O amor é inextricável, por Miguel Portas

Aceitei uma palestra sobre Os sentidos do Amor e não sabia o que dizer. Tinha feito asneira e estava desesperado. Comprei a Ana e a Maria, mergulhei na sabedoria popular e dei razão à minha amiga Joana – o amor é inextricável. Crónica de Miguel Portas de novembro de 2000, publicada no livro “E o resto é paisagem”.
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Aceitei uma palestra sobre Os sentidos do Amor e não sabia o que dizer. Tinha feito asneira e estava desesperado. Comprei a Ana e a Maria, mergulhei na sabedoria popular e dei razão à minha amiga Joana – o amor é inextricável. Crónica de Miguel Portas de novembro de 2000, publicada no livro “E o resto é paisagem”.

E-mailei eu: «Joana, salva-me, aceitei uma palestra sobre Os sentidos do Amor e não sei que diga.» Tinha feito asneira e estava desesperado. E-mailou ela: «Miguel já tens idade para saber que o amor não tem qualquer sentido». Ela tinha razão, mas não era esta a ajuda de que eu precisava. Muito menos de um passeio a livros antigos. Amor em forma de doutrina e revisão de matéria dada não casam comigo. As variantes literárias também não, acabo sempre na pieguice. Sobrava-me um recurso e foi por esse que segui. Comprei a Ana e a Maria, mergulhei na sabedoria popular e finalmente voltei a dar razão à Joana – o amor é inextricável.

* * *

Para a Ana e a Maria, o amor é destino.

Se você for do signo do Leão, na semana entre 26 de Março e 1 de Abril, aproveite: «A época é muito positiva e prática no que se refere a amor e sexo. O romantismo de uma ceia a dois ser-lhe-á insuficiente». O voo tem um único senão: «será preferível com um conhecimento já existente pois a altura não favorece novos relacionamentos».

E o amor é um acaso.

«Podemos estar a viver uma vida calma e monótona, mas no momento seguinte encontramo-nos a trocar olhares com alguém que nos faz sentir atrevidos». Tais instantes «apanham-nos desprevenidos e podem mudar o curso das nossas vidas». Aliás, «a atracção sexual é frequentemente semelhante a loucura». Porquê? Porque «duas pessoas racionais que mal se conhecem são capazes de se comprometerem para o próximo meio século». É verdade, ele há gente para tudo.

O amor é estúpido.

Edna O'Brien, escritora de desconcertante lucidez reconhece: «Tenho tendência para me sentir atraída por homens altos, magros e bonitos que são, todos, uns sacanas dissimulados.» Fica sem se perceber se é porque os opostos se atraem, ou pelo contrário.

E o amor é uma doença.

«Os apaixonados têm a sensação de se conhecerem há muitos anos.» E «é comum pensar-se que o amor jamais terá fim». De facto, não é normal. E deve ser por isso que, «devido à sua intensidade, o nosso organismo só suporta viver em estado de paixão durante três meses».

Até agora relatei amores porreiros.

* * *

Acontece que o amor é muito complicado.

Quem o jura é João Portugal, o Ricky Maertens do meu bairro. O rapaz tem muita dialéctica. Diz que «a felicidade depende do amor» e que é «extremamente feliz». Ama que se farta e é aqui que as coisas se complicam. Para uma relação demorar muito tempo, «tem que existir amor». Mas ele, apesar de feliz, acha que «o desgaste surge quando as pessoas estão todos os dias uma com a outra» e por isso prefere «uma boa fórmula para manter uma relação»: não ver a miúda três ou quatro dias por semana. Assim rende mais, mas vêem como é difícil?

E o amor é muito simples.

Sem ironia, os consultórios das duas revistas são bons. Fogem ao moralismo, aumentam a auto-estima das leitoras e ajudam-nas a pensar que são mais livres do que na realidade são. O G.L. acha que o amor é uma algibeira. Está desiludido porque «as mulheres só se aproximam por causa do dinheiro que tenho». O consultório aconselha-o a não praticar «extravagancias monetárias» e que informe as candidatas de que «nunca se casaria sem total separação de bens». A M.S., por seu lado, tem 18 anos e descobriu que uma relação nunca é a dois. Há quase sempre a família de permeio e o Espírito Santo por cima. Ela adora um rapaz de «classe social baixa» que a família, boa pois claro, detesta. O consultório não vai de meias medidas: «opte pelo que a faz mais feliz mesmo que isso implique deixar entes queridos de fora».

O amor é uma surpresa.

«Um dia a minha mulher contratou os serviços de um prostituto e fiquei surpreendido e ao mesmo tempo excitado. Agora ela quer repetir. Que devo fazer?» O consultório é lapidar: «Não existe razão alguma para o leitor aceitar um relacionamento que lhe desagrade. Fale com a sua mulher. Mas não fique apenas numa posição crítica. Mostre também as suas fantasias, procure surpreendê-la.» Tarantantan...

E o amor é um desatino.

