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O golpe de Kornilov

Há cem anos atrás, por que fracassou a aliança entre o General Lavr Kornilov e Alexander Kerensky? Por Paul Le Blanc.
Protesto de trabalhadores da fábrica Putilov em Petrograd durante a Revolução de Fevereiro. Foto da Wikimedia.

Houve uma época em que o general Lavr Kornilov e Alexander Kerensky eram considerados heróis da Rússia. Historiadores conservadores descrevem Kornilov como um honorável patriota e soldado profissional, enquanto historiadores liberais falam-nos sobre Kerensky, advogado idealista e eloquente, que desejava transformar a Rússia numa vibrante e democrática república. Após a abdicação do Czar Nicolau II, os dois juntaram forças – Kerensky como líder do Governo Provisório, Kornilov como comandante-chefe das forças armadas. Ambos desejavam guiar a sua nação para um futuro melhor.

Como historiadores de todas as vertentes recordam, os dois heróis romperam em agosto de 1917, preparando o terreno para a Revolução Bolchevique. Os historiadores discordam, no entanto, quanto aos acontecimentos que precipitaram a ruptura.

Segundo alguns, Kornilov planeava um golpe, que Kerensky impediu mobilizando os grupos operários e socialistas. Eles argumentam que os inescrupulosos Bolcheviques se aproveitaram da confusão e tomaram o poder. Outros dizem que Kerensky inventara o golpe para remover Kornilov, pavimentando o caminho para a vitória não desejada dos Bolcheviques. Essa interpretação merece uma pergunta: por que Kerensky enfrentaria o seu maior comandante militar e comprometer o seu próprio poder?

A resposta está no facto de Kornilov ter planeado dois golpes em 1917: um com Keresnky contra os Bolcheviques e outro contra o próprio Governo Provisório. O seu derradeiro fracasso lembra-nos que a magnitude da história da Revolução Russa não é feita por heróis, mas por forças sociais que criam o contexto no qual os indivíduos agem.

Do levante à repressão

A maioria dos leitores conhece as condições que produziram a Revolução Russa. Desde o fim do século XIX, a rígida monarquia semi-feudal vinha a combinar-se com o capitalismo moderno e industrial. Esses estranhos parceiros geraram incríveis tensões entre a maioria trabalhadora – predominantemente camponeses, mas com uma minoria dinâmica e crescente de trabalhadores industriais – e a elite – os aristocratas hereditários e os capitalistas industriais. A Primeira Guerra Mundial extrapolou essa instabilidade em proporções explosivas.

Em fevereiro, respondendo aos apelos revolucionários de vários grupos socialistas, os trabalhadores insurgiram-se em massa exigindo pão e paz. Mais profundamente, reivindicavam a total redistribuição da terra, o fim do regime autocrático, direitos iguais e melhores condições de vida.

Os democráticos conselhos de trabalhadores e soldados, organizados após o levante, refletiam esses valores. Estes sovietes não só coordenavam a revolução, mas também supervisionavam a transição política e social que o levante exigia.

Enquanto isso, tipos mais “pragmáticos” – políticos liberais, conservadores e socialistas-moderados – formaram o Governo Provisório. Os seus líderes exaltavam os operários, os camponeses e os soldados, elogiavam os sovietes, e despejavam todo o tipo de retórica democrática e populista prometendo pão, paz e terra. Mas a paz só poderia vir com a honra, o pão teria que aguardar o fim da crise e a redistribuição de terras deveria respeitar os direitos dos proprietários.

Os sovietes, inicialmente inclinados a cooperar com um governo aparentemente bem-intencionado, entretanto estabeleceram limitações destinadas a guiá-lo aos seus objetivos revolucionários originais. Keresnky, com as suas credenciais socialistas, colocou-se como a ponte entre os sovietes e o Governo Provisório, tornando-se, por fim, presidente.

Embora muitos acreditassem que Kerensky estivesse destinado a construir uma Rússia democrática, aqueles que o conheciam bem tinham as suas dúvidas. “Em Keresnky tudo era ilógico, contraditório, em constante mudança, frequentemente caprichoso, imaginado ou fingido”, escreveu o líder Socialista-Revolucionário (SR) Victor Chernov, que serviu como Ministro da Agricultura. “Kerenky”, continuou, “era atormentado pela necessidade de acreditar em si mesmo e estava sempre a ganhar ou a perder essa crença”.

Enquanto ainda dizia representar os interesses dos sovietes no Governo Provisório, Kerensky começou a posicionar-se ao lado de outros políticos da ordem contra os conselhos, que comprometiam a sua autoridade governamental.

Socialistas moderados, incluindo muitos Mencheviques e SRs, insistiram que os sovietes deveriam apoiar o Governo Provisório para estabelecer uma democracia capitalista, que viam como um longo, porém necessário, prelúdio para uma eventual transição socialista. Em contraste, os radicais Bolcheviques, liderados por Lenine, insistiram que as reivindicações das massas insurretas só poderiam ser asseguradas através de uma segunda revolução que derrubasse o Governo Provisório e desse “todo poder aos sovietes”. Isso, aliado ao alastramento da revolução para outros países, seria o rastilho para a transformação socialista.

