O Miguel Portas tinha imenso orgulho de ter nascido no 1 de maio, dia de festa e luta. Morreu a 24 de abril, dia que já era de triste memória, sem entristecer mais nenhum dia do calendário, que devemos viver com a alegria intensa com que o Miguel viveu toda a sua vida. Texto de António Costa.
Foto de Paulete Matos.
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O Miguel Portas tinha imenso orgulho de ter nascido no 1 de maio, dia de festa e luta. Morreu a 24 de abril, dia que já era de triste memória, sem entristecer mais nenhum dia do calendário, que devemos viver com a alegria intensa com que o Miguel viveu toda a sua vida. Texto de António Costa.
Conheci o Miguel no Liceu. Tínhamos aquelas idades em que três anos de diferença ainda fazem toda a diferença. Preso aos 15 anos, militante comunista e dirigente do MAESL antes do 25 de Abril, ele era uma figura de referência. Ele já estava em Económicas e só frequentava o Passos Manuel como controleiro da UEC.
O PREC acabara e a bipolarização radicalizada entre os POP's que dominaram o Liceu e a direita que acabara de ganhar a Associação, abria a oportunidade para ensaiarmos uma das primeiras listas de unidade entre a UEC e a JS, sarando as feridas que a revolução abrira.
Iniciámos então uma nunca esgotada negociação, que alimentámos ao longo de todos estes anos, tantas vezes sem qualquer propósito, que não a amizade e o gosto de desafiarmos os acordos impossíveis, eu sempre o tratando provocatoriamente por Suslov e ele tratando-me carinhosamente por Bernstein.
O Miguel Portas teve sempre uma extraordinária capacidade de liderança, descobrindo talentos, mobilizando capacidades, lançando iniciativas, organizando tudo e todos, do Festival pela Paz em Tróia, às múltiplas publicações que animou, do Contraste à Vida Mundial, com uma personalidade transbordante de energia e criatividade, sempre em inevitável tensão com os limites inerentes às organizações em que militante e disciplinadamente se procurava enquadrar.
A Coligação Por Lisboa em que participou, mais como amigo pessoal do Jorge Sampaio, do que como militante do PCP, permitiu à cidade de Lisboa beneficiar do contributo do Miguel Portas, em particular na política cultural, sendo grandes marcas que perduram o modelo de Festas da Cidade e o pavilhão multiusos/rockódromo porque se bateu desde a elaboração do programa de candidatura e que aí está como Pavilhão Atlântico.
Na política, pelo menos, o Miguel foi sempre um sedutor e namorador inveterado. Na primeira metade da década de 90, namorámos bastante. O muro caíra, o PCP abria brechas, o PS revolvia-se em disputas internas, o cavaquismo exigia uma alternativa e era clara a necessidade da recomposição orgânica da esquerda. Ele teve esperança que uma dissidência no PS pudesse fortalecer uma nova força a nascer à esquerda. Eu, que uma nova corrente fortalecesse a diversidade do PS como alternativa. Esvaziámos uns maços de cigarros, bebemos bons copos, comemos muito couscous no Mercatudo, ficámos mais amigos, mas cada um ficou na sua esquerda. Tudo visto havia espaço para o PS se fortalecer e para a Politica XXI, primeiro, e o Bloco, depois, nascerem. E nós sempre podíamos prosseguir a nossa negociação. Poderia até ser uma oportunidade para um novo relacionamento nas esquerdas. Pôde muito menos do que poderia, mas pôde em -poucos- mas importantes momentos como os referendos da descriminalização da IVG ou a oposição à participação de Portugal na invasão do Iraque.
Logo a seguir à primeira operação do Miguel juntámo-nos, a "malta do Passos", num jantar no restaurante do Américo. O Henrique não pôde ir. Mas estiveram o Licas, o Toy, o Farinha, o Mira, a Isabel... Vários. O Miguel teve de sair cedo. Havia um comício onde tinha de ir falar. Ficámos aliviados. Nem a doença, nem a cura mudaram o Miguel Portas. A luta continua, a vida só merece ser vivida com paixão, mesmo que a paixão consuma a vida.
