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Grandes empresas financiam quase todos os partidos

As exceções são o PSOL, o PSTU, o PCB e o PCO. O PT de Lula e Dilma Rousseff é o recordista, tendo arrecadado só das 15 maiores empresas doadoras 43 milhões de euros.
O PT é o que mais doações recebe das grandes empresas. Foto de Leopoldo Silva/ Agência Senado

Apenas quatro partidos concorrentes às eleições do Brasil não receberam qualquer doação financeira por parte de empresas: PSOL, PSTU, PCB e PCO. Não por acaso, são os quatro de esquerda.

Todos os outros partidos recebem doações, que são canalizadas tanto para o partido quanto para candidatos individuais. Os números são arrepiantes. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral, em 2010 o gasto para campanha de um deputado federal foi, em média, 1,1 milhão de reais; já para as eleições de 2014 a projeção é de que esse gasto aumente mais de três vezes e seja de 3,5 milhões de reais (e 5,6 milhões de reais para senador).

Ao contrário do que acontece em Portugal, no Brasil não há financiamento público às campanhas eleitorais, que são sustentadas por financiamento privado, seja de indivíduos, seja de empresas.

A legislação diz que “as doações de pessoas físicas poderão ser em dinheiro ou estimáveis em dinheiro, consideradas como bens ou serviços, assim como bens móveis, desde que não ultrapassem 50.000 reais (cerca de 16.000 euros), limitadas a dez por cento dos rendimentos brutos auferidos no ano anterior à eleição”.

As doações de pessoas jurídicas são limitadas (?) a dois por cento da faturação bruta do ano anterior à eleição.

Todas estas doações são oficiais e podem ser escrutinadas, mas sabe-se que não representam o total das contribuições: a prática do “caixa 2” (saco azul) continua a ser muito comum.

PT é o que mais recebe

A ONG Transparência Brasil divulgou um estudo sobre as rotas das doações eleitorais nas eleições de 2014, com dados referentes à campanha deste ano disponíveis até 18 de setembro. O diagrama que desenhou mostra o valor das contribuições das 15 maiores doadoras e quais os partidos que as receberam.

Entre as 15 estão um dos maiores grupos alimentares do Mundo, o JBS, que em 18 de setembro já tinha doado 94 milhões de reais (cerca de 30 milhões de euros), as principais empresas de construção civil e bancos como o Bradesco ou o Itaú.

De acordo com o estudo, “as 15 maiores doadoras são ecléticas em suas doações: cada uma contribuiu, direta ou indiretamente, para quase todos os partidos”.

Diagrama que traça a rota do dinheiro

O partido que mais dinheiro recebeu até aquela data foi o PT, com 135.054.686 reais (43 milhões de euros), seguido do PMDB, que obteve 72.012.730 reais (quase 23 milhões de euros) e do PSDB, que arrecadou 66.095.738 reais (21 milhões de euros). O PSB de Marina Silva foi o destinatário de 36.559.597 reais (11,5 milhões de euros).

O estudo afirma que “a decisão de financiar um partido é feita na expectativa de vitória dos candidatos” e que a ideologia partidária não é determinante para as doações eleitorais, uma vez que “os grandes partidos não se distinguem ideologicamente entre si”.

Não é, porém, casual que nenhum dos partidos da esquerda receba qualquer doação destas empresas.

Resto dossier

Eleições no Brasil

Com as eleições deste domingo, termina uma campanha eleitoral cheia de surpresas, marcada pelas fulgurantes ascensão e queda da candidata Marina Silva. A atual presidente Dilma Rousseff vencerá o 1º turno, e disputará o 2º com Marina ou com Aécio Neves. Neste dossier, organizado por Luis Leiria, recordamos a campanha, falamos sobre o financiamento dos candidatos e damos voz aos representantes da esquerda socialista. Concluímos com uma polémica sobre o papel dos governos do PT.

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Brasil: surpresas até ao fim na eleição presidencial

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Desafiando a hegemonia

A aproximação entre a juventude trabalhadora e Marina Silva manifesta eleitoralmente um desejo progressista de mudança social. Trata-se de uma ilusão, pois, certamente, Marina Silva faria um governo mais neoliberal do que Dilma Rousseff. No entanto, o desejo é legítimo e merece respeito. Por Ruy Braga

Luciana Genro: "Os interesses que devem ser contrariados são os do grande capital, bancos e multinacionais, os grandes privilegiados do modelo económico atual.

Luciana Genro (PSOL): “Não há mudança sem enfrentar e contrariar interesses”

“A nossa proposta é radicalmente oposta à lógica do tripé económico que os três candidatos defendem”, diz a candidata à Presidência pelo PSOL. “A principal medida é a auditoria da dívida e a suspensão do seu pagamento. Também uma revolução na estrutura tributária, aumentando tributo sobre os bancos e as grandes empresas e fortunas, aliviando a classe média e os assalariados”. Por Gabriel Brito e Valéria Nader, Correio da Cidadania

Zé Maria (PSTU): “Vamos retomar a ideia de um governo da classe trabalhadora, sem patrões, que possa governar o Brasil e promover as mudanças.”

“Não podemos confundir o papel da esquerda; é preciso usar o processo eleitoral para fortalecer a luta popular, e não entrar na eleição achando que o nosso papel é ganhar o máximo possível de votos, a qualquer custo. Como se a obtenção de votos fosse mudar o Brasil”, diz o candidato do PSTU. Por Valéria Nader e Gabriel Brito, Correio da Cidadania.

Mauro Iasi (PCB): “A verdadeira tarefa da esquerda vem depois das eleições: construir a alternativa ao bloco dominante”

“Nós demonstramos que é possível participar do debate eleitoral sem rebaixar o programa. A nossa briga, já de bastante tempo, é contra a mercantilização da vida, pauta a luta pela educação, saúde, cultura, acesso a bens e serviços essenciais, o que conseguimos ver, na prática, na campanha”, disse Iasi. Por Gabriel Brito e Valéria Nader, Correio da Cidadania.

De punhos fechados, mas com as mãos nos bolsos

O artigo que se segue, de autoria do historiador e dirigente do PSTU Valério Arcary, é parte de uma polémica sobre o papel do PT e dos seus governos com Valter Pomar, da corrente Articulação de Esquerda (que faz parte do PT). A totalidade da polémica pode ser seguida pelos links que constam no artigo.  

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