Miguel Portas 1958-2012

Reproduzimos neste artigo um texto de José Goulão, publicado no site do beinternacional.
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Reproduzimos neste artigo um texto de José Goulão, publicado no site do beinternacional.

“Miguel Portas partiu, deixou-nos fisicamente. Com base nesta constatação que, mais dia menos dia, é válida para todos nós, podem escrever-se torrentes de lugares comuns. Não sei se é possível escapar a todos eles, provavelmente não, desculpa Miguel porque tenho o privilégio de saber que a tua área era outra, a das ideias frescas, criativas, mas a escrita é traiçoeira, escorregadia, ambos aprendemos isso no labor das palavras que talhaste no teu périplo pela vida. Essa vida que amavas, que te divertia, que desbravavas, que vasculhavas para construir pontes, pensar rumos, universalizar o humanismo que sintetizava a tua maneira de agir. Talvez seja um atrevimento, eventualmente um abuso de confiança usar este tom neste espaço que é invenção tua e me entregaste, como um dia fizeste com o efémero renascimento da Vida Mundial, mas se não estiveres de acordo haveremos certamente de dirimir um dia estas divergências, como dirimimos outras:

 

O Miguel era um combatente. Nasceu num dia de combate, o Primeiro de Maio de um ano marcante, o da desafiadora candidatura de Humberto Delgado. Partiu num dia de ressonâncias negativas, antes de soarem os acordes de "Grândola Vila Morena", um dia que simbolicamente nos remete para a negritude de um longo passado. Não vou fazer das coincidências História, apenas realçar em Miguel Portas um carácter que faz convergir dois traços quantas vezes considerados abusivamente paralelos: democracia e transformação/revolução.

Miguel era um democrata. As suas ideias nunca estavam acabadas, não por serem volúveis mas porque o mundo não para de se transformar , mesmo que pareça encaminhar-se sem retorno por vias capazes de fazer duvidar o mais optimista. Um democrata teimoso, é verdade, convicto das suas opções, colocado na esquerda do espectro social e político mas nunca deixando de prescrutar o mundo, de ter dúvidas. A única dúvida que ele não tinha é de que estava ao lado dos que são vítimas das injustiças de um sistema injusto, das prepotências de um sistema arrogante, das insensibilidades de um sistema desumano. Contra isso, o Miguel combatia mesmo sabendo que, por exemplo no Parlamento Europeu, o fazia contra moinhos de vento, contra a esmagadora maioria dos que tudo sabem, dos que não têm dúvidas e jamais se enganam porque é fácil mandar escondendo-se no anonimato do poder do dinheiro. Mesmo assim combatia, incomodava, agitava consciências, entusiasmava-se com os votos e os apoios que encontrava noutras áreas. Porque o Miguel aglutinava, tentava unir, sabia que maré cheia concentra mais energia para a mudança. O Miguel era um combatente maduro e um jovem eterno dotado de uma ingenuidade contagiante – que o fazia partir todos os dias com energia renovada para cada novo combate.

Miguel era um revolucionário. Exactamente, não me enganei na palavra, um revolucionário. Só receia a revolução em nome da justiça social quem sente que tem privilégios abusivos a defender. O Miguel estava generosamente ao lado dos que não têm privilégios a defender, dos que têm direitos a haver. Ele queria uma esquerda grande, plural, imaginativa capaz de gerar as forças necessárias para a mudança, para a revolução. Uma revolução das pessoas contra os privilégios, contra a corrupção, contra o abuso de confiança, contra a prepotência. Uma revolução humanista, que põe os interesses das pessoas acima do valor facial do dinheiro e das roletas da especulação. O Miguel batia-se pelos direitos humanos, ponto. Não pelos direitos humanos "convenientes" esquecendo os "inconvenientes".

Nem sempre estivemos do mesmo lado, embora sempre à esquerda. E depois? Não deixámos de ter discussões exaustivas, eventualmente inconclusivas, nunca deixámos, contudo, de confiar na indubitável lealdade mútua, de acreditar, de ter a certeza do sítio onde estava a barricada comum dos nossos projectos, dos nossos desafios comuns, quantas vezes travados quase sem nos contactarmos dias e dias a fio, tal o frenesim com que ele vivia a vida – e mesmo depois de diagnosticada a cruel doença que ele, como sempre fazia em todas as circunstâncias, olhou bem de frente e combateu enquanto teve forças.

Agora, Miguel, desculpa o que pode parecer-te um lugar comum mas para mim não é: a esquerda portuguesa e europeia perdeu uma figura determinante, porque esforçadamente aglutinadora, tolerante, construtiva – mesmo teimosa, ou talvez convicta, escolhendo melhor o adjectivo.

