Está aqui

Um grupo exemplar

Que têm em comum António Barreto, Dias Loureiro, António Borges e Artur Santos Silva? Todos estão na folha de pagamentos da Jerónimo Martins, um grupo exemplar, não só na esperteza fiscal.

Sobre impostos, estamos conversados. Da riqueza gerada pelo negócio da Jerónimo Martins em Portugal, só a parte paga em salários deveria ser taxada. Fugir para a Holanda é um ato de boa gestão, acumular sem contribuir é a obrigação de qualquer administrador competente. A doutrina de Alexandre Soares dos Santos é distribuída junto à caixa dos supermercados e refinada em editoriais da melhor imprensa.

Mas a Jerónimo Martins tem cadastro pesado também noutros domínios.

Uma máquina de explorar

Alexandre Soares dos Santos é um patrão agressivo com pretensões paternalistas. Em Abril passado, revelou que 1.500 dos funcionários do grupo têm os salários penhorados por dívidas e alguns até roubam nas lojas Pingo Doce para matar a fome. Claro que esse facto não tem relação com o nível dos salários na Jerónimo Martins. Surpreendida, a administração comoveu-se (com grande estrondo público) e prometeu migalhinhas para todos.

De facto, quando a causa é nobre, Soares dos Santos tem as mãos largas. Para acabar com o 1º de Maio lá na empresa, dispôs-se a pagar o dia em triplo e ainda atribuir uma folga a quem fosse trabalhar no feriado. Depois escreveu um panfleto e distribuiu aos clientes, para mostrar que pode comprar o dia do trabalhador.

Soares dos Santos sabe que pode contar com a pobreza daqueles a quem paga. E sabe bem. Do primeiro trimestre de 2010 para o de 2011, os lucros da Jerónimo Martins aumentaram 33%... e concentraram-se no sítio do costume: dividendos à família e remuneração obscena da administração e dirigentes do grupo. Em 2010, receberam 23 milhões de euros, com valores na casa dos 750 mil euros para o presidente do grupo ou para o filho de Alexandre Soares dos Santos.

Apesar das constantes proclamações de “diálogo” e “entendimento”, a administração da Jerónimo Martins pratica pouco: ao longo dos últimos anos, reuniu-se uma única vez com a estrutura sindical. E as queixas desta não são poucas: apesar de os horários dos trabalhadores estarem organizados a seis meses e "afixados para a Autoridade para as Condições do Trabalho ver, os horários praticados são muito diferentes e todos os dias são diferentes".

O abuso é a regra, mas sendo o abusador quem é, o pior pode estar para vir. Na Polónia, o grupo tem experimentado os abusos laborais que depois importa para o Pingo Doce. Soares dos Santos foi condenado pelo Supremo Tribunal polaco, depois de se queixar de atentado ao bom nome por parte de antigos fornecedores que serviam a rede Biedronka, propriedade do grupo português. Em causa estavam acusações de não pagamento de horas extraordinárias, represálias contra os trabalhadores, dumping, entre outras. O tribunal concluiu em Dezembro de 2009 que “não é proibido formular acusações verdadeiras”. Já no ano anterior, a Fundação de Helsínquia para os Direitos Humanos definia a Jerónimo Martins como "o símbolo do abuso dos direitos dos trabalhadores na Polónia".

Nas conclusões dos tribunais polacos, segundo o jornal "Rzeczpospolita", ficou também provado que a rede polaca de Alexandre Soares dos Santos mantinha práticas ilegais em prejuízo dos fornecedores, factos aliás que já tinham determinado duas sentenças do Supremo Tribunal contra a empresa.

Essas práticas são aliás bem conhecidas dos fornecedores portugueses de produtos agrícolas às grandes superfícies. Ainda há dois meses, um representante destes fornecedores explicava como estes grupos obrigam os pequenos fornecedores a emprestar à força: “O distribuidor encomenda num dia e paga, segundo o Banco de Portugal, em média mais de 70 dias depois. O consumidor compra e paga logo, pelo que, entretanto, o distribuidor fica com esse dinheiro. Na Jerónimo Martins este período é capaz de representar 700 milhões de euros a custo zero. E na Sonae são mil milhões”.

