mudar muito a conjuntura, daí o risco de a segunda volta ser entre a direita e a extrema direita, que seria desastroso.

Nem Mélenchon nem Hamon têm muitas hipóteses de ir à segunda volta, salvo se mudar muito a conjuntura, daí o risco de a segunda volta ser entre a direita e a extrema direita, que seria desastroso.

Vês alguma hipótese de a França se impor contra a agenda austeritária da União Europeia?

É difícil, depende de quem seria o Presidente, se fosse Mélenchon ou Benoît Hamon não é a mesma relação com a Europa, Mélenchon é muito mais crítico à União Europeia que Hamon, mas se houver um governo mais ou menos de esquerda, mesmo social democrata de esquerda na França, se ele quiser tomar algumas medidas anti austeritárias vai-ss enfrentar com a União Europeia. Portugal já mostrou, pelo menos até agora, que a União Europeia não pode fazer tudo. O seu poder é muito grande, mas não é total, não podem repetir com Portugal o que fizeram com a Grécia, porque senão realmente vai acabar.

Se fossem a França [a enfrentar a UE], que tem muito mais poder económico, já mudaria a correlação de forças. Já haveria Portugal, França, Grécia, vários países a propor outra política. Seria uma mudança de conjuntura, não sei quais seriam as consequências, mas a Europa obviamente não pode fazer com a França o que fez com a Grécia. Mas infelizmente não acho muito provável que isso aconteça, mas seria muito bom se houvesse um governo moderadamente de esquerda capaz de assumir uma "briga" com a política de austeridade da oligarquia europeia.

Vieste a Portugal apresentar o teu novo livro “Utopias”, uma coletânea de ensaios organizada por José Neves. Fala-nos um pouco deste livro.

Foi o meu amigo José Neves que escolheu os artigos, são temas diferentes que têm um fio condutor comum, que talvez seja a questão do romantismo revolucionário. É um grupo de artigos sobre pensadores da cultura judaica libertária da Europa central, por exemplo Walter Benjamin; tem um capítulo sobre o romantismo nas Ciências Sociais em Inglaterra, onde estão E. P. Thompson, Eric Hobsbawm, etc. E tem um capítulo sobre o marxismo na América Latina, a propósito de José Carlos Mariátegui, Che Guevara e da teologia da libertação. Esse é um pouco o conjunto, são coisas muito diversas, eu tenho uma mente muito dispersa. O José Neves escreveu uma introdução para mostrar que há uma coerência, fico muito agradecido, eu não tenho tanta certeza, mas talvez haja um fio condutor que é essa questão do romantismo revolucionário que está presente, senão em todos, na maioria dos artigos dessa coletânea.

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