Petróleo do Mar do Norte: o que importa não é se vai haver um “boom” mas a quem pertence o petróleo

A única forma de diminuir o deficit e retomar os serviços públicos depois dos cortes da coligação, bem como de conseguir ter dinheiro para investir e reconstruir a economia escocesa será nacionalizar o petróleo do Mar do Norte. Artigo de Ralph Blake.

10 de setembro 2014 - 16:42
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Foto Irenicrhonda/Flickr

A única coisa de que sabemos com certeza sobre o futuro preço do petróleo é que não sabemos qual vai ser. É por isso que a afirmação do Scottish National Party (SNP) de que a independência coincidirá com o “boom” do petróleo do Mar do Norte que irá permitir à Escócia uma significativa melhoria de condições, deve ser olhada com precaução. Baseia-se em previsões largamente especulativas que vão contra as previsões médias dos analistas especializados nessa indústria.

Mais do que tentar prever o imprevisível, a variante mais importante no que respeita ao petróleo é saber quem o possui. Sob propriedade privada, mesmo se o “boom” passar, não chegará a proporcionar fundos suficientes para compensar o enorme montante da dívida que a Escócia herdará  e nenhum acordo de independência trará os meios necessários à reconstrução da economia escocesa.

Durante os últimos dez anos o petróleo do Mar do Norte negociou cada barril por cerca de 27 US dólares ($) o preço mais baixo, e $150 o preço mais alto. Começou em 2003 com 27$ e aumentou nos 5 anos seguintes para $140 até 2008 e a pré-crise financeira ter abalado a economia mundial. Então caiu para $40 e quando a economia mundial se afundou na crise financeira, tendo sido necessários  dois anos e meio para a recuperação gradual do preço até $110 que se manteve nos últimos dois anos. O preço também determina quanto as companhias petrolíferas irão extrair em cada ano, tornando os lucros ainda mais voláteis.

O preço do petróleo tem variado em função de vários fatores durante os últimos dez anos: tensões geopolíticas no Médio Oriente; a economia Chinesa; e os ciclos recessão/retoma na economia mundial. O boom do petróleo no virar do milénio foi provocado por uma conjunção de fatores ocorrendo simultaneamente e é altamente improvável que se repitam.

A pior recessão desde a década de 1930 e a fraca recuperação da economia, particularmente na Europa, apontam, desde o século XIX, para uma baixa procura de petróleo e consequente baixa de preços no futuro, muito diferente dos impetuosos anos de 2008.

Seria prudente, se o fator chave para a gestão das nossas finanças for o petróleo do Mar do Norte, calcular de forma cautelosa os lucros do petróleo dada a alta volatilidade dos preços.

A média das previsões dos analistas, supervisionados por Bloomberg, situa-se em cerca de $110 por barril de petróleo do Mar do Norte para os próximos quatro anos, o que está de acordo com as previsões do departamento de estatística Norte-Americano. Estes números são cerca de 15 a 25% mais baixos do que as previsões fornecidas ao SNP pelo Department of Energy and Climate Change ($130) e pela OECD ($150), nenhum dos dois organismos reconhecido como especialista em petróleo, ou como tendo bons antecedentes na previsão de futuros preços do petróleo. Em qualquer caso, seria prudente, se o fator chave para a gestão das nossas finanças for o petróleo do Mar do Norte, calcular de forma cautelosa os lucros do petróleo dada a alta volatilidade dos preços. Numa proposta que fiz* advogava o uso de um preço de $80, devendo qualquer acréscimo ficar a constituir um fundo de reserva, e 20% desse fundo seria retirado cada três anos para financiar projetos na Escócia. Desta forma, criava-se uma ‘almofada’ para o caso do preço do petróleo descer abaixo dos $80 , e fundos extraordinários são necessários para colmatar uma brecha nas finanças públicas.

O Déficit com e sem os lucros do petróleo do Mar do Norte**

Mas estes lucros, mesmo nos números inflacionados do SNP, não seriam suficientes para anular o deficit das finanças públicas que, numa média dos últimos três anos tem sido de 11 mil milhões de libras. Nem poderiam compensar os cerca de 10 mil milhões de libras em cortes reais que a coligação terá feito nos serviços públicos em 2013/1014 ou os 106 mil milhões de libras (a nossa parte per capita na dívida total do UK) de dívida nacional, que herdaríamos nos termos que seriam aceites no Acordo de Independência.
Podemos dizer que com os lucros do petróleo do Mar do Norte o deficit escocês é aparentemente menor mas não teríamos mais dinheiro para gastar. Somente teríamos de pedir menos dinheiro emprestado, agora gerido por nós próprios, enquanto que atualmente é pedido pelo governo britânico que apresenta os problemas a que me referi anteriormente. Qualquer “boom” significa um boom no investimento porque, com níveis de preço estáveis de $100 por barril, seria proveitoso para as companhias petrolíferas explorar e extrair acima dos estimados 25 biliões de barris de petróleo do Mar do Norte quantidade previamente considerada correta em termos económicos. Mas, sob propriedade privada, só 30% destes lucros iriam para a Escócia. O boom nos lucros reais do petróleo ocorreu no início dos anos 1980.

A única forma de diminuir o deficit e retomar os serviços públicos depois dos cortes da coligação, bem como de conseguir ter dinheiro para investir e reconstruir a economia escocesa será nacionalizar o petróleo do Mar do Norte. É o único caminho, radical, para o povo escocês. Significaria mais do que triplicar os lucros do petróleo. Libertaria a Escócia da exposição à volatilidade dos preços do petróleo, se um fundo de reserva fosse criado e estruturado conforme descrevi. Também nos permitiria ter o nosso próprio câmbio e um banco central e ter uma Escócia verde sustentável, ao encontro das necessidades das pessoas. Isso permitiria à Escócia ser independente do Banco de Inglaterra e do Tesouro. Poderíamos seguir o caminho da Noruega que detém uma larga maioria na sua indústria petrolífera e aderir à  Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA), em vez de ficarmos presos no jogo dos membros da EU. Permitia-nos negociar com a Europa e sermos europeus, não fazendo parte do bloco económico neoliberal.

Sim, ‘o petróleo é da Escócia’, mas só depois de ser nacionalizado. Assim poderemos construir uma Escócia independente próspera, justa e sustentável.

Ralph Blake, pseudónimo de um analista de indústria financeira escocesa e antigo chefe de investigação e estratégia sobre investimento bancário. Publicado inicialmente no site da Radical Independence Campaign, a 18/03/2013. Tradução de Isabel Gentil.

*http://socialistresistence.org/4649/scottish-independence-itll-be-the-e…
**http://www.scotland.gov.uk/Topics/Statistics/Browse/Economy/GERS/GERS20…

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