Mau perder

porJorge Costa

24 de abril 2017 - 1:39
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Há quem critique Mélenchon por não ter feito do seu discurso da noite eleitoral um apelo ao voto em Macron na segunda volta. Eu não estranho essa escolha e penso que Mélenchon foi corajoso e correto.

Não tenho qualquer dúvida sobre qual será o seu apelo, o seu voto e o dos seus eleitores - contra Le Pen, na segunda volta (aliás, o pronunciamento dos ativistas da “França insubmissa” sobre essa orientação é uma ideia inteligente para a mobilização eleitoral). A esquerda nunca cultivou ambiguidades com os xenófobos e não vai começar agora.
 
Mas Mélenchon fez bem em não fechar esta etapa prostrando-se perante Emmanuel Macron, o ex-banqueiro que em breve presidirá à República francesa. Contra Jean-Marie Le Pen, a esquerda votou em Jacques Chirac à segunda volta - e ninguém quererá hoje canonizar o corrupto gaullista como salvador da República. Desta vez, ficará no Eliseu o mesmo Emmanuel Macron que, como ministro da economia do PS, também contribuiu para o caldo de frustração e violência social em que a Frente Nacional tem crescido sempre. A extrema-direita é o inimigo de estimação deste centrismo que renasce sempre à direita. Macron é rosto novo de política velha e a esquerda faz bem em marcar toda a sua distância.
 
Os críticos de Mélenchon sabem, como toda a gente sabe, que ele mobilizará contra Le Pen na segunda volta. Mas preferem pintá-lo como um egocêntrico irresponsável e inventar-lhe uma absurda equidistância face a Macron e Le Pen. Todo este ataque mostra que a verdadeira indignação de muitos destes críticos é outra: o PS entrou na campanha desfeito pela sua própria governação e os resultados mostram o eclipse do partido de Mitterrand. Como se isso não bastasse, a campanha de Mélenchon afirmou uma esquerda popular e combativa, cujos resultados desequilibram o jogo viciado entre centrismo merkeliano e extrema-direita xenófoba.
 
Na reconfiguração da política francesa, a esquerda que conta é a esquerda radical. Hoje, o "mau perder" é de quem já se tinha rendido.
Jorge Costa
Sobre o/a autor(a)

Jorge Costa

Dirigente do Bloco de Esquerda. Jornalista.
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