O regresso do trabalho infantil

porPedro Soares

23 de maio 2012 - 11:15
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Um aumento de queixas relacionadas com os direitos das crianças, nomeadamente com abandono escolar e trabalho infantil, foi reportado pelo Provedor de Justiça ao comissário para os Direitos Humanos do Conselho da Europa em visita recente ao país.

No contexto do brutal agravamento da crise social, não há grande margem para dúvidas sobre o crescimento dos fatores de risco do abandono escolar e do regresso do trabalho infantil.

Apesar deste quadro óbvio, o Governo decidiu acabar com o único programa que, desde 1999, intervém na prevenção e combate ao trabalho infantil e à exclusão social dos mais jovens, o PIEC (Programa para a Inclusão e Cidadania), e acaba de enviar cartas de despedimento aos 33 técnicos responsáveis pela sua aplicação a nível nacional, esvaziando dessa forma o seu programa de formação, o PIEF (Programa Integrado de Educação e Formação).

Deixa mais de três mil crianças e jovens em risco grave de exclusão social, frequentemente oriundos de contextos sociais de pobreza ou de famílias disfuncionais, completamente desprotegidos e abandonados às mais variadas e cruéis formas de exploração. Sem este recurso que lhes permitia a conclusão da escolaridade obrigatória e a certificação profissional, o já difícil caminho para evitar a marginalidade torna-se uma quase impossibilidade.

As respostas sociais do programa assentavam numa lógica de proximidade. As equipas multidisciplinares faziam a avaliação da situação escolar, individual e sócio-familiar. Iam a casa, conquistavam confiança, faziam diagnóstico, elaboravam programas escolares alternativos com uma componente de formação e acompanhavam os menores.

No presente ano letivo, o programa tinha a seu cargo 212 grupos-turma espalhados pelos vários distritos, com particular incidência na região norte (cerca de 1200 alunos). A taxa de sucesso tem sido bastante elevada, 91,5%, o que demonstra que a abordagem é correta, adaptada à complexa realidade que trata e obtinha resultados positivos.

O desmantelamento do PIEC e o despedimento dos técnicos é um crime social inqualificável e intolerável. O corte cego de 5 milhões de euros de investimento neste programa é a “poupança” que só vai ter como retorno mais pobreza, exclusão e marginalidade.

Mas, para o grupo de neoliberais que ocupa o poder, o que interessa que mais três mil jovens “problema” sejam abandonados? O ministro Mota Soares há-de arranjar uma qualquer sopa dos pobres para que sobrevivam e não tardará muito que o primeiro-ministro venha dizer que o trabalho infantil também não é um drama e até pode ser “uma oportunidade para mudar de vida”.

Em vez de reforçar o programa, pelos bons resultados e face à crise, o governo coloca-se em contraciclo, despede técnicos internacionalmente reconhecidos pelas suas competências e desprotege quem devia merecer proteção, apoio e incentivo. Para o governo a crise também é uma oportunidade, para desmantelar o Estado social.

Pedro Soares
Sobre o/a autor(a)

Pedro Soares

Docente universitário IGOT/CEG; dirigente da associação ambientalista URTICA. Dirigente do Bloco de Esquerda
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