Perante a passividade das autoridades, o abuso desta posição dominante acontece também na chantagem sobre produtores dependentes da rede distribuidora concentrada: em Novembro passado, foram conhecidas as chantagens da Jerónimo Martins e da Sonae: a Sonae convidou os fornecedores a comparticipar em 25% uma promoção de queijos; a Jerónimo Martins exigiu um desconto de Natal de 10% nos produtos vendidos em Outubro, Novembro e Dezembro, apesar dos contratos existentes.

Uma máquina de produzir ideologia

Contra a tradição dominante entre os Donos de Portugal, Alexandre Soares dos Santos empenha-se numa forte visibilidade e numa intervenção direta no debate político e até na luta ideológica em Portugal. Com a sua Fundação Francisco Manuel dos Santos, cria protagonistas para o debate, lança eventos, torna-se fonte de dados e autoridade de análises. E coroa como Presidente da Fundação um crónico fabricante do consenso liberal, António Barreto. O Presidente da Fundação defende o governo de unidade nacional (“todos menos o Bloco!”, corrige Soares dos Santos). O Presidente da Fundação junta-se ao patrão e a Mário Soares e lança um manifesto do Bloco Central por uma “maioria inequívoca” de apoio à troika. O Presidente da Fundação cheira o ar dos tempos e vem defender uma nova constituição aprovada em referendo, para acabar com a “carga ideológica” que “obriga a políticas concretas, contrárias à vontade do soberano”.

Tal como no caso de Belmiro de Azevedo, a ladainha de Soares dos Santos inclui sempre a crítica à “mediocridade” dos governantes e até das elites económicas, viciadas na proximidade com os políticos. Mas, tal como o dono da Sonae, Soares dos Santos tem a virtude de frei Tomás. Afinal, no seu círculo íntimo, acotovelam-se figuras de governante-empresário. O ex-secretário de Estado Artur Santos Silva é administrador não-executivo da Jerónimo Martins desde 2004. Nogueira de Brito, secretário de Estado de Marcello Caetano e depois dirigente do CDS, esteve à frente do grupo por mais de quinze anos, até 2004. O seu sucessor como presidente executivo foi Luís Palha da Silva, antigo secretário de Estado do Comércio de Cavaco e diretor da sua última campanha presidencial. O lugar é hoje de um esforçado gestor, promovido a pulso e mérito – Pedro, o filho do patrão, Soares dos Santos.

Cavaco foi aliás visitante ilustre da Jerónimo Martins na Polónia, onde já tinham estado também, no ano anterior, Jorge Coelho e Dias Loureiro. Mas este último é mais que visita lá de casa: enquanto pilhava a Sociedade Lusa de Negócios, Dias Loureiro exercia a presidência da Assembleia Geral da Jerónimo Martins (de 2004 a 2007).

Neste plantel de luxo, não podia faltar a reserva da nação e do PSD, António Borges, administrador não-executivo até transitar para a hierarquia o FMI. Quando se anunciava a chegada da troika, Soares dos Santos já a louvava como “uma bênção”.

A promiscuidade com o poder político é a vida do comendador Soares dos Santos. A parasitagem do trabalho é a sua marca. Em Portugal, a economia e a vida das pessoas está hoje a pagar o preço do domínio desta classe. Os Donos de Portugal são o grande problema histórico que o país tem para resolver.

Sobre o/a autor(a)

Deputado e dirigente do Bloco de Esquerda. Jornalista.

Comentários

Recebi sim um panfleto informativo desse senhor quando fui às compras numa das suas lojas. É dirigido às pessoas com pouca informação. Vou deixar este artigo dirigido ao dito senhor para que ele não julgue que somos todos o mesmo. Muito obrigada.