Faltou-nos o tempo. Encontrámo-nos fugazmente em Bruxelas quando o Comité das Regiões não coincidia com a semana de Estrasburgo ou uma missão do Miguel Portas a alguma Palestina; trocámos informações sobre a evolução da doença de um amigo comum, também do Passos e também em Bruxelas, que nos deixou entretanto; jantámos juntos, com tempo, há alguns meses, talvez um ano, com a Marisa ao pé da Place Flagée. Foi muito bom. No fim apanhámos o mesmo táxi e deixei-os à porta de casa. "Liga da próxima vez que vieres". "Claro ou diz alguma coisa quando fores a Lisboa". "Combinado." Segui.
Na última terça-feira de manhã, o Francisco Louçã alertou-me. Ainda enviei um SMS ao Miguel. Como sempre, assinei Bernstein. A negociação que iniciáramos em 1977 não teve continuidade. Desta vez o Suslov não respondeu. Fica para sempre a amizade. No fundo, o que é mais importante.
O Miguel Portas tinha imenso orgulho de ter nascido no 1 de maio, dia de festa e luta. Morreu a 24 de abril, dia que já era de triste memória, sem entristecer mais nenhum dia do calendário, que devemos viver com a alegria intensa com que o Miguel viveu toda a sua vida.
Á Helena e ao Nuno, à Catarina e ao Paulo, ao André e ao Frederico, a todas as famílias Portas, um grande abraço e muito obrigado por tão generosamente terem partilhado connosco o Miguel.
Resto do dossier:
Alguns flashes para ajudar a compor um perfil abrangente do Miguel Portas.
Reproduzimos neste artigo um texto de José Goulão, publicado no sitedo beinternacional.
Não tinha tempo, mas continuava a preocupar-se com a vida. Teve a capacidade de construir cidades no deserto.
Tu foste daqueles raros cuja vida se resume na mais densa das frases: "25 de Abril sempre".
Quando passava por minha casa, o Miguel esticava-se no chão e eu punha a tocar a “Arte da Fuga” de J.S. Bach, no piano de Alice Adler.
O Miguel morreu (custa escrever) indecentemente cedo. Cedo demais para toda a energia que tinha e que, até ao último minuto, nunca o abandonou.
O Miguel deixou-nos na passada terça-feira, na véspera do dia comemorativo da revolução que ele ajudou a construir. Partiu um grande amigo, um camarada, cujo exemplo me iluminará o caminho.
O Miguel era um grande tradutor. E como tradutor passou a sua vida a des-hierarquizar.
Viveu connosco e nós vivemos com ele. Perdemo-lo e não o esquecemos.
O Miguel Portas tinha imenso orgulho de ter nascido no 1 de maio, dia de festa e luta. Morreu a 24 de abril, dia que já era de triste memória, sem entristecer mais nenhum dia do calendário, que devemos viver com a alegria intensa com que o Miguel viveu toda a sua vida. Texto de António Costa.
"Para o caso de isto correr mal", escreveu Miguel Portas ao escolher o Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, em Lisboa, para juntar amigos e família. O espaço foi pequeno e as portas da Sala Principal também se abriram para mais de mil pessoas assistirem às intervenções, músicas e imagens que evocaram a memória de um "sonhador incorrigível". Ver fotogaleria de Rui Palha.
Quando me confrontei com a ausência insuperável de ti, percebi que coisas houve que não cheguei a dizer-te.
E agora, Miguel? É simples: voa. Voem.
Neste 25 de abril sombrio e chuvoso em São Paulo, fui fazer uma palestra sobre a revolução portuguesa. Levei Miguel comigo, para que não me faltassem as forças.
