Ao contrário do balanço da Direcção, que afirma que os eleitores não perceberam a política do BE (apesar de no geral acertada), sustenho que perceberam muito bem os seus sucessivos ziguezagues: decidindo portanto castigar eleitoralmente o BE.
Neste texto, esboçarei a minha análise da estrutura interna, das política adoptadas e perspectivas futuras da organização bloquista.
1-A democracia interna
O BE constrói-se de cima para baixo como fruto de um grande acordo entre o PSR, a UDP, a PXXI e alguns independentes. Criticando correctamente o PCP pela ausência de democracia interna, procura inovar, possibilitando a expressão de diferentes sensibilidades e tendências no seu interior.
Não obstante, e tal como tem vindo a público, as grandes decisões foram sempre concentradas num núcleo bastante restrito de dirigentes, acabando por se criar um clima de grande sectarismo interno face a sensibilidades e opiniões diferentes, transformando-se as Convenções em espaços de “comício” à imagem dos “grandes partidos”.
O BE nunca se preocupou seriamente em se enraizar no movimento sindical, em estruturar-se em núcleos, em criar uma estrutura militante; pelo contrário apostou sempre todas as suas cartas no Parlamento e nas agendas mediáticas. Criou-se um grande corpo de funcionários desligados de lutas concretas, gravitando à volta do Parlamento, das sedes e das tarefas burocráticas.
Embevecido pelo seu sucesso eleitoral, imaginou-se uma “esquerda grande” e sonhou com um “resultado histórico”, embora um olhar para dentro de casa lhe recomendasse mais humildade. Entusiasmados pelo crescimento ininterrupto da bancada parlamentar, confiantes na sua táctica que «encurralava» o PS, obrigando-o a apoiar o mesmo candidato presidencial do BE, mirando com desdém as «esquerdas velhas» a quem opunham uma proclamada «modernidade», obstinados na sua «democracia iluminada»; os principais dirigentes do BE levaram com um grande “banho eleitoral de realidade”.
Ensaiam-se agora autocríticas, produzem-se lamentações, os seus quadros pelejam-se na praça pública, e claro está, «zangando-se as comadres sabem-se as verdades».
Internamente, a realidade parece ser a grande culpada, é a «viragem à direita», foi o «o clima de medo da troika», «o aumento do desemprego», e a «vitória de Cavaco na primeira volta».
Reconhecendo-se que a falta de estrutura militante gera um eleitorado menos fixo e mais volátil, ainda existe quem considere tal um “feitio” e não um “defeito”. Autocrítica com certeza, fica bem, ma non troppo!
2- Rumo estratégico
Recusando tanto os regimes comunistas como o capitalismo, e afirmando o socialismo como horizonte estratégico, o BE encontrou uma formulação que lhe permitiu diferenciar-se destas duas organizações. Mas se estas formulações generalistas de «boas intenções» eram possíveis num período em que o BE era uma força minoritária de oposição; o seu crescimento abriu naturalmente no seu seio um debate interno (cuidadosamente concentrado na sua direcção) sobre a política de alianças e o modo de chegar ao poder.
Mas como resultado de sensibilidades diferentes e procurando agradar a “gregos e troianos”, a sua política sofreu ziguezagues constantes.
Primeiramente apontou as suas baterias na sedução de Manuel Alegre, um dos chefes históricos do PS que encabeçou a contra-revolução contra o perigo da «comuna de Lisboa», e foi afastando todas as oposições à esquerda dentro dos socialistas, já desde o 1º Congresso na legalidade. Promoveu encontros, multiplicou-se em manifestações de apreço, sublinhou e destacou todas as suas afirmações “à esquerda”, silenciou com zelo obstinado qualquer suave crítica ou ideia demarcadora. Alegre agradeceu o apoio incondicional à sua figura de “patriota” e de “esquerda”, e foi negociar com naturalidade com Sócrates o apoio do partido do governo à sua candidatura.
O BE imaginava estar a criar fracturas dentro do PS, a romper a sua base social de apoio, a cativar uma figura de esquerda dentro dos socialistas, rejubilava com o «sapo» que obrigava Sócrates a engolir, clamava internamente estar a colocar o PS «entre a espada e a parede», obrigando-o a seguir a posição pioneira do BE...
Mas na hora da verdade, os resultados não foram os esperados: o BE ficou dividido com o apoio a Alegre em vez de dividir o PS, apareceu colado a um dos governos mais anti-populares do pós 25 de Abril, ajudou a convencer o seu «eleitorado flutuante» que está basicamente de acordo e apoia a «esquerda do PS» (que por sua vez também é apoiada por Sócrates), Alegre obteve um resultado desastroso e Cavaco foi reeleito.
Apercebendo-se que a sua colagem ao PS tinha ido longe demais (não tanto por razões ideológicas de fundo, mas mais por cálculos eleitorais), assustado com a hecatombe presidencial, o BE decide emendar o passo, e antecipando-se ao PCP, lança contra o governo uma Moção de Censura que ninguém levou a sério (talvez nem mesmo o BE...)
