Tu foste daqueles raros cuja vida se resume na mais densa das frases: "25 de Abril sempre".
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Tu foste daqueles raros cuja vida se resume na mais densa das frases: "25 de Abril sempre".
Miguel, disseste aqui há tempos que "o meu único objetivo de vida é modestíssimo: não faço a menor ideia se aquilo que eu defendo vai fazer caminho ou não. O socialismo ou o comunismo não são nenhum destino. Não está nada escrito. Mas há uma coisa que sei. Ao chegar ao fim da vida, quero poder olhar para trás e dizer: terei feito algumas asneiras, mas no conjunto posso partir, lá para onde for, com tranquilidade."
Tenho andado a pensar nisto desde terça-feira. Tens razão: não está nada escrito e não há destino traçado para os nossos caminhos. Como dizia um poeta que tu e eu gostamos, "Pelo sonho é que vamos, comovidos e mudos. Chegamos? Não chegamos? Partimos. Vamos. Somos." A única coisa que nos proibimos a nós mesmos é o cinismo, é ou não? Foi isso que aprendi de ti: saborear o risco do erro nos ensaios para mudar a vida que fazemos de mão dada com os impuros é sempre melhor que a quietude de quem não se arrisca senão a calcular a bissetriz das certezas frias próprias das seitas que, de tão puras se quererem, desistem de mudar. Há demasiadas vidas sofridas, de pessoas concretas, marcadas pela discriminação, pela exclusão, pela desumanidade. E diante delas, é-nos exigido que nos ponhamos ao caminho, olhos postos na decência para todos. E na liberdade, sempre na liberdade.
Sim, Miguel, o que tu e eu queremos para nós e para todos é a vida em abundância. Aquela que se aprende com o tesouro que é a diversidade do mundo, não pelas fotografias da National Geographic ou pelas notícias da CNN, mas indo lá, a Gaza, a Lampedusa, a Beirute sentir o cheiro das ruas, ouvir a sabedoria das gentes e contrapor a densidade da História às receitas padronizadas do "pronto a impor" político e económico.
É por causa desse culto da ignorância que este Abril é de inverno e chove desapiedadamente nas nossas vidas. Aqui, em Atenas, em Madrid, em Bruxelas. A coisa tem nomes vários. É ofensiva do capital, pois claro. É ofensiva do liberalismo, óbvio. É ofensiva antieuropeia, disseste-nos tu que amavas a Europa como espaço de combate pela afirmação dos direitos e da justiça na economia em escala transnacional. Eu digo-te: é ofensiva da tristeza. Da formatação de modos de vida acabrunhados e cinzentos, em que a competição é lei e o cuidado com os outros é remetido das políticas para o campo ocasional dos bons sentimentos. Acho que tu estarias de acordo comigo nisto: foi contra essa tristeza funda e institucionalizada que lutaste desde puto. Nas revoluções quotidianas que fazias no Passos Manuel, em Económicas ou onde fosse, era isso que te motivava, eu sei. Chamavas-lhe outras coisas, mas, disseste-mo tu sem mo dizeres, era uma luta contra a tristeza que sentias necessidade de não parar nunca de fazer. Isso é o nosso Abril e tu foste daqueles raros cuja vida se resume na mais densa das frases: "25 de Abril sempre".
Dos teus muitos traços eu guardo o teu sorriso, com aqueles olhos pequeninos e semicerrados. Nos momentos mais tensos da luta política, tu desarmavas-me mais com esse sorriso do que com a inteligência fina com que reinventavas discursos e teses. Aprendi muito contigo, Miguel. Talvez o mais importante tenha sido viver a política com amor mas sempre com prazer. Porque é missão mas não pode ser sacrifício. O teu sorriso tinha a marca dessa sabedoria.
Disseste a uma amiga nossa "a minha vida valeu a pena, no sentido em que foi interessante para outros". Foi. Muito. Eu agradeço-te isso. E mando-te um abraço com carinho.
Artigo publicado no jornal “Diário de Notícias” de 27 de abril de 2012
Resto do dossier:
Alguns flashes para ajudar a compor um perfil abrangente do Miguel Portas.
Reproduzimos neste artigo um texto de José Goulão, publicado no sitedo beinternacional.
Não tinha tempo, mas continuava a preocupar-se com a vida. Teve a capacidade de construir cidades no deserto.
Tu foste daqueles raros cuja vida se resume na mais densa das frases: "25 de Abril sempre".
Quando passava por minha casa, o Miguel esticava-se no chão e eu punha a tocar a “Arte da Fuga” de J.S. Bach, no piano de Alice Adler.
O Miguel morreu (custa escrever) indecentemente cedo. Cedo demais para toda a energia que tinha e que, até ao último minuto, nunca o abandonou.
O Miguel deixou-nos na passada terça-feira, na véspera do dia comemorativo da revolução que ele ajudou a construir. Partiu um grande amigo, um camarada, cujo exemplo me iluminará o caminho.
O Miguel era um grande tradutor. E como tradutor passou a sua vida a des-hierarquizar.