Excelente texto. Muito bem observado, em particular, esse aspecto de que "contra a tradição dominante entre os Donos de Portugal", há aqui um claro empenho "numa forte visibilidade e numa intervenção direta no debate político e até na luta ideológica em Portugal"; e de que isso ocorre sobretudo via Fundação e via António Barreto.
Todavia, se me é permitido um reparo amigável: no que diz respeito ao link em que é sugerida a possibilidade de co-optação do PC, o Jorge sabe evidentemente que isso é simples treta e truque da parte dos Donos, e mesmo só isso. Em vez duma atitude, face ao PC, de "a minha esquerda é mais comprida do que a tua" - o que aliás tem simétrico, também o reconheço abertamente - era óptimo que começasse mas é a existir uma concertação muito a sério entre os dois: BE e PC (acabe-se com a disjunção exclusiva aqui, por favor). Precisamos disso "como de água para a boca", e continua a não se ver nada...

Caro João Carlos Graça, limitei-me a dar conta da propaganda do Soares dos Santos. Só por uma cabeça como a dele poderia passar a ideia de um governo troikista com a participação do PCP. Pelo contrário, tenho a certeza que estaremos na mesma barricada contra o capital parasitário de que a JM é um dos expoentes...

Estes dois srs. do pingo amargo e do incontinente em breve terão a cabeça a prémio se continuarem a tratar os portugueses da forma que tratam, eu por mim já lhes declarei guerra e boicote ás suas lojas há mais de um ano.

O que eu gostava era de discutir questões ideológicas e pragmáticas com as pessoas que se dizem de esquerda. Nomeadamente gostaria de saber que tipo de sociedade poderíamos aspirar se algum dia estes senhores conquistarem o poder. Baseada em que pressupostos ideológicos? O Marxismo? o Trotskismo? o Maoísmo? Sinceramente que não sei qual é a sua base ideológica. Será o Louçãnismo???? Não me parece que o Francisco Louçã tenha esse perfil, de ideólogo de uma alternativa aos sistemas económicos e políticos actuais. Não querem uma economia de mercado sabemos nós....então qual a alternativa? Uma economia colectivista? Isso não foi já chão que deu uvas? Era isso que eu gostava de ver discutido e não os "faits divers" que aparecem na comunicação social, as tricas políticas do costume ou os debates parlamentares de baixo nível....

As ideologias já não devem importar a ninguém. O que é preciso é que a civilização evolua de maneira a criar uma sociedade mundial onde todos tenham uma função útil e todos preencham as suas necessidades.As religiões prometem um paraíso imaginário para depois da morte,o que precisamos é de pessoas que façam um paraíso concreto no nosso planeta e enquato estamos vivos. Já bastam as causas naturais para nos criarem dificuldades não precisamos que acrescentem, a essas, causas artificiais criadas pela ganância desmedida de alguns seres humanos e consentida pela ignorância da maioria da humanidade.Se assimnão vier a ser a humanidade não terá grande futuro.

Temos o país que merecemos da(s) esquerda(s) às direita(s), dos patrões aos empregados, dos padrecos aos agnósticos, dos presidentes da república aos ex-presidentes da república, fomos sempre um país medíocre cheio de gente rasca (eu incluído) onde vale tudo, onde alei não existe (é feriado, mas trabalha-se), onde apenas um pequeno punhado de valentes fez história e essa prolongar-se nos séculos, o resto é fantasia, assumam-se!
Nojo de povo.

Diga-me lá sr doutor, não há nenhum processo nesse tribunal por ter criado centenas de empregos, as polacos que estavam no desemprego de longa duração ?
Estes Tribunais estão mesmo distraídos !!!! O que nos vale, são os grandes jornalistas, que desapaixonadamente e prenhes de isenção, que nos dão notícia do arbítrio dos empresários !!!!!