Mais e mais trabalhadores frustrados começaram a unir-se aos Bolcheviques – até mesmo as alas de esquerda dos SR e dos Mencheviques eram convencidas pelos argumentos Bolcheviques. Leon Trotsky, um brilhante líder do ascenso revolucionário de 1905, tornou-se o mais famoso recruta dos Bolcheviques.

O ápice da raiva dos trabalhadores culminou numa marcha revolucionária em julho. Militantes em Petrogrado, apoiados, mas não comandados, pelos Bolcheviques, iniciaram o levante. A violência que se seguiu foi o pretexto para a repressão governamental. Como o militante da esquerda do SR Isaac Steinberg contou: “tropas de oficiais, estudantes, cossacos saíram às ruas, revistaram transeuntes à procura de armas e evidências de ‘bolchevismo’, cometeram atrocidades”. O Governo Provisório colocou o partido Bolchevique na ilegalidade, invadiu e destruiu os seus quartéis-generais e prendeu ou expulsou os seus líderes e militantes mais destacados.

Kornilov e Kerensky

Durante as Jornadas de Julho, Kerensky nomeou Kornilov como comandante-chefe do exército russo. Ambos esperavam reagir à pressão dos “insensatos” trabalhadores, que estavam a formar comités de fábrica para controlar os locais de trabalho e a organizar a “guarda vermelha”, grupos paramilitares para manter a ordem pública e proteger a revolução contra a violência reacionária. Tal radicalismo incomodava Kerensky, mas direitistas como o General Kornilov desprezavam tanto os radicais quanto os moderados. Políticos tradicionais – tanto liberais como conservadores – começaram a ver na ditadura militar o único caminho para estabilizar a nação.

Nas suas memórias, Kerensky cita esta mensagem de Kornilov, na qual fica claro o desprezo a todos os socialistas, mesmo os moderados:

“Tenho certeza (…) que o Governo Provisório, formado por fracos e medrosos, será derrubado. Se por algum milagre permanecerem no poder, os líderes dos Bolcheviques e dos Sovietes sairão impunes pela conivência de homens como Chernov. É hora de colocar um ponto final nisso tudo. É hora de enforcar os espiões alemães liderados por Lenine, dissolver os Sovietes, destruí-los de tal forma que jamais consigam reunir-se novamente!”

Kerensky revela: “concordei com isso, mas não tomei parte nos detalhes”. Ele acreditava que Kornilov permitiria a sua permanência como líder do Governo Provisório, mas um dos emissários do general revelou aos líderes liberais e conservadores na Duma que “tudo estava pronto nos quartéis-generais e na frente para a remoção de Kerensly”.

Ou pelo menos era o que Kerensky dizia. Há debates entre historiadores se Kornilov de facto conspirava para substituir Kerensky com uma ditadura militar. Evidências sugerem uma comédia de erros, má comunicação e mal-entendidos. A maioria concorda, no entanto, que os dois homens planeavam eliminar os Bolcheviques e destruir os sovietes.

Golpe(s) derrotado(s)

Quase no último minuto, Kerensky concluiu que estava em perigo. Afinal, com os sovietes fora do caminho, por que o general se daria ao trabalho de suportar o presidente da esquerda moderada? Enquanto Kornilov marchava com as suas tropas em direção a Petrogrado para “salvar a Rússia”, o presidente tentava desmoralizar o general e apelava à unidade das organizações operárias – incluindo os Bolcheviques, a quem garantiu total reconhecimento legal – para defender a revolução. Mais tarde, Kerensky escreveu:

“As primeiras notícias da aproximação de Kornilov tiveram o efeito de fósforo em barril de pólvora. Soldados, marinheiros e trabalhadores foram tomados por uma repentina suspeita paranóica. Viam a contrarrevolução em tudo. Em pânico ante a possibilidade de perder os direitos que haviam conquistado, libertaram o seu ódio sobre todos os generais, proprietários de terra, banqueiros e outros grupos ‘burgueses’”.

A “suspeita paranóica” que Kerensky atribui às massas insurgentes foi, na verdade, o reconhecimento da sombria realidade que viviam. “As notícias da revolta de Kornilov eletrizaram a nação e especialmente a esquerda”, lembra-se o proeminente Menchevique Raphael Abramovich. “Os Sovietes e as suas organizações afiliadas, ferroviários e algumas secções do exército, declararam-se prontas a resistir a Kornilov pela força se necessário”.

