Moody's baixa rating da dívida portuguesa

13 de julho 2010 - 11:50

A agência de notação financeira Moody’s reviu em baixa o rating português em dois níveis, de Aa2 para A1, justificando-se com “a fraca força financeira do Governo português”. Francisco Louçã considera que “os países devem deixar de depender destes corsários do mercado”.

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Louçã acusa as agências financeiras de “em benefício próprio de quem lhes paga” darem notações, “prejudicando países, atacando economias nacionais e, portanto, acentuando a crise”.

As perspectivas de crescimento da economia portuguesa permanecem “fracas”, “a menos que as recentes reformas estruturais venham a produzir frutos a médio e longo prazo”, considera a Moody's.

A agência financeira justifica esta revisão em baixa dizendo que “a força financeira do Governo português irá continuar a enfraquecer a médio prazo, como se pode ver pela deterioração crescente dos números da dívida do país”.

Ainda assim, a Moody´s acredita no objectivo português de fazer o défice descer para os três por cento do PIB em 2013, mas alerta que a consolidação orçamental e a desalavancagem dos bancos vão limitar o crescimento económico português. As perspectivas de crescimento da economia portuguesa permanecem “fracas”, “a menos que as recentes reformas estruturais venham a produzir frutos a médio e longo prazo”, considera a Moody's.

De negativo, o outlook da dívida pública portuguesa passa agora a estável, o que significa que não é provável um novo corte da avaliação de risco da agência no curto prazo (geralmente entre seis meses a dois anos).

A decisão tomada esta terça-feira pela Moody’s vem concluir o processo de revisão do rating que a agência iniciou no passado dia 5 de Maio, cerca de uma semana depois de outra agência de notação financeira, a Standard & Poor’s ter também cortado o rating da República Portuguesa em dois níveis, de A+ para A-.

Na altura, esta revisão em baixa provocou um autêntico vendaval nos mercados financeiros, fazendo os juros dos títulos da dívida portuguesa dispararem para máximos e encarecendo bastante o financiamento do país nos mercados.

O ministro das Finanças já afirmou, em Bruxelas, que a decisão da Moody’s de rever em baixa o rating da dívida portuguesa “não surpreende” e ”já era esperada” porque há 12 anos que a empresa não revia o rating português.

Moody's prevê cenário negativo para a dívida pública portuguesa

Daqui para a frente, a agência financeira espera que a dívida pública continue a deteriorar-se durante pelo menos mais dois ou três anos, com os rácios da dívida face ao PIB e às receitas a aproximarem-se dos 90 e 210 por cento, respectivamente.

A Moody’s mantém-se ainda preocupada com o potencial de crescimento da economia a médio prazo, prevendo assim que o Governo português permaneça altamente endividado nos próximos tempos.

Por causa da descida do rating, os juros das obrigações do Tesouro a dez anos estão a subir. Na segunda-feira, esses títulos estavam a negociar a 5,412 por cento, agora negoceiam nos 5,499 por cento. 

Embora não esteja ainda a atingir níveis alarmantes, esta subida é preocupante já que está marcada para quarta-feira uma nova emissão de obrigações do Tesouro. O Instituto de Gestão de Tesouraria e do Crédito Público (IGCP) vai colocar 1000 a 1500 milhões de euros em obrigações do Tesouro com maturidade até Junho de 2012 e Junho de 2019.

Corte para Portugal coloca rating de bancos e empresas em risco

Depois de a Moody's ter revisto em baixa o rating de Portugal em dois níveis, agora deverá ser a vez dos bancos e das empresas onde o Estado está presente já que estes não podem ter um rating superior ao da República, adianta o Diário Económico.

A Moody's concluiu a 3 de Junho uma análise sobre a solidez individual dos maiores bancos nacionais e prometeu uma segunda parte depois da decisão sobre o rating da República, conhecida esta terça-feira. Nesse relatório, a Moody's, sublinhava que os principais bancos nacionais conseguiriam suportar 12 meses sem financiamento interbancário e sem recorrer aos mercados internacionais de dívida.

Apesar de salientar - em relação a todos - a deterioração das condições operacionais em Portugal e a dependência de financiamento externo, a agência defendeu que os maiores bancos têm actualmente activos líquidos suficientes o que, conjugado com o acesso a financiamento do Banco Central Europeu (BCE), lhes permitiria suportar um ano com os mercados internacionais "fechados".

Entertanto, o “downgrade” da Moody's para a dívida portuguesa não abalou o sentimento positivo que se sente esta terça-feira na bolsa portuguesa. Depois de uma abertura negativa, o índice que reúne as maiores cotadas nacionais, o PSI 20, subia esta manhã 0,3 por cento, impulsionado sobretudo pela banca, numa altura em que as principais praças europeias valorizam mais de 1por cento.

Louçã: “Os países devem deixar de depender destes corsários do mercado”

A criação de uma agência de notação europeia e o reforço da regulação dos mercados foi uma prioridade, ainda esta segunda-feira, reiterada por Francisco Louçã: “O próprio Conselho Europeu já foi forçado a admitir que seria útil, mas nunca toma no entanto qualquer decisão prática, uma agência europeia interviria para dizer a verdade sobre os activos financeiros e não estaria ao serviço da manipulação especulativa, como é a Moody’s, a Fitch ou a Standard & Poor’s”.

Louçã acusou ainda estas agências de “em benefício próprio de quem lhes paga” darem notações, “prejudicando países, atacando economias nacionais e, portanto, acentuando a crise”.

“Os países devem deixar de depender destes corsários do mercado e devem, pelo contrário, dizer a verdade sobre os mercados financeiros (…) dizer a verdade é a forma de combater a especulação”, defendeu.