Em terra de ignorantes quem sabe alguma coisa e dispôe dos meios e oportunidades fácilmente tira proveitos.O mal do mundo está no valor do dinheiro que se sobrepõe cada vez mais a qualquer outro valor inclusivé ao valor de humano.Acho que o que aconteceu, nesta vergonha que foi a manobra do grupo JM foi a prova de que as pessoas fácilmente vendem os seus princípios por meia dúzia de patacos. Se fossemos menos ignorantes nunca acorreríamos a um engano como este,muitas pessoas compraram produtos que até vão acabar por se estragar.As presas são caçadas pelo predador humano ou com armas ou com armadilhas com isco.Penso que isto terá sido uma armadilha. As presas andam esfaimadas e assim o isco é mais eficaz.

Isto é resultado de uma grande vulnerabilidade mas também de uma grande falta de cidadania e suspeito que, quem vai pagar a factura desta atitude "caridosa", são os produtores, a quem são pagos preços miseráveis pelos produtos.
Uma grande operação de marketing dizem alguns.
Uma atitude provocadora, tentando justificar e realçar o trabalho neste dia do trabalhador, de uma forma demagógica, desrespeitando completamente as pessoas, na sua dignidade, nas suas necessidades, misérias e fraquezas. Assistiu de camarote e fartou-se de gozar à custa de todos aqueles que se acotovelaram para apanhar umas "migalhas", que lhes atirou com o desprezo próprio de quem tem a barriga cheia.

(Parte 2)
Em relação a comentários sobre criação de postos de trabalho e ideais políticos respondo: São os trabalhadores que permitem a obtenção de lucro e portanto dar trabalho, ainda por cima precário, não é favor nenhum. A nível politico é claro que enquanto se mantiver um governo capitalista e elitista que satisfaz as vontades de quem engole a riqueza dos portugueses, estes senhores "Donos de Portugal" vão sempre manifestar o seu apoio e mostrar desdém pelos partidos da oposição, já que estes últimos procuram uma sociedade mais justa onde quem mais ganha deveria ser o que mais contribui e não o contrário...
Para finalizar, e analisando bem, este episódio até teve consequências positivas, permitiu aos portugueses poupar uns trocos, revelou a precariedade social e ainda evidenciou as práticas negativas deste grupo.

(Parte 1)
Desde já felicito o autor do texto por revelar os factos que muitos têm medo de mostrar. Devo dizer que determinados comentários aqui colocados só revelam uma enorme incapacidade de aceitar a critica, assim como também um enorme amargo proveniente da sua própria vergonha, que na verdade diga-se, é muito pouca, pois se assim não fosse não teriam a audácia de vir postar comentários em defesa do indefensável e enxovalhar quem mais não faz que o seu trabalho em defesa dos portugueses!
Em relação às práticas deste grupo nada há a dizer, os factos falam por si e apesar de passarem impunes, os portugueses ainda têm olhos na cara para distinguir o certo do errado e perceber quem defende os seus direitos ou abusa dos mesmos.

Considero-me democrata cristão.
Mas odeio este capitalismo selvagem
Querem uma sociedade mais justa?
Fechem os bancos que lavam todo o dinheiro da criminalidade e instua-se apenas o banco de Portugal e a caixa geral de depósitos como banco de fomento.
Acabem com as multinacionais e as grandes superficies que vendem tudo importado e retiram centenas de milhares de empregos privados na agricultura no comercio tradicional, na reabertura de fabricas e permitiriam uma classe media de homens livres e nao de funcionários públicos.
Reduzam o número de políticos a um quinto dos actuais....

Ponham um tecto nas riquezas. Mesmo que seja largo, para possibilitar a subida dos empreendedores. 50 milhões, nao bastariam?

Só isto seria suficiente para termos sociedades mais justas, livres e felizes

Se estes abusos de roubalheira desvios de dinheiros troca de favores .E culpa nossa de termos confiado nos políticos por não termos sabido dar mais formação politica .E enquanto tivermos esta faixa etária dos 90 não vamos a lado nenhuma mas espero que ainda v amos a tempo de salvar este pais

Adicionar novo comentário