Identidades musculadas

porCarlos Carujo

10 de março 2011 - 1:54
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Os governantes conservadores dos mais poderosos Estados europeus declararam estridentemente: o multiculturalismo falhou. Ao fazê-lo apoiam-se e estimulam preconceitos profundos da Europa “civilizada”, pronta a (re)descobrir bodes expiatórios em tempo de crise.

A proclamação percorreu a Europa. Os governantes conservadores dos mais poderosos Estados europeus declararam estridentemente: o multiculturalismo falhou.

Nunca esclareceram o que entendem por multiculturalismo nem porque supostamente falhou. Limitam-se a constatar esse “falhanço” como se fosse óbvio e a apresentar como alternativa um assimilacionismo duro feito de “identidades musculadas” como se fosse a única solução. Ao fazê-lo apoiam-se e estimulam preconceitos profundos da Europa “civilizada”, pronta a (re)descobrir bodes expiatórios em tempo de crise.

O multiculturalismo segundo Sarkozy, Merkel e Cameron

França, Alemanha e Inglaterra adoptaram o credo de que o multiculturalismo “falhou redondamente”. Angela Merkel, ex-fiel do regime da RDA, invoca o cristianismo: “Nós sentimo-nos ligados aos valores cristãos. E aqueles que não são capazes de aceitar isto não têm lugar aqui.” Sendo assim, os/as imigrantes teriam de “fazer mais” pela integração.

Cameron adianta outro vector à equação da culpabilização dos/as imigrantes: “com a doutrina do multiculturalismo estatal favorecemos que as diversas culturas levem vidas separadas, isoladas entre si e relativamente à corrente dominante.” Claro que o resultado desse isolamento seria desigual: as culturas imigrantes isoladas (e toleradas) cairiam no terrorismo, no machismo, no totalitarismo e no fanatismo. É precisamente para contrariar que cunhou a expressão “liberalismo musculado” que deveria forçar a introdução dos valores demo-liberais. Pelo caminho, no mesmo discurso, estigmatiza as associações de imigrantes: “Vamos avaliar correctamente estas organizações: acreditam nos direitos universais – incluindo para as mulheres? Acreditam na igualdade perante a lei? Acreditam na democracia e no direito do povo a eleger o seu Governo? Encorajam a integração ou o separatismo?”.

E Sarkozy, precursor deste tipo de discurso, chega ao ponto de propor retirar a nacionalidade a pessoas de “origem estrangeira” que cometam crimes, criando assim duas categorias de franceses e a ideia de uma nacionalidade a prazo ao mesmo tempo que o seu governo toma os ciganos romenos como alvo privilegiado de expulsão.

Nas entrelinhas dos discursos, reforça-se a caricatura do estrangeiro enquanto bárbaro de costumes estranhos e cultura hostil, incapaz por natureza de perceber e praticar a democracia, de compreender direitos e deveres sem ser forçado a isso pela superioridade identitária dos seus anfitriões. E, assumidamente, uma convergência na receita: forçar a democracia que eles/as desconhecem, diluir os seus valores errados na cultura nacional, nomeadamente impondo a aprendizagem da língua do país anfitrião que estes/as insistiriam em não aprender…

Metamorfoses do multiculturalismo

A proclamação do trio neoliberal distorce um conceito, aproveita-se de uma discussão filosófica e de um mal-estar difuso para desculpar as práticas reais dos Estados europeus face aos imigrantes.

A questão do multiculturalismo tem sido presença constante nos debates da Filosofia Política liberal desde o final dos anos oitenta e ao longo dos anos noventa sobretudo nos EUA e no Canadá, onde a realidade de Estados constituídos através da imigração europeia levou a colocar a questão da cidadania não apenas como o vínculo de um indivíduo ao Estado, impondo-se o problema da convivência de culturas diferentes no mesmo espaço político e da relação entre direitos individuais e direitos colectivos, equacionando-se os direitos específicos das minorias culturais face às maiorias. Um debate que pareceu ganhar em dimensão a um outro “mais antigo” sobre justiça social e redistribuição.