Os comités de fábrica proclamaram que “conspiradores militares, liderados pelo traidor general Kornilov e apoiados pela cegueira e falta de visão política de algumas divisões, dirigem-se ao coração da revolução – Petrogrado”. Outro apelo enfatizou que “uma terrível hora se iniciou” e exortou os trabalhadores a “virem unidos em defesa da revolução e da liberdade”, pois “a revolução e o país precisam da sua força, dos seus sacrifícios, e, talvez, das suas vidas”. O historiador Alexander Rabinowitch escreve:

“Estimulados pelas notícias do ataque de Kornilov, todas as organizações políticas à esquerda dos Cadetes [partido dos liberais, pró-capitalista], todo as organizações de trabalhadores, comités de marinheiros e soldados de todos os níveis, imediatamente se levantaram para combater Kornilov. Seria difícil encontrar, na história recente, um exemplo de ação política unificada e maioritariamente espontânea mais poderosa”.

Mas a resposta não foi inteiramente espontânea. N. N. Sukhanov, Menchevique e testemunha ocular dos acontecimentos, notou que os Bolcheviques tinham “a única organização grande e suficientemente coesa por uma disciplina elementar, ligada às mais baixas camadas democráticas da capital”. “As massas”, explicou, “na medida em que eram organizadas, eram organizadas pelos Bolcheviques”.

Apesar do partido de Lenine ter ganho apoio desde fevereiro, os insurgentes ainda se identificavam com uma variedade de correntes socialistas. Como Abramovitch explicou, “a ameaça de uma revolta contrarrevolucionária despertou e uniu toda a esquerda, incluindo os Bolcheviques, que ainda exerciam considerável influência nos Sovietes. Parecia impossível rejeitar as suas ofertas de cooperação num momento tão perigoso”. Trotsky mais tarde recordou que “os Bolcheviques propunham a frente única aos Mencheviques e Socialistas Revolucionários e criaram com eles uma organização comum de luta”. Kerensky oferece a sua própria perspectiva:

“A maioria dos líderes socialistas que estiveram na coaligação, temendo a possibilidade da vitória contrarrevolucionária e subsequentes represálias, voltaram-se aos Bolcheviques. Durante as primeiras poucas horas de histeria, em 27 de agosto, eles aclamaram os Bolcheviques e, a seu lado, prometeram ‘salvar a revolução’”.

Certamente, o sentimental Kerensky tinha encarado acusações de histeria mais de uma vez. David Francis, embaixador dos EUA na Rússia, culpou o presidente russo pelo fiasco, pois Kerensky tinha decidido não “executar como traidores Lenine e Trotsky” em julho e “falhou na conciliação com o general Kornilov, apoiando-se no Conselho de Delegados Operários e Soldados e distribuindo armas e munição para os trabalhadores de Petrogrado” em agosto.

Kerensky refletiu muitos anos depois: “Como poderia ter Lenine falhado em tomar vantagem disso?”

De facto. “Mesmo agora não devemos apoiar o governo Kerensky. Isso seria falta de escrúpulos”, Lenine enfatizou. “Lutaremos, estamos a lutar contra Kornilov, assim como as tropas de Kerensky, mas não apoiamos Kerensky. Ao contrário, expomos a sua fraqueza”. O líder Bolchevique explicou: “Agora é a hora da ação; a guerra contra Kornilov deve ser conduzida de uma maneira revolucionária, trazendo, estimulando e inflamando as massas (Kerensky tem medo das massas, tem medo do povo)”. Mobilizando-se contra as forças reacionárias sem hesitar, os Bolcheviques conquistaram mais autoridade nos sovietes e maior apoio dos trabalhadores.

Trotsky, que ajudou a administrar esses esforços práticos, mais tarde lembrou:

“Os Bolcheviques estavam nas primeiras fileiras do combate; eles derrubaram as barreiras que os separavam dos trabalhadores Mencheviques e, especialmente, dos soldados Socialistas-Revolucionários, trazendo-os consigo”.

Perante uma determinada e mobilizada classe trabalhadora, e graças a agitadores revolucionários que contataram soldados sob o comando de Kornilov, a ofensiva militar da direita desintegrou-se antes que pudesse alcançar Petrogrado. “As centenas de agitadores – trabalhadores, soldados, membros dos sovietes – que infiltraram o campo de Kornilov […] encontraram pouca resistência”, escreveu Abramovitch. As tropas de Kornilov, trabalhadores e camponeses de uniforme, responderam aos apelos dos agitadores Bolcheviques, SRs e Mencheviques de esquerda, voltando-se contra os seus oficiais e apoiando os sovietes. O golpe colapsara, deixando Kornilov sem opção a não ser se render ao Governo Provisório.

A partir do fracassado golpe de Kornilov, os Bolcheviques conquistaram decisivas maiorias nos sovietes e asseguraram um esmagador apoio entre a classe trabalhadora como um todo. Uma maioria do partido SR “rachou” à esquerda, assim como uma significante corrente Menchevique, alinhando-se a Lenine e Trotsky. Essa frente única preparou o terreno para o triunfo revolucionário de outubro.

 


Tradução de Macário para o Blog Junho.
Adaptação para português de Portugal de Mariana Carneiro para o Esquerda.net.
Artigo publicado originalmente na revista Jacobin.

 

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