Síria: deserção de Riad Hijab causa nova fenda num partido fraturado

A fuga do primeiro-ministro constitui um muito severo golpe para a cada vez mais manchada reputação do partido Baath e vem juntar-se às deserções crescentes de personalidades sunitas do regime sírio e do seu exército.
Parece improvável que o corpulento sr. Hijab vá disparar um RPG-7 nas barricadas de Alepo. Foto wikimedia commons

O desertor de mais alto posto até agora – o primeiro-ministro sírio, Riad Hijab – abandonou o presidente Bashar al-Assad segunda-feira e foi para o mais rico apoiante dos rebeldes sírios: o petro-estado do Qatar.

Numa guerra brutal que envolve quase tanto cinismo quanto sangue, a saída de Hijab – apesar de ser um golpe altamente simbólico no regime – não constitui um golpe mortal para o presidente.

Tal como os generais e diplomatas que o precederam no exílio, o primeiro-ministro era muçulmano sunita, e é na minoria alauíta dentro do partido Baath e do governo que se apoia Bashar. Esta mantém-se leal a ele.

O sr. Hijab deixou ao seu porta-voz na Jordânia a tarefa de anunciar que ele tinha “desertado do regime terrorista e assassino” e aderido “às fileiras da revolução da liberdade e da dignidade” e, daquele momento em diante, seria “um soldado desta santa revolução”.

Parece, porém, improvável – por mais “santa” que seja a revolução – que o corpulento sr. Hijab vá disparar um RPG-7 nas barricadas de Alepo. É mais provável que se junte à mescla tagarela de ex-“lealistas” do regime que agora se reúnem em torno de três separadas e muitas vezes antagónicas oposições que declararam “governos no exílio”, a maioria das quais grata ao imensamente rico emirado do Qatar, para não falar do profundamente “democrático” reino da Arábia Saudita, que apoiam a revolução.

O próprio governo sírio apressou-se a afirmar que Hijab já tinha sido demitido do cargo quando fugiu – uma declaração que só aceitam aqueles que ainda acreditam no Pai Natal – mas Bashar nomeou imediatamente um sucessor, Omar Ghalawanji de Tartous, que já era ministro na administração.

As raízes de Hijab, contudo, são muito interessantes. Vem da cidade de Khirbet Ghazel, na província de Deraa, onde começou a revolução depois de a polícia do regime ter torturado até a morte um rapaz de 11 anos.

Mais importante ainda, Hijab é primo do vice-presidente, Faroukh al-Sharaa, outro sunita, mas que faz parte do grupo de ministros que realmente toma as decisões. Ministro de Negócios Estrangeiros leal e eficiente no governo de Hafez, pai de Bashar, muitos suspeitaram que o próprio al-Sharaa pudesse desertar – o seu único pronunciamento recente foi justamente para mostrar que não o tinha feito – mas parece pouco provável.

Depois de 20 anos de serviço aos baathistas, al-Sharaa é visto por Bashar como um homem muito confiável. Diante das deserções recentes, porém, estas afirmações têm de ser concluídas com um “por enquanto”. A fuga de Damasco de Hijab constitui um muito severo golpe para a cada vez mais manchada reputação do partido Baath, fundado como uma instituição laica que abraçava todos os grupos religiosos por, entre outros, o cristão Michel Aflaq. As deserções crescentes de personalidades sunitas do regime sírio e do seu exército, assim, criam uma fenda no já fraturado Baath.

Segundo o porta-voz de Hijab, cuja retórica não coincide exatamente com a sua credibilidade, o ex-primeiro-ministro apenas aceitara a promoção do cargo de ministro da Agricultura dois meses antes porque fora ameaçado de ser executado.

Parece uma mentira deslavada. O presidente Assad dificilmente nomearia um primeiro-ministro na ponta da espingarda, já que o pobre homem iria quase certamente desertar; que foi o que, no fim de contas, Hijab fez.

Publicado no The Independent

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net


Comentários

Parece-me um artigo verosímil sobre o problema sírio. Considero-o assim um pequenino oásis no deserto da informação dita «democrática, pluralista e em liberdade» da maior parte dos «media» portugueses, europeus, para já não falar dos israelitas e americanos.
Quero recomendar, a propósito deste problema, a consulta de:
http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaImprimir.cfm?coluna_id=5498. Trata-se um pequeno artigo de um brasileiro Francisco Carlos Teixeira intitulado «o arabesco sírio».
POrque relacionado,não quero também deixar de recomendar a leitura de uma série de pequenos artigos sobre o Irão, insertos na revista «Courrier internacional», no seu número 193, de Março de 2012, ( preço 3,50 euros), a partir da página 46 e até à página 58. Deverão ler também, nesta mesma revista, o artigo «Onde é que eu já vi isto?», a pág. 98, deste mesmo autor, Robert Fisk, mas este sobre Israel.

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