Não me compete, nem quero porque será uma tarefa sempre inacabada, fazer uma lista dos resultados de uma carreira política a que tu, jornalista de origem e economista de formação, te dedicaste porque, honra te seja feita, gostavas de "fazer política" e sabias "fazer política". É curioso como isto soa depois de escrito... através de ti é uma restauração da dignidade e da grandeza de uma actividade que outros, poderosos e impunes, se entretêm a desacreditar segundo após segundo.

Essa tua aptidão inata, a de "fazer política", vivi-a em várias ocasiões. Assistindo discretamente ao nascimento do Bloco de Esquerda enquanto produzíamos em comum a Vida Mundial; e acompanhando nestes quase três anos o teu segundo mandato no Parlamento Europeu, casa hostil à esquerda onde te tornaste respeitado e também incómodo, sobretudo quando combateste privilégios obscenos de uma casta que tripudia sobre o sofrimento de milhões de europeus. Sempre te admirei esse talento para a política, sobretudo por praticares a verdadeira arte, aparentemente em extinção, que é a de transformar frontalmente ideias em acção, sem precisares de chicanas nem batotas. Ao teu lado, nunca perdidos na bancada parlamentar, apesar da sua imensidão, esteve sempre a magnífica Marisa Matias, mulher generosa, valente, incansável, tolerante em dimensões que transvasam muito para lá das incidências directas do Parlamento Europeu. Obrigado também por essa aposta ganha pela esquerda na Europa.

Num dia de 2009 que não sei precisar desafiaste-me para integrar a lista do Bloco para as eleições europeias. Eu, independente de esquerda assumido há muitos anos me confesso: só tu conseguirias convencer-me a aceitar. Desse processo e da tua cabeça em permanente actividade nasceu este projecto informativo. Sei que não é o que ambos desejávamos, porque está aquém das nossas ambições comuns, mas deixa-me que registe que me permitiu testemunhar o trabalho de dois eurodeputados de que o Bloco de Esquerda e Portugal – porque não? – se podem orgulhar.

É muito difícil, Miguel, conviver com esta ideia de que partiste e que daqui a algumas horas não poderemos estar em discussão acesa sobre qualquer incidência mundial, quem sabe a segunda volta das eleições francesas.

Claro que a memória, o convívio e, sobretudo, uma amizade daquelas que parecem caídas em desuso formam um património que me permite estar a ouvir-te contrapor do outro lado das minhas reflexões. Mas ficará sempre a faltar o teu toque imprevisível, criativo, em cada argumentação. Levaste esse talento contigo e reconheço que o fizeste com toda a legitimidade. A individualidade do teu contributo é uma diferença que poderá inspirar-nos, e aos que atrás de nós vierem, a criar e sustentar uma esquerda capaz de revolucionar o mundo. Cada um de nós, naquilo que nos distingue, é essencial para a grande maré.

Sem ti, estaríamos bem mais longe dessa meta, que, como muito bem dizias, não é um destino traçado mas um objectivo que depende de nós e da capacidade de lutarmos por ele.

Um abraço, Miguel

Bruxelas, 25 de Abril de 2012”

Main Image: 
Resto do dossier: 

Dossier

Alguns flashes para ajudar a compor um perfil abrangente do Miguel Portas.

Reproduzimos neste artigo um texto de José Goulão, publicado no sitedo beinternacional.

Não tinha tempo, mas continuava a preocupar-se com a vida. Teve a capacidade de construir cidades no deserto.

Tu foste daqueles raros cuja vida se resume na mais densa das frases: "25 de Abril sempre".

Quando passava por minha casa, o Miguel esticava-se no chão e eu punha a tocar a “Arte da Fuga” de J.S. Bach, no piano de Alice Adler.

O Miguel morreu (custa escrever) indecentemente cedo. Cedo demais para toda a energia que tinha e que, até ao último minuto, nunca o abandonou.

O Miguel deixou-nos na passada terça-feira, na véspera do dia comemorativo da revolução que ele ajudou a construir. Partiu um grande amigo, um camarada, cujo exemplo me iluminará o caminho.

O Miguel era um grande tradutor. E como tradutor passou a sua vida a des-hierarquizar.

Viveu connosco e nós vivemos com ele. Perdemo-lo e não o esquecemos.

O Miguel Portas tinha imenso orgulho de ter nascido no 1 de maio, dia de festa e luta. Morreu a 24 de abril, dia que já era de triste memória, sem entristecer mais nenhum dia do calendário, que devemos viver com a alegria intensa com que o Miguel viveu toda a sua vida. Texto de António Costa.

"Para o caso de isto correr mal", escreveu Miguel Portas ao escolher o Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, em Lisboa, para juntar amigos e família. O espaço foi pequeno e as portas da Sala Principal também se abriram para mais de mil pessoas assistirem às intervenções, músicas e imagens que evocaram a memória de um "sonhador incorrigível". Ver fotogaleria de Rui Palha.