O D.M. encontrou a sua esposa «na cama com a melhor amiga. Mais tarde, confessou estar apaixonada por ela. A verdade é que não a consigo esquecer».

Ela conseguiu e lá terá as suas razões. Por isso, o consultório diz que «é preciso respeitar, embora o leitor deva avaliar se é uma experiência passageira» E remata: «implorando e humilhando-se ninguém consegue conquistar o amor do parceiro».

Mas há mais, muito mais. Porque o amor pode ser terrível.

«Namorei mas não resultou porque lhe batia muito e era muito ciumento. Só sinto desejo sexual por prostitutas», confessa B.S.. Diagnóstico do consultório: «O leitor tem sérias dúvidas acerca das suas possibilidades. Foram elas que estragaram o seu namoro. Batia e tinha ciúmes porque não era capaz de acreditar no amor da sua namorada.» Está na altura de «pedir ajuda a um técnico especializado». Antes que alguém o ponha atrás das grades, digo eu.

* * *

Embora dirigidas a raparigas, a Ana e a Maria também destacam, com fotogramas, humilhações inversas. Em O Cravo e a Rosa, uma tal de «Dinorá provoca Cornélio que dorme no tapete... e consegue que este volte a beijar-lhe os pés... ficando satisfeita por ter conseguido domá-lo». Esta criatura promete bem mais que a Alma dos Laços de Família e anuncia a vingança das mulheres no limiar do novo milénio.

Também fiquei a saber que o amor é pudor e discrição.

«Cameron Diaz não aparecerá nua. Leto, o novo namorado da actriz, vetou a sua participação no filme Stuck Nowhere, pela existência de uma cena de nu onde apareceria ao lado do ex-namorado, Matt Dyllon. Cá na minha, a coisa ainda acaba em divórcio. Foi o que aconteceu com Dennis Quaid, que exige da ex-companheira «a custódia do filho e a módica quantia de seis milhões de dólares».

E o amor é exibição.

Na rubrica de mensagens, à «deusa do amor» deu-lhe para a literatura: «Sabes que te levo comigo e que, para onde vás, eu irei, como um anjo que me guarda e com as suas asas me aquece, como um ser apaixonado que nem de noite te esquece.» Esta é forte. Estão a ver porque rasgo tudo o que deliro escrever? Já o príncipe Carlos não tem estes problemas, até podia ser analfabeto. «Ele tudo fez para preencher com amor o vazio deixado por Diana. Tem efectuado operações de charme junto dos súbditos – ao que um rei se obriga, coitado! –, está mais humano e ri em público. Com tudo isto, conquistou bons níveis de popularidade, de tal forma que ate' o cada vez mais assumido romance com Camilla Parker-Bowles deixou de ser olhado com desconfiança pelo povo.» Mais ou menos o mesmo se passa com Martha da Noruega e Victória da Suécia: «Simpáticas e cultas, ambas fazem parte do restrito grupo das solteiras mais desejadas da Europa. Por razões óbvias.»

Esta é um pouco estranha. Porque o amor não é só dinheiro, garante uma «viúva rica» que o quer partilhar com alguém. E há outra, nos classificados, de 53 anos, disposta a receber «cavalheiro que realize pequenos e grandes trabalhos domésticos. Fornece cama e outros acessórios de lingerie». Será que o desespero do desamor só toca os simples?

* * *

Fim de viagem.

Devo dizer-vos que a Ana e a Maria, embora tributárias do amor romântico, são expressões populares de uma mudança positiva em matéria de comportamentos. Elas andam a par das telenovelas. E mil pontos acima do Big Brother. Aí, o mais recente amor é o do Gaspar pela Big. Um é cão, outro cadela e se os animais votassem quem ganhava era ela.

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Resto do dossier: 

Dossier

Alguns flashes para ajudar a compor um perfil abrangente do Miguel Portas.

Reproduzimos neste artigo um texto de José Goulão, publicado no sitedo beinternacional.

Não tinha tempo, mas continuava a preocupar-se com a vida. Teve a capacidade de construir cidades no deserto.

Tu foste daqueles raros cuja vida se resume na mais densa das frases: "25 de Abril sempre".

Quando passava por minha casa, o Miguel esticava-se no chão e eu punha a tocar a “Arte da Fuga” de J.S. Bach, no piano de Alice Adler.

O Miguel morreu (custa escrever) indecentemente cedo. Cedo demais para toda a energia que tinha e que, até ao último minuto, nunca o abandonou.

O Miguel deixou-nos na passada terça-feira, na véspera do dia comemorativo da revolução que ele ajudou a construir. Partiu um grande amigo, um camarada, cujo exemplo me iluminará o caminho.

O Miguel era um grande tradutor. E como tradutor passou a sua vida a des-hierarquizar.

Viveu connosco e nós vivemos com ele. Perdemo-lo e não o esquecemos.

O Miguel Portas tinha imenso orgulho de ter nascido no 1 de maio, dia de festa e luta. Morreu a 24 de abril, dia que já era de triste memória, sem entristecer mais nenhum dia do calendário, que devemos viver com a alegria intensa com que o Miguel viveu toda a sua vida. Texto de António Costa.