Vídeo realizado para a sessão evocativa de Miguel Portas, com o registo de intervenções políticas do eurodeputado e fundador do Bloco de Esquerda.
Fotos de Paulete Matos. Música: "Traz um amigo também", de José Afonso, interpretada por Mário Laginha e Bernardo Sassetti ao vivo no Encontro "1001 Culturas".
Um poema de Ana Luísa Amaral sobre o 25 de Abril, à memória de Miguel Portas.
O propósito: quatro observações soltas que visam contribuir para o debate suscitado pela e sobre a Perestroika, entre aqueles que continuam a reclamar o seu lugar à esquerda e se não renderam a julgamentos apressados sobre a falência de tudo quanto cheire a comunismo e a socialismo. Artigo de Miguel Portas publicado na revista "Combate" e republicado no livro "Malhas que a Memória Tece".
Uma mensagem do Comité de Solidariedade com a Palestina, com o título “Até sempre, Miguel”, assinala: “ gostaríamos de ter trazido para a despedida de Miguel Portas um punhado da terra libertada da Palestina”, sublinhando que “poucas pessoas se têm empenhado tanto como Miguel Portas na causa dos direitos humanos, sociais e nacionais do povo palestiniano”.
O Miguel desde que nasceu que fez uma diferença grande. Agora que morreu não é preciso sequer um instante para fazer uma ideia da falta que faz. Artigo de Miguel Esteves Cardoso, publicado no jornal “Público”.
Publicamos aqui o capítulo "Palestina" do livro “No Labirinto - O Líbano entre guerras, política e religião” de Miguel Portas, publicado em 2006, numa edição da Almedina.
Várias centenas de pessoas formaram uma fila com mais de 200 metros à porta do Palácio Galveias, em Lisboa, para homenagear o eurodeputado Miguel Portas. No domingo terá lugar a sessão evocativa no Jardim de Inverno do Teatro S. Luiz, com início às 14h30.
O divórcio entre vida e política não é apenas público, começa no domínio privado. Dar o rosto tem um preço em desumanidade. Não duvidem que ela marca os políticos que temos, sem excepção. Porque o fiz, apesar do preço? Talvez porque não tivesse alternativa. Texto que Miguel Portas escreveu no final da campanha para as europeias de 1999.
A morte de Miguel Portas faz-nos recordar que também as sociedades são mortais e que só a boa política consegue prolongar a sua existência. Artigo de Viriato Soromenho-Marques, publicado no jornal “Diário de Notícias”.
Voto aprovado por unanimidade traça o perfil do eurodeputado bloquista e lembra frase da sua última entrevista: “A minha vida valeu a pena porque ajudei os outros”.
Leia aqui o prefácio e o primeiro capítulo de Périplo, o livro de Miguel Portas sobre o grande mosaico que é o Mediterrâneo.
Sendo o Bloco uma invejável confluência de várias visões, cada qual com inúmeras qualidades, julgo que ao Miguel Portas fica associada uma permanente vontade do partido se reinventar.
A cada um a sua revolução. A minha iniciou-se ainda no tempo da outra senhora, uma expressão que caiu em desuso. E coincidiu com outra, obrigatória pela lei da vida, a da passagem à adolescência. Crónica de Miguel Portas de abril de 1999, retirada no livro “E o resto é paisagem”.
Aceitei uma palestra sobre Os sentidos do Amor e não sabia o que dizer. Tinha feito asneira e estava desesperado. Comprei a Ana e a Maria, mergulhei na sabedoria popular e dei razão à minha amiga Joana – o amor é inextricável. Crónica de Miguel Portas de novembro de 2000, publicada no livro “E o resto é paisagem”.
Reproduzimos, neste artigo, algumas das mensagens sobre a morte do Miguel Portas que temos vindo a receber através do endereço eletrónico do Bloco de Esquerda. Poderá deixar-nos aqui o seu testemunho, utilizando, para esse efeito, a caixa para comentários que se encontra no final do texto.
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