Quando me confrontei com a ausência insuperável de ti, percebi que coisas houve que não cheguei a dizer-te.

E agora, Miguel? É simples: voa. Voem.

Neste 25 de abril sombrio e chuvoso em São Paulo, fui fazer uma palestra sobre a revolução portuguesa. Levei Miguel comigo, para que não me faltassem as forças.

Vídeo realizado para a sessão evocativa de Miguel Portas, com o registo de intervenções políticas do eurodeputado e fundador do Bloco de Esquerda.

Fotos de Paulete Matos. Música: "Traz um amigo também", de José Afonso, interpretada por Mário Laginha e Bernardo Sassetti ao vivo no Encontro "1001 Culturas".

Um poema de Ana Luísa Amaral sobre o 25 de Abril, à memória de Miguel Portas.

O propósito: quatro observações soltas que visam contribuir para o debate suscitado pela e sobre a Perestroika, entre aqueles que continuam a reclamar o seu lugar à esquerda e se não renderam a julgamentos apressados sobre a falência de tudo quanto cheire a comunismo e a socialismo. Artigo de Miguel Portas publicado na revista "Combate" e republicado no livro "Malhas que a Memória Tece".

Uma mensagem do Comité de Solidariedade com a Palestina, com o título “Até sempre, Miguel”, assinala: “ gostaríamos de ter trazido para a despedida de Miguel Portas um punhado da terra libertada da Palestina”, sublinhando que “poucas pessoas se têm empenhado tanto como Miguel Portas na causa dos direitos humanos, sociais e nacionais do povo palestiniano”.

O Miguel desde que nasceu que fez uma diferença grande. Agora que morreu não é preciso sequer um instante para fazer uma ideia da falta que faz. Artigo de Miguel Esteves Cardoso, publicado no jornal “Público”.

Publicamos aqui o capítulo "Palestina" do livro “No Labirinto - O Líbano entre guerras, política e religião” de Miguel Portas, publicado em 2006, numa edição da Almedina.

Várias centenas de pessoas formaram uma fila com mais de 200 metros à porta do Palácio Galveias, em Lisboa, para homenagear o eurodeputado Miguel Portas. No domingo terá lugar a sessão evocativa no Jardim de Inverno do Teatro S. Luiz, com início às 14h30.

O divórcio entre vida e política não é apenas público, começa no domínio privado. Dar o rosto tem um preço em desumanidade. Não duvidem que ela marca os políticos que temos, sem excepção. Porque o fiz, apesar do preço? Talvez porque não tivesse alternativa. Texto que Miguel Portas escreveu no final da campanha para as europeias de 1999.

A morte de Miguel Portas faz-nos recordar que também as sociedades são mortais e que só a boa política consegue prolongar a sua existência. Artigo de Viriato Soromenho-Marques, publicado no jornal “Diário de Notícias”.

Voto aprovado por unanimidade traça o perfil do eurodeputado bloquista e lembra frase da sua última entrevista: “A minha vida valeu a pena porque ajudei os outros”.

Leia aqui o prefácio e o primeiro capítulo de Périplo, o livro de Miguel Portas sobre o grande mosaico que é o Mediterrâneo.

Sendo o Bloco uma invejável confluência de várias visões, cada qual com inúmeras qualidades, julgo que ao Miguel Portas fica associada uma permanente vontade do partido se reinventar.

A cada um a sua revolução. A minha iniciou-se ainda no tempo da outra senhora, uma expressão que caiu em desuso. E coincidiu com outra, obrigatória pela lei da vida, a da passagem à adolescência. Crónica de Miguel Portas de abril de 1999, retirada no livro “E o resto é paisagem”.

Aceitei uma palestra sobre Os sentidos do Amor e não sabia o que dizer. Tinha feito asneira e estava desesperado. Comprei a Ana e a Maria, mergulhei na sabedoria popular e dei razão à minha amiga Joana – o amor é inextricável. Crónica de Miguel Portas de novembro de 2000, publicada no livro “E o resto é paisagem”.

Reproduzimos, neste artigo, algumas das mensagens sobre a morte do Miguel Portas que temos vindo a receber através do endereço eletrónico do Bloco de Esquerda. Poderá deixar-nos aqui o seu testemunho, utilizando, para esse efeito, a caixa para comentários que se encontra no final do texto.

Comentários

É triste para mim com a morte de Miguel Portas uma perda enorme para Portugal. Eu que cheguei a trocar algumas mensagens com ele sobre política ao contrário de outros fugiam,não respondiam. Ele era do povo. Obrigado Miguel a tua luta não será inglória pois o povo ganhará. Descansa em paz

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