As sondagens demonstram sem margem para dúvidas, que é no rescaldo desta esquizofrenia política que começa a irresistível descida do BE, e não na recusa de qualquer reunião com a troika.
Além das considerações de «sobrestimação da viragem à direita do país» (que no máximo confessam meramente que as expectativas eleitorais deviam ter sido mais moderadas); a questão da não reunião com a troika (dos três pontos que quase todos os comentadores elegeram como os possíveis causadores da derrota eleitoral, a saber: Alegre, Moção de Censura e Troika) foi a única que mereceu uma autocrítica formal.
Precisamente no ponto em que o Bloco mais poderia capitalizar mais pela esquerda no próximo período, é aquele ao qual decide dar a «mão à palmatória» às críticas dos seus sectores mais moderados e favoráveis a um acordo com o PS!
Quando a massa confusa e desmoralizada se aperceber que a troika quer dar a provar a Portugal a mesma receita que recomendou à Grécia, com todas as medidas anti-populares a serem impostas pelo carimbo do FMI, o ambiente geral vai mudar, e os partidos não comprometidos podem obter dividendos políticos de «terem tido razão».
De qualquer modo, não foi a não reunião com a troika que precipitou a vertiginosa descida do BE nas sondagens, mas sim o ziguezague “apoio a Alegre, censura a Sócrates que também apoia Alegre”; nem é esta autocrítica agora que vai convencer o eleitorado de que são “razoáveis”, quanto muito ainda desorienta mais o BE e os seus eleitores, e vira a organização um bocadinho mais «à direita».
A confusão reina e fica-se sem perceber qual é a política do BE face ao PS: Quer o BE formar governo com um PS «mais à esquerda», dirigido por uma figura do tipo Manuel Alegre? Ou isto é apenas uma «prodigiosa fantasia»?
A «recomposição de esquerda» de que fala, envolve o PCP ou não?
E se envolve outros sectores, que não só necessariamente o PS e/ou o PCP, quem são esses agentes na realidade nacional?
E definindo-se o «objectivo estratégico» na base do que se rejeita (comunismo soviético e capitalismo neoliberal); que espécie de «socialismo» é esse que o BE propugna? Um socialismo que rompe com o regime político, à imagem de um novo 25 de Abril ou um socialismo dentro do Euro, da União Europeia, sem romper com o regime e no quadro de uma economia de mercado capitalista?
3-Começar de novo
As raízes profundas do ziguezague bloquista, residem na sua fraca implantação social e na sua nebulosa político-programática.
É necessário começar de novo, culminando os debates com que hoje em dia se confrontam os bloquistas numa Convenção antecipada, longe do formato de comício, mas capaz de discutir democraticamente as diferenças e as convergências necessárias para o próximo período. É preciso crescer «de baixo para cima».
A melhor maneira de acabar com o BE é «enfiar a cabeça na areia» e recusar a antecipação de uma Convenção esclarecedora.
O BE encontra-se numa encruzilhada estratégica, em que se confrontam dois rumos. Um que pretende manter ou aprofundar a actual política face ao PS, que consiste em estabelecer um acordo com um PS «mais à esquerda», arriscando-se a que se prefira «o original à cópia». Ao não efectuar nenhuma autocrítica do «caso Alegre» a direcção condena-se a cometer os mesmos erros, não fazendo nada mais do que confirmar que, mais cedo ou mais tarde, repetem o número, e que é esse o seu rumo, consciente ou inconscientemente, com mais ou menos ziguezagues: ceder no essencial, às vozes dos mais moderados, que alardeiam ser urgente mais pressa nessa política de transformar o BE no CDS do PS.
A única alternativa a este estado de coisas só pode ser voltar a «correr por fora», junto do mundo do trabalho, dos movimentos sociais, fomentando uma rede de activistas e militantes que contem na luta social e transformação da realidade. Um BE menos dependente do «voto útil» e que não entenda o parlamento como um «fim em si mesmo». Um Bloco apostado a ser uma alternativa socialista político-programática ao PS e ao PCP e não uma “muleta” ou um mero “interlocutor não sectário” entre estas duas organizações.
Crescer mais lentamente talvez, mas de forma mais sustentada, com mais alternativa social e política.
A melhor maneira de cativar os votantes socialistas, não será certamente, convencendo-os de que a sua «ala esquerda» é “um esteio na defesa do Estado Social” ou “um firme aliado na luta contra o FMI”; é precisamente demonstrando que não o é, e que a alternativa mora à esquerda.
O período que se avizinha vai oferecer às organizações de esquerda terreno fértil para se desenvolverem. A greve geral, os 300.000 à rasca, inúmeras greves e paralisações varreram o país nos últimos anos; mais luta social se avizinha: organizar uma resposta unitária sem exclusões com todos os que recusem o FMI; sem ilusões ou compromissos ou esperanças em nenhum dos partidos comprometidos com a troika; para defender o público contra o privado e levantar uma alternativa de poder em ruptura com o FMI e o «capitalismo realmente existente»; disto sim, depende o futuro do BE enquanto organização útil para um projecto de socialismo que não vá a correr, de braços abertos e programa na gaveta, numa prodigiosa fantasia, para os Alegres da próxima esquina.