Polícia moçambicana mata dez manifestantes

Entre os mortos estarão duas crianças que participavam dos protestos contra os aumentos de preços dos produtos essenciais. Foram efectuadas pelo menos 142 prisões.
Um carro arde e populares protestam no bairro de Benfica, subúrbio de Maputo. Foto de ANTONIO SILVA / LUSA
Um carro arde e populares protestam no bairro de Benfica, subúrbio de Maputo. Foto de ANTONIO SILVA / LUSA

O balanço do primeiro dia dos protestos populares contra os violentos aumentos de preços dos produtos essenciais em Moçambique aponta para a morte de dez pessoas – entre elas duas crianças – e ferimentos em mais de 50. A polícia usou balas reais para dispersar os populares e há um registo vídeo de um homem a disparar uma carabina da janela de uma sede da Frelimo, contra a população na rua. Pelo menos 142 pessoas foram presas. Os protestos concentraram-se em Maputo, mas, segundo fontes ouvidas pela TSF, chegaram também à cidade da Beira.

A revolta popular foi provocada pelos violentos aumentos de preços: o pão subiu de 7 para 10 meticais, sendo que um salário baixo, em Moçambique, não ultrapassa os 2.500 meticais por mês. O aumento dos combustíveis foi o terceiro consecutivo – o litro de gasolina está quase a um dólar. Houve também aumentos das tarifas da água potável e da electricidade.

Os protestos nasceram de convocações por mensagens de SMS, a chamar para o dia 1 uma greve de protesto pelos aumentos. Barricadas foram montadas em Maputo, as estradas de acesso à capital foram bloqueadas e o sistema de transportes parado. A maioria das lojas permaneceu fechada, e houve assaltos de manifestantes a armazéns.

O presidente Armando Guebuza foi à televisão dizer que os “compatriotas que são usados nesta agitação estão exactamente a contribuir para trazer luto e dor no seio da família moçambicana”. Guebuza lamentou que “em vez de uma manifestação pacífica e ordeira assistimos a manifestações que se saldaram em óbitos e em feridos graves e que também resvalaram para cenas de vandalismo”. O chefe de Estado responsabilizou pela situação “factores externos que incluem a crise financeira, de alimentos e a subida dos preços dos combustíveis” no mercado internacional.

A Renamo, de oposição, condenou a utilização de balas reais contra os manifestantes e exigiu a demissão do ministro do Interior pelo Presidente da República. “Na Constituição da República não está prevista a pena de morte, se um cidadão cometeu alguma infracção o normal é ser julgado e condenado, mas não à pena de morte”, disse à Lusa Fernando Mazanga, porta-voz do partido.

Comentários

O mais "engraçado" - que não o é - foi ver alguns comentadores a questionarem-se se existiria alguém a maquinar estas manifestações. Será que não entendem que quando um povo não consegue ter comida na mesa é natural vir para a rua protestar para o ter ? Não é ninguém em especial mas o todo em si. Não existe nenhuma instrumentalização mas sim uma necessidade muito humana em sobreviver e uma manifestação comum a acompanhar.

O problema é que estas mentes ocidentais estão enfiadas na ordem política das coisas e já se esqueceram da simplicidade de uma barriga vazia em protesto.

Quando será que, com toda a frontalidade, se acusam os comprovados mentores das crises económicas que avassalam o mundo?

Quando será que as pessoas percebem que o mundo está a ser dominado por forças satânicas disfarçadas de religiosidades que afirmam inspirar-se no divino?

De quem é o poder dos bancos e dos grandes trusts? Durante quanto mais tempo vão actuar no sentido de continuarem a enriquecer ainda que isso represente a miséria e a fome de milhões?

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