Mulheres com crianças, muitos reformados, poucos jovens. A selecção grega acaba de perder com a da República Checa e a noite cai sobre o jardim central de um subúrbio de Atenas - Kamatero. Num comício de bairro, uma carrinha carregada de polícias parece um exagero. O aparato surpreende a própria Rena Dourou, deputada do Syriza cuja presença é a justificação dada pelo comandante. Há uma semana, Rena foi atacada por um nazi do partido Aurora Dourada em directo na televisão. Antes de fugir do estúdio, o gangster ainda bateu numa deputada comunista e, desde então, anda a monte. Mas no jardim de Kamatero, os apoiantes do Syriza e a polícia olham-se com distância. Um estudo de opinião recente indica que, nas eleições do início de Maio, o partido nazi foi o mais votado entre os membros das forças especiais e de choque, muito aumentadas em número pelo Pasok nos últimos anos.
Em Kamatero, na terça-feira à noite, fiz uma curta intervenção. Referi-me à "bola de cristal" grega, onde a devastação causada pelo governo da troika tem antecipado (com um ano de avanço) a realidade de Portugal. E informei sobre o apoio manifestado ao Syriza por muita gente - das artes, das universidades, da luta social - no apelo de solidariedade com o povo grego. Nas eleições do próximo domingo, na possibilidade de um governo de esquerda, joga-se "a esperança da Europa", como diz o pano do Syriza no comício.
Na quarta-feira, participei numa assembleia de rua organizada pelo Syriza em Petralonas, bastião ateniense da resistência contra a ocupação nazi. Em 6 de Maio, o Syriza ultrapassou aqui os 20%. Abrem-se sorrisos de simpatia ao anúncio da intervenção de um militante do Bloco de Esquerda português. Desde as últimas eleições, o Syriza realizou em todo o país cerca de 300 assembleias como esta, microfone aberto, perguntas, respostas e muitas opiniões fortes de gente empobrecida. Tomam a palavra velhos e jovens militantes do grande mosaico anti-capitalista grego, mas também muita gente que pela primeira vez se sente representada à esquerda, pelo único partido que propõe um governo de ruptura com a troika. Depois da minha saudação, a intervenção de abertura coube a Zoi Konstantinopoulou, a candidata que se destacou em 2008 como advogada da família de Alexis, o jovem de 15 anos assassinado por dois polícias no bairro de Exharquia, desencadeando uma onda de revolta durante semanas nas ruas de Atenas. A sentença exemplar aplicada aos autores do crime contrastou com a tradição de impunidade policial.
Depois de Zoi, um vendedor de lotarias inscreve-se para perguntar como vai o Syriza conseguir recuperar o dinheiro da corrupção escondido na Suíça; segue-se uma senhora lembra as vantagens do clima grego para o turismo e as energias renováveis; um desempregado que votou pela primeira vez no Syriza em Maio passado quer saber como se vai resolver o problema da imigração. Esta questão é central no debate eleitoral e corresponde a um verdadeiro problema, desde que a assinatura do tratado de Dublin II transformou a Grécia num autêntico campo de concentração para onde são recambiadas centenas de milhar de pessoas que entraram ilegalmente no território da União através das fronteiras gregas. Ao trauma social que a intervenção da troika causa no país, a União Europeia soma a desgraça humanitária destes imigrantes, fugidos de países em guerra e forçados a viver numa Grécia que não escolheram, mergulhada na crise, punida pela sua situação geográfica de "porta de entrada" e sem qualquer apoio dos restantes países da União Europeia, que recusam receber quem os procura para sobreviver. A centralidade do tema alimenta a demagogia da Nova Democracia e a violência dos gangs nazis, que resultou já em diversas mortes.
Na noite de hoje, quinta-feira, a campanha terá o seu momento alto, com o comício na praça Omonia. Estão previstas apenas as intervenções de Alexis Tsipras e de Sophia Sakorafa, a deputada expulsa do Pasok em 2010 por votar contra o primeiro memorando e entrevistada pelo Esquerda.net há um ano. Estarão também presentes vários representantes da esquerda europeia, entre eles Francisco Louçã. Poderá ser o maior comício eleitoral da história da esquerda grega. A divulgação de sondagens está proibida durante o período oficial de campanha, mas as últimas a serem divulgadas, há uma semana, apontavam para um resultado do Syriza na ordem dos 30%, com possibilidade de vitória. Neste caso, o apelo de Tsipras à esquerda será testado. O Partido Comunista Grego (KKE), abertamente estalinista e ultra-sectário, já respondeu - o partido teoriza a inviabilidade de qualquer forma de governo patriótico e de esquerda sem uma revolução que o anteceda. Faz cartazes com o slogan "Não confiem no Syriza" e, mesmo perante a campanha de terror e chantagem que ameaça com o abismo em caso de vitória do Syriza, a porta-voz do KKE não hesita em afirmar que o governo de esquerda proposto por Tsipras é o projecto predilecto da burguesia industrial, etc... Por outro lado, a Esquerda Democrática, de Fatis Kouvelis, tenta agregar eleitorado de um Pasok em queda livre e aposta na ambiguidade. Se a direita ganhar sem maioria? "A Grécia não pode ficar sem governo". E se o Syriza precisar da Esquerda Democrática para romper com o memorando da troika? O mandato maioritário teria que sujeitar-se à "renegociação faseada da austeridade" defendida por Kouvelis. Em caso de vitória sem uma improvável maioria absoluta, formar uma maioria parlamentar não será coisa simples.
Numa conferência de imprensa na terça-feira, ao longo de três horas, Alexis Tsipras frisou por várias vezes que um governo de esquerda só pode sobreviver e realizar o seu programa apoiado numa permanente mobilização da maioria da sociedade. E que, além disso, conta com o efeito europeu de uma vitória da esquerda na Grécia - uma urgente primavera continental, capaz de mudar a relação de forças a partir da periferia e quebrar as políticas da austeridade. Tsipras não promete facilidades para amanhã, nem para depois de amanhã. Quem acompanha o noticiário deste portal sobre a situação grega, conhece o essencial da proposta política do Syriza e isso basta para compreender que nem Angela Merkel, nem a elite económica grega, nem as clientelas suas protegidas, ninguém fará fácil a vida de um governo de esquerda na Grécia. Mas estaria o Syriza preparado para uma vitória agora? Vinda de vários dirigentes com quem falei, a resposta é essencialmente a mesma: perante a situação extrema do país, poderia haver quem pensasse que o melhor seria perder por pouco e acumular forças para mais adiante. Esses estariam errados: um governo de esquerda deve existir agora porque depois pode ser tarde demais. Hoje, é certo, muita gente passa frio no inverno porque já não pode pagar a energia do aquecimento. Mas a maioria da população ainda não passou fome. Isto pode alterar-se rapidamente - diz-nos um dirigente do Syriza - porque a continuação da austeridade, mesmo suavizada, é uma garantia de bancarrota e fome, de declínio social com risco de violência generalizada. Nessa altura tudo será mais difícil para a esquerda e mais fácil para as milícias da extrema-direita.
Nos próximos dias, haverá mais notas de Atenas neste portal.
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