Marisa Matias integrou a maior delegação parlamentar internacional a entrar em Gaza. Nesta entrevista vídeo ao esquerda.net, com fotos da visita, conta como encontrou a região sob bloqueio imposto por Israel, um ano após os bombardeamentos que mataram cerca de 1400 palestinianos.
Um ano depois dos bombardeamentos de Israel, pudeste ver com os teus olhos a situação dos sobreviventes em Gaza. Como vivem hoje os palestinianos?
Marisa Matias: A população está numa situação ainda pior do que estava antes. Obviamente aprisionados, o cerco apertou-se e o problema maior é que nada ou muito pouco foi reconstruído. Houve uma promessa da comunidade internacional de enviar 4,5 mil milhões de dólares para a reconstrução e vários países se uniram nesse sentido. Mas até hoje não entrou sequer um dólar na faixa de Gaza. E não entrou porque o governo israelita nem sequer permite que entrem materiais de construção, alegando razões de segurança.
Um ano depois, o número de refugiados triplicou - são agora 300 mil -, 60% das crianças vivem numa situação de subnutrição, não há casas que cheguem para as pessoas - zonas que eram densamente povoadas são agora campos de destroços ou zonas onde estão instaladas tendas. Em resumo, vive-se uma situação humanitária verdadeiramente calamitosa, à qual ninguém consegue ficar indiferente, porque é uma violação dramática de direitos humanos, muito abaixo do limiar mínimo das condições de dignidade que qualquer pessoa deve ter.
É óbvio que a situação já não era boa, mas é um choque enorme perceber que ao fim de um ano está tudo na mesma, mas com a agravante de que entretanto passou um ano, as coisas estão mais degradadas, os terrenos não podem ser cultivados porque foram atacados e contaminados, 80% da população está desempregada e não tem onde poder trabalhar.
E como é que esta visita pode ajudar a resolver os graves problemas que vivem os palestinianos de Gaza?
Marisa Matias: A questão humanitária é muito grave, mas não é a questão principal que está aqui em jogo. Resulta de um problema político que nunca foi resolvido, que é a criação de um Estado palestiniano. Cada povo tem direito ao seu Estado, neste caso o povo palestiniano tem direito ao seu próprio Estado, e essa questão está por resolver.
E é nesse sentido que vamos tentar intervir nos próximos tempos: os quinze eurodeputados que integraram a delegação deram uma conferência de imprensa no Parlamento Europeu, mas vamos também contactar os ministros dos negócios estrangeiros dos países representados na delegação e marcar reuniões com várias entidades, como a Katherine Ashton - que agora assume a pasta que tem esta responsabilidade no contexto da UE - para além dum conjunto de acções para pressionar a que finalmente se possa chegar a um acordo.
Estas são as principais áreas de intervenção: por um lado pressionar no sentido de resolver a questão política e por outro lado pressionar para que as ajudas prometidas cheguem efectivamente a Gaza, porque não é sustentável o que verificámos e não pode continuar de forma nenhuma assim. Logo que saímos de Gaza, fizemos um apelo ao ministro dos negócios estrangeiros egípcio para que - enquanto o bloqueio se mantiver como está - não construa os muros nos acessos a Gaza através dos túneis. A passagem de Rafah, no Egipto, destina-se à passagem de pessoas, mas também deixa entrar - por favor - alimentos, medicamentos, tudo aquilo que é necessário até em termos de ajuda humanitária, porque a situação, como já referi é insustentável.
Vamos também relatar o que vimos dentro das comissões e delegações, sobretudo as que tratam destas questões, para que haja uma intervenção mais institucional e mais efectiva e que a União Europeia de uma vez por todas deixe de ter uma posição hipócrita em relação a esta matéria e assuma uma posição clara em defesa do povo palestiniano.
Um dos encontros que tiveram em Gaza foi com o primeiro-ministro e líder do Hamas. Encontraram sinais de que pode estar para breve a reconciliação com a Fatah?
Marisa Matias: Reunimos com o primeiro ministro Ismail Haniya, foi uma reunião totalmente aberta às televisões e onde não houve qualquer limitação de perguntas. Obviamente, foi uma reunião muito crítica, com vários membros da delegação a apontar-lhe críticas severas quanto à forma como o Hamas se tem comportado nesta última fase. O compromisso dele foi de total abertura com a Fatah para um processo de reconciliação nacional, impondo como condição que o mediador seja o Egipto e não outros países que - segundo a sua concepção - têm feito do Estado de Israel um Estado de excepção e que têm permitido que tudo se passe à margem do que devia ser o cumprimento do direito internacional.
Ele não fugiu a nenhuma das perguntas que lhe foram colocadas e assumiu perante a delegação que iria fazer um esforço total no sentido da reconciliação do povo palestiniano, ao que nós lhe pedimos então que fizesse essa mesma transmissão de intenções à comunidade internacional, à UE, aos Estados Unidos, a todas as partes que têm interferido neste processo, de forma a que isso fosse claro, porque não estava claro que assim era. O desafio foi que assuma publicamente esse compromisso e que venha dizer que tem intenção de chegar a um acordo o mais rapidamente possível no sentido de haver novas eleições e de se poder reiniciar o processo de reunificação e reconciliação do povo palestiniano.