Viveu connosco e nós vivemos com ele. Perdemo-lo e não o esquecemos.
O Miguel Portas tinha imenso orgulho de ter nascido no 1 de maio, dia de festa e luta. Morreu a 24 de abril, dia que já era de triste memória, sem entristecer mais nenhum dia do calendário, que devemos viver com a alegria intensa com que o Miguel viveu toda a sua vida. Texto de António Costa.
"Para o caso de isto correr mal", escreveu Miguel Portas ao escolher o Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, em Lisboa, para juntar amigos e família. O espaço foi pequeno e as portas da Sala Principal também se abriram para mais de mil pessoas assistirem às intervenções, músicas e imagens que evocaram a memória de um "sonhador incorrigível". Ver fotogaleria de Rui Palha.
Quando me confrontei com a ausência insuperável de ti, percebi que coisas houve que não cheguei a dizer-te.
E agora, Miguel? É simples: voa. Voem.
Neste 25 de abril sombrio e chuvoso em São Paulo, fui fazer uma palestra sobre a revolução portuguesa. Levei Miguel comigo, para que não me faltassem as forças.
Vídeo realizado para a sessão evocativa de Miguel Portas, com o registo de intervenções políticas do eurodeputado e fundador do Bloco de Esquerda.
Fotos de Paulete Matos. Música: "Traz um amigo também", de José Afonso, interpretada por Mário Laginha e Bernardo Sassetti ao vivo no Encontro "1001 Culturas".
Um poema de Ana Luísa Amaral sobre o 25 de Abril, à memória de Miguel Portas.
O propósito: quatro observações soltas que visam contribuir para o debate suscitado pela e sobre a Perestroika, entre aqueles que continuam a reclamar o seu lugar à esquerda e se não renderam a julgamentos apressados sobre a falência de tudo quanto cheire a comunismo e a socialismo. Artigo de Miguel Portas publicado na revista "Combate" e republicado no livro "Malhas que a Memória Tece".
Uma mensagem do Comité de Solidariedade com a Palestina, com o título “Até sempre, Miguel”, assinala: “ gostaríamos de ter trazido para a despedida de Miguel Portas um punhado da terra libertada da Palestina”, sublinhando que “poucas pessoas se têm empenhado tanto como Miguel Portas na causa dos direitos humanos, sociais e nacionais do povo palestiniano”.
O Miguel desde que nasceu que fez uma diferença grande. Agora que morreu não é preciso sequer um instante para fazer uma ideia da falta que faz. Artigo de Miguel Esteves Cardoso, publicado no jornal “Público”.
Publicamos aqui o capítulo "Palestina" do livro “No Labirinto - O Líbano entre guerras, política e religião” de Miguel Portas, publicado em 2006, numa edição da Almedina.
Várias centenas de pessoas formaram uma fila com mais de 200 metros à porta do Palácio Galveias, em Lisboa, para homenagear o eurodeputado Miguel Portas. No domingo terá lugar a sessão evocativa no Jardim de Inverno do Teatro S. Luiz, com início às 14h30.
O divórcio entre vida e política não é apenas público, começa no domínio privado. Dar o rosto tem um preço em desumanidade. Não duvidem que ela marca os políticos que temos, sem excepção. Porque o fiz, apesar do preço? Talvez porque não tivesse alternativa. Texto que Miguel Portas escreveu no final da campanha para as europeias de 1999.
A morte de Miguel Portas faz-nos recordar que também as sociedades são mortais e que só a boa política consegue prolongar a sua existência. Artigo de Viriato Soromenho-Marques, publicado no jornal “Diário de Notícias”.
Voto aprovado por unanimidade traça o perfil do eurodeputado bloquista e lembra frase da sua última entrevista: “A minha vida valeu a pena porque ajudei os outros”.
Leia aqui o prefácio e o primeiro capítulo de Périplo, o livro de Miguel Portas sobre o grande mosaico que é o Mediterrâneo.
Sendo o Bloco uma invejável confluência de várias visões, cada qual com inúmeras qualidades, julgo que ao Miguel Portas fica associada uma permanente vontade do partido se reinventar.
A cada um a sua revolução. A minha iniciou-se ainda no tempo da outra senhora, uma expressão que caiu em desuso. E coincidiu com outra, obrigatória pela lei da vida, a da passagem à adolescência. Crónica de Miguel Portas de abril de 1999, retirada no livro “E o resto é paisagem”.
Aceitei uma palestra sobre Os sentidos do Amor e não sabia o que dizer. Tinha feito asneira e estava desesperado. Comprei a Ana e a Maria, mergulhei na sabedoria popular e dei razão à minha amiga Joana – o amor é inextricável. Crónica de Miguel Portas de novembro de 2000, publicada no livro “E o resto é paisagem”.
Reproduzimos, neste artigo, algumas das mensagens sobre a morte do Miguel Portas que temos vindo a receber através do endereço eletrónico do Bloco de Esquerda. Poderá deixar-nos aqui o seu testemunho, utilizando, para esse efeito, a caixa para comentários que se encontra no final do texto.
Sobre o/a autor/a
Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
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