Temos de defender Assange!

16 de dezembro 2010 - 2:37

A acusação de violação está a ser usada contra Assange exactamente como a liberdade da mulher foi usada para invadir o Afeganistão, alerta Naomi Klein. Por John Pilger, New Statesman

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Manifestação em Lisboa, foto de Paulo Vieira

"Guardiões dos direitos da mulher” na imprensa de esquerda britânica apressaram-se a condenar o fundador de WikiLeaks. De facto, a cada passo dos seus contactos com o nosso sistema judicial, os direitos humanos básicos de Assange foram desrespeitados.

Há quarenta anos, um livro intitulado “The Greening of America” [O rejuvenescer da América] fez furor. Na capa, lia-se: "Há uma revolução a caminho. Não será como as revoluções do passado. Virá do indivíduo.” Naquele momento, eu trabalhava como correspondente nos EUA e lembro que o autor, jovem intelectual de Yale, Charles Reich, foi elevado, do dia para a noite, à categoria de guru. A sua mensagem era que a acção política fracassara e só a “cultura” e a introspecção poderiam mudar o mundo. A coisa misturou-se a uma insidiosa campanha de Relações Públicas das grandes corporações orientada para afastar o capitalismo ocidental do senso de liberdade inspirado nos movimentos pelos direitos civis e contra a guerra. Os novos eufemismos da propaganda passaram a ser pós-modernismo, consumismo e ‘eu-ismo’.

O ego era então o zeitgeist [al. espírito do tempo]. Impulsionado pelas forças do lucro e da média, a busca da consciência individual arrasou o espírito da justiça social e do internacionalismo. Proclamou-se a nova divindade; o pessoal era o político.

Em 1995, Reich publicou “Opposing the System”, no qual desdisse praticamente tudo que escrevera em “The Greening of America”. “Não haverá alívio nem para a insegurança económica nem para o fracasso humano”, escreveu então, “até que reconheçamos que forças económicas descontroladas criam conflito, não bem-estar (...)”. Dessa vez, não houve filas nas livrarias. Em tempos de neoliberalismo económico, Reich estava em descompasso com o individualismo crescente da nova elite política e cultural do ocidente.

Falsas militantes

O renascimento do militarismo no ocidente e a busca por uma nova “ameaça” depois do fim da Guerra Fria decorreram da desorientação política dos que, vinte anos antes, teriam constituído oposição veemente. E afinal, dia 11/9/2001, foram finalmente silenciados, e muitos foram cooptados para a “guerra ao terror”. A invasão do Afeganistão em Outubro de 2001 teve apoio de lideranças feministas, especialmente nos EUA, onde Hillary Clinton e outras falsas militantes do feminismo fizeram do tratamento às mulheres afegãs pretexto para atacar o país e provocar a morte de pelo menos 20 mil pessoas, além de dar renovado alento aos Taliban. A evidência de que os senhores-da-guerra apoiados pelos EUA eram tão violentos quanto os Taliban não foi considerada argumento capaz de contraditar tão elevadas disposições. O espírito do tempo – os anos da despolitização “pessoal” e do obnubilamento do verdadeiro radicalismo – havia funcionado. Nove anos depois, a consequência é o desastre no Afeganistão.

Parece que a lição precisa ser outra vez aprendida, se se vê a fúria com que um grupo de feministas mediáticas se atira contra Julian Assange e WikiLeaks – a “Wikiblokesphere”, como diz Libby Brooks no Guardian de 9/12. Do Times ao New Statesman, muitas feministas têm-se comprometido no ataque contra Assange, a partir das acusações incompetentes, contraditórias, caóticas da justiça sueca.

Dia 9/12, o Guardian publicou uma longa entrevista feita por Amelia Gentleman com Claes Borgström, apresentado como "altamente respeitado advogado sueco”. De fato, Borgström é sobretudo poderoso membro do Partido Social Democrático. Só interveio no caso Assange quando a Procuradora sénior de Estocolmo desconsiderou a acusação de “violação” por “absoluta falta de provas”. No artigo de Gentleman para o Guardian, uma fonte anónima assopra aos leitores que “o comportamento com as mulheres (...) vai acabar criando problemas para Assange”. O boato foi levado por Brooks ao jornal, no mesmo dia. Ken Loach, eu e outros “da esquerda” estamos “lado a lado” acompanhando os odiadores de mulheres e “teóricos da conspiração”. Para o inferno a investigação jornalística. Reinam a ignorância e o preconceito.

O advogado australiano James Catlin, que defendeu Assange em Outubro, diz que as duas mulheres disseram aos procuradores que haviam concordado com fazer sexo com Assange. Depois do “crime”, uma das mulheres ofereceu uma festa em homenagem a Assange. Quando Borgström foi perguntado sobre por que defendia as mulheres, dado que ambas desmentiram a acusação de violação, ele respondeu: “Elas não são advogadas.”

Catlin descreve o sistema judicial sueco como “caixa de piadas”. Assange e os seus advogados pediram, durante três meses, às autoridades suecas, que lhes fosse permitido ler o processo. Nada conseguiram até dia 18/11, quando receberam o primeiro documento – em idioma sueco, o que contraria a lei europeia.

Ameaça nada velada

Até agora, Assange ainda não foi formalmente acusado de coisa alguma. Jamais foi “fugitivo”. Pediu e obteve autorização para deixar a Suécia e a polícia britânica sempre soube do seu endereço, desde o instante em que pisou em solo britânico. Nada disso impediu que um juiz inglês o prendesse dia 7/12, ignorando sete dispositivos legais, e o mandasse para uma “solitária” na prisão Wandsworth.

Em todos esses passos, os direitos humanos básicos de Assange foram desrespeitados. O covarde governo australiano, que tem a obrigação legal de proteger e apoiar os seus cidadãos, ameaçou confiscar seu passaporte. Em manifestações públicas, a primeira-ministra Julia Gillard, cancelou vergonhosamente até a presunção de inocência, base do sistema jurídico em todo o mundo e também na Austrália. O ministro australiano de Relações Exteriores deveria ter convocado os dois embaixadores, da Suécia e dos EUA, para alertá-los oficialmente sobre a violência contra os direitos humanos de Assange – dentre outros, Assange é vítima no crime de incitamento ao homicídio.

Diferentes desses, multidões de cidadãos decentes reuniram-se em manifestações a favor de Assange: nem são odiadores de mulheres, nem “cães pit-bulls da Internet” – expressão de Libby Brooks para designar os que defendem valores diferentes dos defendidos por Charles Reich.

Noutro campo, das feministas de respeito, Naomi Klein escreveu pelo Twitter:

“Rape is being used in the #Assange prosecution in the same way that women’s freedom was used to invade Afghanistan. Wake up! #wikilieaks” / [“A violação está a ser usada na acusação contra Assange exactamente como a liberdade da mulher foi usada para invadir o Afeganistão. Acordem!”

15/12/2010

Tradução do colectivo de tradutores da Vila Vudu