Na Europa contemporânea, contudo, o mesmo conceito irrompeu no espaço público de forma bem menos filosófica mais devido à imigração não-Europeia do que à existência de minorias nacionais, ou do que à globalização financeira ou sequer ao processo de construção europeia. Multiculturalismo tornou-se, em primeiro lugar, um insulto na economia dos discursos nacionalistas (re)fundados sobre as identidades colectivas nacionais e os mitos enraizados fortemente no inconsciente colectivo. O racismo de sempre mobilizou desta forma as identidades supostamente unitárias e ameaçadas pela circulação de trabalhadores/as com outros hábitos, invasores sem respeito prontos a abafar a cultura nacional e que colocariam ainda o trabalho local em risco. Nesta metamorfose, o multiculturalismo seria simplesmente o nome da abertura à imigração e a alternativa seria o fechamento e o retrocesso a um passado glorioso.

Em segundo lugar, nas versões clean das novas direitas, o multiculturalismo seria uma das bases de um insidioso poder de esquerda implantado no coração do Ocidente e que o estaria a corromper. Este discurso situa-se no tema preferido desta direita apostada em mostrar-se enquanto “contrapoder”: haveria uma hegemonia de esquerda dominante nos media paradoxalmente controlados por grandes grupos económicos que influenciaria determinantemente a maior parte das políticas governamentais. Assim, tal como, por exemplo, seria Rousseau o permanente Ministro da Educação de todos os governos europeus levando a ideia do aluno enquanto “bom selvagem” à desvalorização da aprendizagem e da disciplina face à brincadeira e culminando num facilitismo que teria destruído a boa velha educação, também a ideia do imigrante enquanto “bom selvagem”, aliada à má consciência anti-colonialista da esquerda, teriam minado os valores nacionais e destruído a auto-estima cultural sob a chantagem de que fosse superioridade, dando lugar a uma política de imigração mole, de portas abertas para quem quis e que deixava quem entrasse fazer o que quisesse.

O multiculturalismo seria sinónimo de um relativismo cultural e também moral: se não há culturas superiores então todas práticas culturais valem moralmente o mesmo, sendo interdita sequer qualquer recriminação. O “horror multicultural”, o totalitarismo da tolerância levaria a tolerar o intolerável: a mutilação genital feminina, a lapidação de mulheres “adúlteras” ou qualquer agressão dos direitos humanos. Uma esquerda com uma moral de geografia variável disposta a lutar num lado contra aquilo que tolera noutro. Nesta metamorfose, o anti-multiculturalismo pretensamente mais sofisticado alimenta-se do mesmo nacionalismo mas segue outra estratégia: não se recrimina a imigração mas sim a “tolerância extrema” e coloca-se a política sob a forma de um binómio: tolerar isolando ou assimilar integrando.

Merkel e companhia ao transporem o discurso ideológico para a linguagem directa do exercício do poder político nunca esclarecem o sentido do que pensam ter falhado. E essa ambiguidade perigosa permite-lhes namoriscar com o senso comum identitário pretendendo assim competir assim discursivamente com a extrema-direita. Apesar disso, não querem fechar a torneira da imgração aos patrões que dela vivem e assim só podem responder à extrema-direita com um populismo mais light que não lhes rouba campo mas antes o parece legitimar: prometem “regulá-la” musculadamente, acabar com um suposto laissez-faire na “integração” substituindo-o por “políticas identitárias” musculadas. Resumindo, trata-se de dissolver os necessários pingos de imigração num mar de cultura nacional.