"Para o caso de isto correr mal", escreveu Miguel Portas ao escolher o Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, em Lisboa, para juntar amigos e família. O espaço foi pequeno e as portas da Sala Principal também se abriram para mais de mil pessoas assistirem às intervenções, músicas e imagens que evocaram a memória de um "sonhador incorrigível". Ver fotogaleria de Rui Palha.

Quando me confrontei com a ausência insuperável de ti, percebi que coisas houve que não cheguei a dizer-te.

E agora, Miguel? É simples: voa. Voem.

Neste 25 de abril sombrio e chuvoso em São Paulo, fui fazer uma palestra sobre a revolução portuguesa. Levei Miguel comigo, para que não me faltassem as forças.

Vídeo realizado para a sessão evocativa de Miguel Portas, com o registo de intervenções políticas do eurodeputado e fundador do Bloco de Esquerda.

Fotos de Paulete Matos. Música: "Traz um amigo também", de José Afonso, interpretada por Mário Laginha e Bernardo Sassetti ao vivo no Encontro "1001 Culturas".

Um poema de Ana Luísa Amaral sobre o 25 de Abril, à memória de Miguel Portas.

O propósito: quatro observações soltas que visam contribuir para o debate suscitado pela e sobre a Perestroika, entre aqueles que continuam a reclamar o seu lugar à esquerda e se não renderam a julgamentos apressados sobre a falência de tudo quanto cheire a comunismo e a socialismo. Artigo de Miguel Portas publicado na revista "Combate" e republicado no livro "Malhas que a Memória Tece".

Uma mensagem do Comité de Solidariedade com a Palestina, com o título “Até sempre, Miguel”, assinala: “ gostaríamos de ter trazido para a despedida de Miguel Portas um punhado da terra libertada da Palestina”, sublinhando que “poucas pessoas se têm empenhado tanto como Miguel Portas na causa dos direitos humanos, sociais e nacionais do povo palestiniano”.

O Miguel desde que nasceu que fez uma diferença grande. Agora que morreu não é preciso sequer um instante para fazer uma ideia da falta que faz. Artigo de Miguel Esteves Cardoso, publicado no jornal “Público”.

Publicamos aqui o capítulo "Palestina" do livro “No Labirinto - O Líbano entre guerras, política e religião” de Miguel Portas, publicado em 2006, numa edição da Almedina.

Várias centenas de pessoas formaram uma fila com mais de 200 metros à porta do Palácio Galveias, em Lisboa, para homenagear o eurodeputado Miguel Portas. No domingo terá lugar a sessão evocativa no Jardim de Inverno do Teatro S. Luiz, com início às 14h30.

O divórcio entre vida e política não é apenas público, começa no domínio privado. Dar o rosto tem um preço em desumanidade. Não duvidem que ela marca os políticos que temos, sem excepção. Porque o fiz, apesar do preço? Talvez porque não tivesse alternativa. Texto que Miguel Portas escreveu no final da campanha para as europeias de 1999.

A morte de Miguel Portas faz-nos recordar que também as sociedades são mortais e que só a boa política consegue prolongar a sua existência. Artigo de Viriato Soromenho-Marques, publicado no jornal “Diário de Notícias”.

Voto aprovado por unanimidade traça o perfil do eurodeputado bloquista e lembra frase da sua última entrevista: “A minha vida valeu a pena porque ajudei os outros”.

Leia aqui o prefácio e o primeiro capítulo de Périplo, o livro de Miguel Portas sobre o grande mosaico que é o Mediterrâneo.

Sendo o Bloco uma invejável confluência de várias visões, cada qual com inúmeras qualidades, julgo que ao Miguel Portas fica associada uma permanente vontade do partido se reinventar.

A cada um a sua revolução. A minha iniciou-se ainda no tempo da outra senhora, uma expressão que caiu em desuso. E coincidiu com outra, obrigatória pela lei da vida, a da passagem à adolescência. Crónica de Miguel Portas de abril de 1999, retirada no livro “E o resto é paisagem”.

Aceitei uma palestra sobre Os sentidos do Amor e não sabia o que dizer. Tinha feito asneira e estava desesperado. Comprei a Ana e a Maria, mergulhei na sabedoria popular e dei razão à minha amiga Joana – o amor é inextricável. Crónica de Miguel Portas de novembro de 2000, publicada no livro “E o resto é paisagem”.

Reproduzimos, neste artigo, algumas das mensagens sobre a morte do Miguel Portas que temos vindo a receber através do endereço eletrónico do Bloco de Esquerda. Poderá deixar-nos aqui o seu testemunho, utilizando, para esse efeito, a caixa para comentários que se encontra no final do texto.


Comentários

Incrível! Esta é a minha crónica preferida do Miguel e ainda há poucas horas, falando com um camarada e amigo comum, lhe falava desta crónica! Touché! Obrigada a quem se lembrou de a publicar aqui

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