Do conceito de multiculturalismo à realidade imigrante

E, claro, os discursos do falhanço falham deliberadamente o alvo: não foi qualquer conceito filosófico ou pressuposto remotamente de esquerda que ditou as políticas de imigração europeias. É certo que existem à esquerda apoiantes do relativismo cultural, crentes no pressuposto “culturalista”, entendido como uma essencialização das culturas, consideradas entidades isoladas e puras, sem mestiçagens e homogéneas no seu interior. Terão existido também crentes convictos de que se estava a desenvolver uma política estruturada de respeitosa distância assente num estímulo ao desenvolvimento isolado das culturas dos imigrantes tal como existem. Mas não foram claramente estes quem ditou as políticas de imigração europeias. Foi a crua vontade de mão-de-obra barata e um saldo demográfico negativo. Neste contexto multiculturalismo foi nome de um desinteresse relativamente os/as imigrantes para além da sua dimensão de trabalhadores/as baratos/as e sem direitos, abandono em termos de direitos sociais que mantinha frágeis aqueles/as que se pretendia chantagear a cada momento. Quando muito, a noção de multiculturalismo terá funcionado como uma racionalização necessária de algumas das práticas ou omissões discriminatórias realmente existentes por parte dos poderes político e económico face aos/às imigrantes, não tendo sido colocada em prática nenhuma Filosofia de “tolerância extrema” para com “culturas” mas mecanismos de sobre-exploração real destes/as trabalhadores/as, de discriminação no acesso à saúde ou à educação, de guettização.

A proclamação de falhanço do multiculturalismo ilude o balanço da política imoral da Europa fortaleza, do “Frontex”, da “directiva da vergonha” (que uniformiza o modo de tratar estrangeiros/as ilegais: ou seja dá-lhes a expulsão como futuro), dos centros de detenção de imigrantes que permitem uma regulação muito musculada da mão-de-obra feita de abusos constantes, num jogo do gato e do rato que fabrica sem-papéis, seres humanos ilegais. E mesmo quem tem documentos só teria lugar na Europa como trabalhador/a descartável. No fundo, é este carácter utilitário, o sonho de usar mão-de-obra e de a mandar fora mantendo as características essenciais “puras” da sociedade de partida, que entrou em colapso porque os/as imigrantes estão para ficar e trouxeram outras formas de viver. E face a esta evidência responde-se mantendo más condições, juntando estigmatização ao mais alto nível e propondo assimilação, ou seja apagamento do que antes se procurava tornar invisível.

A verdadeira face da política de imigração europeia encontra-se cruamente nos campos agrícolas do Sul da Europa. A verdadeira face da política de imigração europeia encontrava-se na violência dos regimes ditatoriais do norte de África que, para além de fornecerem matérias-primas valiosas, serviam/servem de preciosa válvula para estancar a entrada massiva de imigrantes. As declarações de Merkel e companhia que remetem para um “perigo islâmico”, para uma Europa minada de minaretes, com as ruas cheias de véus e de burkas, escondem a islamofobia. E não deixa de ser irónico que as revoltas árabes pela democracia e pela justiça social lhes tenham respondido com tanta prontidão colocando em causa os seus preconceitos de base.

A verdadeira face da política de imigração europeia está ainda mais claramente na estimativa de que, desde 1988, 14.000 pessoas morreram na tentativa de penetrar nas muralhas da fortaleza Europa. Tolerância excessiva?

Nações perfeitas, imortais

E se há discursos científicos e críticos eficazes na desmontagem dos nacionalismos simplistas e das identidades culturais opacas, das nostalgias póstumas de um tempo maravilhoso de nações perfeitas imortais, o perigo é que o nacional-populismo é hegemónico e esses discursos aí não entram. Porque a cultura oficial se (con)funde com a política do eu, com a identidade pessoal que vamos construindo. Porque o apelo nacionalista é sobretudo emocional: é o apelo a um passado colectivo fabricado mesmo nos discursos escolares e a um passado individual, à infância com a sua geografia idealizada de ruas felizes, tão iguais a si mesmas e que agora são invadidas por outras gentes. Porque o sentimento de ameaça é reforçado permanentemente. À esquerda, há a tarefa urgente de descontruir massivamente as identidades musculadas e as suas políticas, dos liberalismos musculados aos vários fascismos que convergem no combate aos perigos moles da globalização com a dureza perante os/as que estão fracos/as e ignorando os privilegiados.

E lá na Grécia trezentos imigrantes continuam uma greve de fome persistente pela dignidade: serão vítimas de tolerância excessiva à sua cultura? Sentimos instintivamente que estamos com eles/as. Mas falta tanto para que esse sentimento seja maioritário…

Carlos Carujo
Sobre o/a autor(a)

Carlos Carujo

Professor.
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